América Latina ainda é destino de investimentos em 2015

É o que pensa Venancio Castañon, executivo que estuda a região

Por Wharton

Venancio Castañon, diretor da TTR, empresa especializada em análise de dados

Europa e Estados Unidos continuam a ser os principais investidores na América Latina. No entanto, há um número cada vez maior de regiões, como a Ásia, interessadas em ampliar sua presença nos países latinos. Em um mercado cada vez mais competitivo, observa-se o aquecimento do mercado de fusões e aquisições dentro e fora da região. A Espanha mostrou que é destino prioritário dos investimentos latino-americanos que desejam colocar o pé na Europa, conforme fica evidente na entrevista a seguir de Venancio Castañon, diretor da Transactional Track Record (TTR), empresa especializada em análise de dados dos mercados da Espanha, Portugal e América Latina.

Como está evoluindo o mercado de fusões e aquisições entre Espanha e América Latina?

A América Latina continuará a ser um dos principais destinos dos investimentos neste resto de ano e aumentará de forma progressiva devido à instabilidade dos mercados mais maduros do Ocidente, principalmente a Europa. Os europeus continuam a ver na América Latina uma opção clara de crescimento devido às barreiras de entrada muito altas em ouros mercados. A maior operação registrada este ano foi a compra da GVT pela Telefónica do Brasil por US$ 8,3 bilhões. Isso significa que as grandes empresas europeias, principalmente as espanholas, continuarão a fazer aquisições na América Latina. Os planos de infraestrutura do Peru e do México continuam a ser atrativos importantes para o posicionamento das empresas, sem falar do setor de energia e de minérios. De acordo com dados colhidos pela TTR, o volume de transações no primeiro semestre do ano foi de 956, contabilizando um total de US$ 75,3 bilhões. No mesmo período de 2014, foram registradas 929 operações que totalizaram US$ 85,2 bilhões. Embora o montante tenha sido ligeiramente inferior, o número de operações foi superior devido à atividade cada vez mais dinâmica do capital de risco e dos empreendedores na América Latina.Por outro lado, a diminuição do valor está relacionada aos efeitos colaterais que o mercado chinês produziu no mundo, de modo especial na demanda de matérias-primas e de empresas de manufatura. No que diz respeito à região, o país que mais se destacou neste primeiro semestre continuou a ser o Brasil ajudado pela queda do real, tendo registrado 475 operações num total de US$ 32,5 bilhões; em seguida vem o México, com 138 operações num total de US$ 16,7 bilhões. Colômbia e Argentina vêm a seguir. A Argentina, diante de uma possível mudança de governo, juntamente com Cuba, continua a ser objeto de sondagens por parte dos investidores europeus, norte-americanos e latino-americanos.

Quais tendências podemos esperar para o que vem? De modo geral, quais setores são mais fortes ou apresentam mais atividades?

A tendência continuará a ser de alta. As únicas variáveis serão as operações domésticas ou de cross-border [transfronteiriças ou internacionais]. Em países como o Brasil, além do tamanho do mercado, há, provavelmente, um aumento do número de operações devido à moeda local. O mesmo acontecerá com o México, já que, dada a fragilidade do peso, continua a ser uma das principais atrações da América Latina, não só por seu tamanho, mas também por sua relação com o vizinho do norte, que cada vez mais se fixa em seu vizinho do sul. Empresas como AT&T, ou fundos como Blackrock, estão investindo no país. Os setores com mais movimento dependem de cada país: Argentina e Brasil se destacam no setor de internet e de tecnologia; Chile, Colômbia e Peru estão voltados para a indústria financeira e de seguros, ao passo que no México há um maior volume de atividades no setor imobiliário, impulsionado sobretudo pelo Fibras [veículo de investimento imobiliário semelhante as SOCIMIS espanholas cujas ações são negociadas na bolsa].

Houve alguma mudança de tendência significativa no mercado de operações corporativas nos últimos anos?

A América Latina continua sendo objeto de atenção das empresas europeias e norte-americanas ajudadas pela liquidez deste ano. Somem-se a isso os bons resultados dos mercados e os fortes investimentos. Contudo, os latino-americanos se fixam cada vez mais na Europa e já é possível observar tendências de posicionamento na Europa. A Espanha é um dos principais destinos, graças ao idioma e ao grande número de operações dos latino-americanos. De modo especial, porém, são os mexicanos que mais apostaram na Espanha. As operações mais importantes de compra na Espanha estão sendo feitas por empresários como Carlos Slim, Carlos Fernández e Antonio del Valle, que vêm investindo especialmente nos setores de imóveis e nos bancos. Além dos nomes mencionados, o setor de alimentos é o mais interessante para os latinos, destacando-se aí a compra da Moy Park, na Irlanda, por US$ 1,2 bilhão, bem como a aquisição da Sigma & WH Food Europe (Campofrío), na Espanha, por US$ 350 milhões.

Que países latino-americanos estão recebendo mais investimentos da Espanha e de Portugal?

