De volta para casa

Depois de duas décadas de parceria com a China, a Incoterm estuda repatriar a produção

Por Laura D´Angelo

laura.cauduro@amanha.com.br

Germano Scherer, fundador da Incoterm

Os termômetros da recepção da Incoterm marcam 12°C. Eles não são apenas o registro de uma manhã fria na zona sul de Porto Alegre, mas também o cartão de visitas da empresa. Com eles, a Incoterm deixa claro que o negócio da companhia é – e sempre foi – medir. Quando começou, em 1973, fundada pelos irmãos Germano e Semiro, o portfólio se restringia aos termômetros ambientais e decorativos. Passados 42 anos, uma sociedade e uma parceria, o mix de produtos chega a 3 mil itens, que incluem desde medidores de pressão digitais até cortadores de medicamentos. 

Na linha de tempo da Incoterm, dois acontecimentos são fundamentais para compreender sua trajetória. O primeiro, no final da década de 1970, quando metade da companhia foi vendida à alemã TFA, de Heinz Dostmann. O aporte financeiro permitiu colocar a marca não apenas na casa dos consumidores, como também nos hospitais e consultórios brasileiros. Até então fabricante de termômetros de uso industrial ou decorativo, ela passou a produzir termômetros para a saúde, utilizados para medir a febre. O segundo acontecimento marcante ocorreu na década de 1990, quando a abertura às importações expôs o mercado nacional à invasão de produtos chineses, significativamente mais baratos que os nacionais. No melhor estilo “se não pode vencê-los, junte-se a eles”, a Incoterm transferiu sua produção para a China, conservando no país apenas a fabricação dos termômetros de vidro. Desde então, toda a linha voltada à saúde, que inclui, entre outros, termômetros digitais, medidores de pressão e balanças (hoje responsável por 70% do faturamento), é importada.

Agora, quarentona, a Incoterm escreve mais um importante capítulo de sua história. Ela quer trazer, aos poucos, a produção feita no Oriente novamente para o Sul. Segundo Germano Scherer (foto), fundador da empresa, alguns sinais mostram que esse é o melhor caminho. Um deles está na China, onde a mão de obra tem encarecido. Algumas companhias estão transferindo a manufatura para outros países asiáticos, quando não simplesmente repatriando linhas inteiras em busca de custos menores. O motivo reside no esgotamento da mão-de-obra barata oriunda do meio rural, principal atrativo chinês. Como o movimento migratório para as cidades tem arrefecido, a disponibilidade da força de trabalho caiu, elevando os preços. Além disso, os trabalhadores também têm demonstrado maior consciência de classe, exigindo direitos antes ignorados. Outro aspecto que deve colaborar para que a Incoterm inicie o caminho de retorno são as demonstrações de que o governo brasileiro cobrará maiores tributos dos produtos importados. Recentemente, por exemplo, a presidente Dilma Rousseff sancionou uma lei que aumenta as alíquotas de PIS/Cofins sobre bebidas, produtos farmacêuticos e cosméticos. “As empresas brasileiras precisam investir em produção própria. Aquilo que se fazia lá fora terá de ser feito aqui”, sentencia Scherer. A repatriação da manufatura é uma decisão importante e arriscada, mas bem calculada. A Incoterm sabe que detém a estrutura física e o know-how necessários para liderar o movimento e sair na frente dos concorrentes – que, na sua maioria, permanecem apenas como importadores. Por isso, a empresa cogita renacionalizar a fabricação de termômetros digitais já em 2016. 

A burocracia trava o caixa 
Estar à frente da concorrência é fundamental em um setor que clama por frequentes novidades. O desenvolvimento de produtos é todo feito na sede de Porto Alegre, seguindo as tendências identificadas junto com revendedores e consumidores. E é nesse processo que está o maior obstáculo para a Incoterm. A empresa tem de planejar com alguns anos de antecedência os novos produtos que entrarão no mercado. Enquanto o processo de criação consome até um ano dentro da empresa, o de testes e aprovação, dependentes de Inmetro e Anvisa, podem exigir o dobro. “Às vezes, [os órgãos de fiscalização e certificação] pedem alterações que não são necessárias, pois nem mesmo eles sabem exatamente o que a legislação exige. Perde-se muito tempo nesse vai e vem de papéis”, reclama Karen Almeida dos Santos, supervisora de qualidade. 

