Gerentona ou gerentinha?

Nos cinco anos em que vem administrando o país, Dilma desmentiu a imagem de boa gestora. Por quê?

Por André D´Angelo

Dilma Roussef, presidente da República, discursa na ONU

Semana passada, ao comentar a atual crise política, disse que o primeiro e o segundo mandatos de Dilma Rousseff acabaram por enterrar a imagem de gestora competente da presidente. E que o momento era propício justamente para discutir as características de bons administradores (leia aqui).

Recordemos: o apelido “gerentona” foi pespegado em Dilma em função de demonstrar domínio dos temas nos quais se imiscuía como ministra ou chefe da casa civil. Além disso, destacavam-se o detalhismo, a intolerância para com desvios, a alta capacidade de trabalho e a permanente cobrança de resultados. O jeito rude no trato com os subordinados, segundo a visão da época em que assessorava Lula, seria apenas reflexo de seu elevado grau de exigência.

Ora, todas essas características constituem, de fato, o perfil de um gerentão no sentido estrito da palavra. Ou seja, de alguém responsável por administrar um projeto ou departamento específico de modo a cumprir certos pré-requisitos, como orçamento e prazo. Muito pouco, no entanto, para a complexidade que é gerir um país, estado ou ministério, posições que demandam outro tipo de habilidade – muito mais política, conciliatória e permeável à opinião alheia do que técnica e autoritária. Senão, vejamos:

 1) O detalhismo de Dilma revelou-se, na verdade, um caso típico de microgerenciamento e incapacidade de delegar. Nada sai do papel sem antes passar pelo crivo da presidente. Por isso mesmo, quase nada sai do papel. Gestores dão diretrizes e deixam a implementação por conta de seus subordinados, a quem cabe cuidar dos detalhes e promover ajustes entre planejamento e execução. E, depois, prestar contas.

2) Até como consequência da primeira característica, seu processo de decisão é lento. Isso paralisa a administração pública e gera dúvida e insegurança em quem a cerca, quando não insatisfação e hostilidade entre aqueles que dependem de uma assinatura dela.

3) Isso contrasta, curiosamente, com algumas decisões que parecem ser tomadas de sopetão, sem um mínimo de reflexão quanto aos custos políticos que podem acarretar. Sinal de que reage mal à pressão? Talvez. Nisso, Dilma lembra Jango: parece fazer questão de cavar o buraco no qual se enterra.

4) Em paralelo às duas primeiras características, há a permanente desconfiança em relação aos outros. Dilma teme ser traída e, por isso, centraliza tudo e não compartilha o que pensa e sente. Há quem diga que essa é uma herança da luta armada, o que não deixa de fazer sentido. Porém, não se atravessa a rua sem um mínimo de confiança nos outros.

5) A aspereza no trato pessoal mostrou-se caminho para a impermeabilidade a ideias de terceiros e o desestímulo à inovação e à divergência. Quem vai se arriscar a dar uma opinião numa reunião ministerial se pode acabar achincalhado na frente de dezenas de pessoas? Não por acaso, Dilma não é exatamente benquista pelos que a cercam, o que faz falta no momento atual. Ninguém vai mover mundos e fundos para salvar o mandato de uma pessoa pela qual já se foi espinafrado.

6) Dilma comunica-se muito mal, especialmente com a população. Nem me refiro às tolices que proferiu em meia dúzia de discursos que já entraram para o anedotário. Mas, principalmente, à inexistência de uma estratégia de comunicação do governo como um todo, de modo a pautar a imprensa e gerar goodwill na sociedade para com ele. Metade do trabalho de um líder é comunicação e, no caso de um presidente da república, talvez mais do que isso. É ele quem ajuda a formar expectativas na sociedade e a pautar o debate. 

7) Inabilidade política. A capacidade de dialogar, transigir e argumentar é fundamental para a vida em um condomínio – que dirá em uma presidência. Dilma não tem gosto pela conversa sem propósitos práticos, o que é compreensível. No entanto, é disso que é feita a política. Receber um grupo de deputados com alguma reivindicação estapafúrdia é visto por ela como perda de tempo, quando a mesma audiência, para um Lula ou um FHC, seria uma oportunidade de criar empatia e arregimentar aliados.   

Resumindo, o caso de Dilma parece ser um daqueles exemplos clássicos de personalidade complicada que afetam o desempenho prático. Ou, como mais modernamente tem sido divulgado, de habilidades não cognitivas (saiba mais aqui) comprometendo a performance profissional. Se não serve de consolo, que sirva ao menos de alerta para gerentões e gerentonas espalhados pelo Brasil.


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