Roteiro de ação para uma boa temporada sueca

O que os brasileiros podem aprender com os habitantes da Suécia

Por Fernando Dourado Filho, de Linköping, Suécia

Linköping

Não tardará muito para que os jornais brasileiros noticiem que uma briosa comunidade de nossos melhores profissionais estará morando na cidade sueca de Linköping, trabalhando diligentemente num projeto de alto impacto tecnológico. O que dizer, portanto, a esses brasileiros com respeito ao que os espera? Ora, que sejam muito felizes e que façam o possível para mostrar o melhor de nossas virtudes. Pois ademais do apuro técnico, temos muita versatilidade e simpatia. Quando cabível - e isso será quase sempre - recomendo que aprendam com o povo hospedeiro. Segundo voz geral, ele tem muito a ensinar.

É claro que é mais fácil dizer do que fazer. Hoje, na hora em que redijo esse texto, estou na bela capital sueca, diante do azul cobalto do mar Báltico e ainda há ainda bastante luminosidade de verão nas folhas que apenas começam a amarelar. Um desafio bem diferente será o das pessoas que virão para a pequena cidade ­ a quinta do país - como residentes. Pois é fato inconteste que passarão a viver num recanto remoto, sob o açoite de um inverno rigoroso. E, no entanto, com a modesta autoridade de quem roda mundo há mais de quarenta anos, creio que se trata de uma oportunidade única para que se façam novos amigos e que se crie uma cultura de aprendizado para a família num país moderno e progressista.

Falar sobre as virtudes suecas é, de certa forma, chover no molhado. País de presença marcante no mundo - seja nas manifestações culturais do prêmio Nobel, seja em sólidas realizações de engenharia tecnológica e social -, o colosso escandinavo é uma quase unanimidade mundial. Salvo, bem entendido, entre os vizinhos. Mas isso é de regra. Quem já viu um vizinho falar bem do outro? Para esses, os suecos acham que tudo o que eles fazem é melhor do que se faz em outras partes do mundo. Dizem mais: por trás da fachada da neutralidade, a Suécia revela algum bairrismo, pois, em todo lugar, lá está sua bandeira inconfundível. Por fim, como a Suécia já dominou política e militarmente a região, os vitimados passam um pouco ao largo da grande confraria escandinava para dizer que nem sempre eles foram tão benevolentes quanto se apregoa.

Mas vamos a alguns aspectos mais prosaicos dessa interação. Um deles diz respeito à atitude que as crianças devem ter diante da menção à origem viking. A boa norma manda que mantenham sempre a cabeça erguida pois os ancestrais são motivo de orgulho. Outro aspecto comportamental que sinaliza algum tipo de vanguarda é a virtual abolição de gênero em algumas escolas. Já não se usam os pronomes ele ou ela. Criou-se um terceiro que designa uma pessoa - hon. Em alguns locais, se aboliu o mictório masculino e se recomenda doravante que os homens urinem sentados. É o igualitarismo levado a pontos inusitados. Mas que ninguém se iluda: apesar de ser uma sociedade sequiosa da igualdade entre as pessoas - não esqueçam, o trato pelo primeiro nome é de praxe -, os suecos trabalham duro para subir na escada social. 

É claro, suecos são introspectivos. Basta ver os filmes de Bergman. Menos do que os finlandeses, é certo, mas mais do que os holandeses, por exemplo. Sendo, ademais, uma sociedade de forte neutralidade afetiva, se diz que quando dois suecos se saúdam, nunca se sabe se estão se encontrando ou se despedindo. Nada, contudo, é tão marcante quanto a frenética busca por consenso que, segundo os europeus ferinos, atrasa dramaticamente as decisões. Certa vez, fomos visitar uma loja num subúrbio fora dos limites de validade dos cartões de metrô. Fui ao guichê para pagar a diferença mesmo porque o trem sairia em minutos. Ora, o bom homem começou uma discussão com a funcionária sobre como economizaríamos mais: se comprando novos tickets ou colocando créditos. Quase perdemos o trem por causa do equivalente a dez reais. Fiquei furioso e, claro, passei por indelicado por ter pedido pressa. 


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