A demora na obtenção das certificações legais compromete o desempenho comercial da empresa. Desde 2014, por exemplo, a Incoterm não consegue liberar um nebulizador dos escaninhos do Inmetro e da Anvisa. “Queríamos tê-lo lançado em um evento comercial fortíssimo, mas não tivemos condições, nem no ano passado, nem neste”, desabafa Ana Paula Marquioretto, gerente de marketing e vendas. A apreensão de Ana Paula se justifica: a estimativa de crescimento de 20% do faturamento da linha de saúde para este ano está diretamente ligada à comercialização do nebulizador. “Os nebulizadores rendem dez vezes mais do que os medidores de pressão, que são nosso carro-chefe. Imagina o que a empresa poderia ter crescido se tivesse lançado no ano passado, como estava planejado”, lamenta Ana Paula. 

Mas o nebulizador não é o produto que bate recorde de tempo de espera. Há quatro anos, a Incoterm tenta lançar um leitor de pressão conectado ao iPhone. O produto já é comercializado há anos, na Europa e nos Estados Unidos, onde, inclusive, possui a aprovação da Apple. Diante desses exemplos, a típica morosidade e burocracia dos órgãos de fiscalização brasileiros desafiam a compreensão do alemão Andreas Weimer, há sete anos na direção da empresa. “São coisas básicas que a gente precisa para poder avançar, inovar. São questões simples que, para mim, fica difícil entender”, admite, para logo depois dar uma demonstração da persistência que caracteriza a Incoterm: “Pensamos sempre em buscar a melhor forma de trazer um produto para cá. Se não fizermos isso, outros farão. É a competição que provoca constantes melhorias”.

Na medida para o futuro
Casado com a sobrinha de Germano Scherer, Weimer é um dos poucos colaboradores ligados à família fundadora. Scherer preparava a filha Adriana para assumir o controle da empresa quando se aposentasse, mas a repentina morte dela, em 2011, levou-o a mudar de planos e vender 30% do negócio à sócia alemã – que atualmente detém, ao todo, 70% da Incoterm. Ainda assim, Scherer não consegue se afastar totalmente da rotina do negócio e de cuidar do futuro da companhia que criou há mais de 40 anos. “A Incoterm tem de se preocupar em produzir, investir em tecnologia e se manter em crescimento, como tem feito até hoje”, recomenda, orgulhoso. E, aos poucos, a equipe de colaboradores vai seguindo o conselho do seu antigo líder e, agora, principal consultor.

Além de se preparar para repatriar a produção feita na China, a Incoterm tem vários planos para os próximos anos. O primeiro, em andamento, é a reforma da sede. O prédio está em obras e abrigará em um mesmo andar os setores administrativo e de pesquisa e desenvolvimento, permitindo liberar todo o térreo para depósito. O segundo é a construção de dois pavilhões, também no terreno de Porto Alegre, para alocar o estoque e melhorar a logística interna. Por fim, o projeto mais ambicioso e mais aguardado, é a construção de um Centro de Distribuição (CD) em algum estado do Sudeste ou do Centro-Oeste. 

A questão logística é vista pela área comercial como fundamental para que a Incoterm aumente sua presença para além do Sul. Ana Paula explica que o CD diminuiria custos com transporte e impostos, permitindo à empresa praticar preços mais competitivos. No entanto, o investimento está em standby, à espera de um cenário econômico mais encorajador. “As leis e as condições aqui no Brasil mudam muito rápido, às vezes de um dia para o outro. O que hoje parece bom, amanhã não é mais uma boa ideia. Isso posterga as decisões”, desabafa Weimer. A realidade econômica impede que alguns projetos sejam postos em prática, mas, desde a sua origem, a Incoterm persegue a medida do sucesso. No horizonte da empresa há ainda muito a conquistar. “Existe muita coisa para se medir neste mundo e para qual ainda não oferecemos solução. Acredito que, no futuro, teremos um espaço maior no mercado”, aposta Weimer. A Incoterm projeta para 2015 uma receita bruta de R$ 60 milhões, o que indica, na comparação com o ano passado, uma nada desprezível elevação de 15% na temperatura dos negócios.

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