O Brasil recebeu mais investimentos devido à operação da Telefónica, que comprou a GVT por US$ 8,3 bilhões. Além disso, houve no país um total de 12 operações, destacando-se o setor financeiro com várias compras efetuadas pelo Banco Santander. O México, com 21 operações, é o destino preferido, sobressaindo-se o setor de alimentação e o financeiro. Por outro lado, a Colômbia é mais ativa em capital de risco, com 13 operações, sendo a Wayra o investidor mais importante. Em seguida no ranking vem o Chile, com oito transações. Nesse sentido, foi importante a compra da empresa chilena de infraestrutura Dos Mil pela multinacional espanhola Albertis, por US$ 144,8 milhões.

E na América Latina? Quais países estão investindo mais na Espanha? E em Portugal?

Até agora, o México é o país da América Latina que fez mais investimentos na Espanha, contabilizando-se aí as aquisições de ativos e investimentos de capital de risco. Até hoje foram registradas 12 transações ante oito de 2014. A maior delas foi feita por uma empresa mexicana na Espanha em 2015, o Grupo Aeroportuario do Pacifico (GAP), que comprou, da Abertis, 100% das ações da espanhola Concesiones Aeroportuarias por um valor total de 177 milhões de euros. Os demais países que investiram na Espanha em 2015 foram o Brasil, com duas transações, a Argentina, com duas operações; Colômbia, Panamá e Chile, com uma aquisição cada um. Portugal demonstrou não ser muito atraente para os países latino-americanos. Em 2015, isto é, até este momento, houve uma única transação ali: a aquisição por parte da brasileira Agaxtur Viagens de 25% do capital social da portuguesa P Team, uma agência de turismo. No mesmo período de 2014, foram registradas três transações no total, duas por empresas brasileiras e uma por uma empresa colombiana.

Quais setores são os que mais interessam aos investidores latino-americanos fora de suas fronteiras?

A indústria alimentícia é a que mais atraiu investimentos de empresas latino-americanas fora de suas fronteiras. Foram 20 aquisições no setor até a presente altura do ano. No mesmo período, em 2014, as empresas latino-americanas fizeram aquisições fora da região em empresas do segmento financeiro e de seguros, o que correspondeu a 15% do total das transações.

Há empresas chegando à América Latina que não sejam americanas e nem europeias interessadas em se instalar na região através de aquisições?

Embora a Europa e a América do Norte sejam mercados naturais da América Latina, e são eles, efetivamente, os que mais investem na região, a Ásia começa a se posicionar como mais um ator no cenário internacional que, sem dúvida alguma, terá maior importância nos próximos anos. Se analisarmos o volume de transações relativo às aquisições feitas por empresas asiáticas na América Latina, veremos que ao longo de 2014 foram feitas 83 aquisições num total de US$ 31,8 bilhões. Em 2015, observa-se que essa atividade continua importante. Até o momento, entre janeiro e setembro, foram feitas 49 aquisições num montante total de US$ 4,1 bilhões. Se pensarmos em exemplos dessas transações, no ano passado chamou a atenção no Peru a compra, pelo consórcio chinês formado pela MMG (62,5%), GUOXIN International Investment (22.5%) e CITIC Metal (15%), do projeto de mineração Las Bambas, propriedade da suíça Glencore, por US$ 5,8 bilhões. Além disso, foi igualmente importante, em 2015, o acordo de compra do fundo soberano de Cingapura GIC (Singapore Sovereign Fund) da participação minoritária na empresa brasileira Rede D’Or São Luiz, por um montante no valor de US$ 1 bilhão. Esse apetite asiático por investimento vem impulsionado, sobretudo, pelas adequações legislativas dos países latino-americanos e pelos novos convênios comerciais firmados entre ambos os continentes.

Embora se tenha observado uma maior atividade em geral, o tempo de fechamento da operações está mais longo ou mais breve? Qual a situação das transações que não deram certo?

Os processos de transações continuam dentro dos parâmetros habituais, e se é verdade que ainda estamos lidando com um fluxo de cerca de 200 transações de 2014, cujo encerramento deve acontecer ainda em 2015, essas estão sempre vinculadas a processos de autorização dos órgãos competentes. Se levarmos em conta as transações internacionais nas quais estão envolvidas as empresas de diversos países com seus respectivos órgãos regulatórios nacionais e, inclusive, supranacionais, como a Comissão Europeia, o processo se alonga, mas isso é inevitável. Os processos podem demorar ainda mais no caso de transações mais delicadas com empresas de um mesmo setor de países de fronteira nos quais recair em um conflito de concorrência é mais simples. Além disso, os órgãos regulatórios impõem condições para poder dar por finalizada a transação. Com relação às transações canceladas, os dados mostram que uma queda considerável no número de operações sem final feliz. Isso pode ser consequência da análise e do estudo das operações, isto é, da apresentação da oferta firme com negociações mais simples e conclusões mais consolidadas. Além disso, pode haver um menor número de empresas em disputa por uma mesma companhia. Nesse sentido, observa-se uma leve queda de leilões, isto é, há menos empresas interessadas em um mesmo ativo.



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