Um longo caminho que pode durar até 100 anos

Até lá o Brasil pode se livrar da corrupção, opina Ernani Ferrari

Por Ernani Ferrari*

Corrupção

Atualmente é improvável uma publicação não citar a corrupção no Brasil. Será que a razão para isso é que os esquemas de corrupção sistemática revelados nos últimos tempos são os mais abrangentes e descarados já existentes no país? Ou, no fundo, como povo, acabamos por exacerbar o individualismo, o desrespeito ao próximo, o abandono de valores morais, o afastamento da educação e a perda da apreciação pelo coletivo harmonioso e bem-estar do nosso vizinho? Confesso que cheguei a ler menos notícias para não me entristecer mais com tudo o que está acontecendo no Brasil. Assim, eu não quis escrever um artigo falando da mesma coisa – corrupção no Brasil! Gostaria de falar de algo alegre, agregador.

Contudo, parece-me hoje que, como nação, temos de tomar este remédio amargo. Temos de sair às ruas, perder nossas noites de sono, sentir insegurança, viver a dificuldade da renda solapada, ter conversas acaloradas nas reuniões entre amigos e família. Temos de reclamar, nos indignar, nos entristecer e, assim, talvez criar alguma marca mais profunda da qual não nos esqueçamos. Talvez pela dor encurtemos o “tempo” necessário para nos ajustar como nação, povo, comunidade. 

Que “tempo” é esse? Não sou estudioso do assunto, mas conversando com um colega eu disse acreditar que seriam necessários 50 anos para os brasileiros mudarem seu comportamento. Ele me disse que seriam cem. Em uma conexão de Nova York para São Paulo, encontrei um professor de uma universidade federal brasileira e o assunto novamente surgiu. Ele me assegurou que meu colega estava certo – seriam cem anos para que tal mudança ocorresse.

 Estou falando daquilo a que o brasileiro se acostumou, em grande parte por uma visão imediatista e inconsequente. Para ganhar mais, há empresários que participam de esquemas de corrupção para ganhos rápidos, mas colocam suas empresas e seus funcionários em risco constante e, para sua vida pessoal, criam um ambiente inseguro, menos tranquilo, menos digno. E também existem pessoas como aquelas que almocei recentemente no Brasil:  todas reclamando da corrupção, mas concordando com o colega que estava em contato com um delegado para limpar os pontos de sua carteira de motorista. Corrupto é o outro que faz coisas erradas, não nós mesmos? Um outro colega me confidenciou que viajou muitas vezes com a habilitação vencida, apenas dando um “dinheirinho” aos guardas no trajeto. Corrupto é apenas o guarda?

Morei no Canadá na década de 80 e me apaixonei pelo respeito ao próximo, pela segurança, pelo ensino, pela harmonia das pessoas – mesmo elas pagando um altíssimo imposto. Ainda assim optei pelo Brasil – pelos amigos, pela alegria das pessoas, pela comida, pelas praias. Escolhi o país, pois era possível se viver bem. Com a corrupção, isso mudou. Há cinco anos, voltei para os EUA, onde há corrupção, mas o corrupto quando identificado perde tudo o que tem e vai para a cadeia; onde o fraudador do imposto de renda é preso ao invés de pagar uma multa; onde as pessoas não jogam lixo no quintal do vizinho e não cortam filas. Há falhas, mas há o interesse das pessoas em se fazer a coisa certa. Mas continuo sendo brasileiro.

Só vamos encurtar esse “tempo” fazendo o certo. Devemos ser exigentes com cada um de nós e exigir o mesmo dos outros. Se educarmos nossas crianças, talvez em menos gerações deixemos de conviver com o que é errado e vivamos os benefícios coletivos de agir corretamente. Como empresa, cada uma deve se livrar dos hábitos, métodos e artimanhas ilícitos utilizados para ser competitiva, pois agir assim não é um diferencial sustentável para o negócio – e quanto antes ele for lucrativo apenas pelos méritos, melhor. Como indivíduos temos todos de aprender que não podemos nos beneficiar machucando o coletivo – pois o coletivo ferido nos atingirá como indivíduos. 

*Colunista de AMANHÃ, consultor-chefe da Mondo Strategies e membro do Massachusetts Technology Leadership Council.


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