Que horas ela sai?

A queda de Dilma Rousseff é apenas questão de tempo – e não estou convencido de que isso é bom para o país

Por André D´Angelo

Dilma Roussef, presidente da República

Por renúncia ou impeachment, tudo leva a crer que Dilma Rousseff não se mantém no cargo por muito tempo. Ao menos é essa a impressão que passam os principais jornais e revistas do Brasil. Ainda que se reconheçam os sucessivos erros políticos e econômicos de sua presidência, e o verdadeiro impasse em que se transformou o recém-iniciado segundo mandato, não tenho certeza de que uma eventual queda seja benéfica para o país.

Explico.

A não ser que surjam indícios ou provas claros de improbidade, Dilma, no momento, é mais vítima de sua fragilidade política e da derrocada econômica do que de uma mácula moral. Embora saibamos que aquelas são combustíveis imprescindíveis para movimentos de deposição de governantes, não são exclusividade da presidente atual; Sarney percorreu mais da metade de seu mandato sob tempo igualmente ruim, e FHC 2 desde o início não teve vida fácil. Nem por isso falou-se em impeachment ou renúncia, não ao menos a sério.

Pelo que se lê por aí, entretanto, indícios ou provas de improbidade são apenas um dispensável verniz jurídico para o movimento que une oposição, mídia e parte dos supostos aliados. Mesmo que se admita a democracia como dinâmica e os mandatos como não-intocáveis, como escreveu Hélio Schwartsman dia desses (aqui, para assinantes), o impedimento de uma presidente com menos de um ano de mandato é fator de insegurança para futuros ocupantes do cargo. Afinal, fragilidade política e mau tempo econômico podem acometer a qualquer governante; enfrentá-los é provação suficientemente penosa para que seja acompanhada, também, pela sombra da deposição.

Além disso, o planejamento de longo prazo, tão capenga na administração pública brasileira, ganharia um dificultador adicional em caso de um desenlace desse tipo. Historicamente limitado a períodos de quatro anos, poderia ser abreviado – ou abandonado – a cada presidente contestado. Nem o sempre lembrado mecanismo de recall, presente em algumas democracias (saiba mais aqui), funcionaria muito melhor, tornando-se fator de instabilidade justamente quando tudo o que a boa gestão exige é um mínimo de previsibilidade.

Não duvido que, no curto prazo, uma eventual saída de Dilma provocasse impacto positivo, principalmente no terreno econômico. O cenário atual é de uma paralisia pouco convidativa ao investimento produtivo. Porém, ela seria o segundo presidente afastado em 30 anos de democracia, índice muito pouco alvissareiro para a consolidação do regime. Se pensarmos não em uma perspectiva de quatro anos, mas sim de quatro décadas ou mais, a estabilidade está para a democracia como a produtividade para o crescimento econômico – não é tudo, mas é quase tudo.

De toda forma, os quase cinco anos de Dilma Rousseff na presidência já foram suficientes para pôr abaixo sua imagem de “gerentona” construída ao longo dos dois mandatos de Lula – e nos levar a refletir sobre o que, afinal, torna alguém um bom gestor, tema do próximo post.


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comentarios




Sergio Chaves

Muito bom artigo, e também muito corajoso. Num momento em que ir contra a manada é provocar rosnados dos contrariados, que ditam o fora Dilma dia após dia, sem abordar o "pós-fora Dilma", conforme muito bem colocado por você aqui, realmente, faz-nos ver o que a pressão da manipulação da opinião pública faz, cegando o bom senso e o bom planejamento.

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