Por mais Embraers e menos fábricas de parafusos no Brasil

Há uma acomodação no país que perpetua modelos desgastados

Por Rodrigo Kiko Afonso*/Endeavor

Unidade da Embraer em São José dos Campos

Vivemos em um mundo em transformação acelerada e é certo que o futuro – não algo que acontecerá daqui a 500 anos, mas em 20 ou 30 – será radicalmente diferente do que vivemos hoje, como indivíduos e como sociedade. Empresas como Google e Uber já desenvolvem tecnologias de carros inteligentes que substituirão os empregos de milhões de motoristas. Empregos que atualmente são de trabalho manual intensivo na indústria serão substituídos por robôs nas próximas décadas.

Futurologistas garantem que já está entre nós a primeira pessoa que viverá para sempre. Com os avanços da medicina e da indústria farmacêutica, seu filho já pode ser uma das pessoas da geração que viverá para sempre. Pode parecer ótimo, mas pense nas consequências disso para a sociedade. Como o Estado irá se preparar para suportar a aposentadoria de pessoas que vivem para sempre? Se a vida é eterna, ter filhos não se tornará uma urgência como é hoje – por conta da limitação da idade? Como novas pessoas (filhos) entrarão no mercado de trabalho, já que as mais “velhas” não envelhecem?

Esta nova realidade não está tão longe assim. Pensando no desenvolvimento econômico e social dos países, fica claro que é preciso criar indústrias e serviços de maior valor agregado e menos primários, o que só acontecerá com investimento pesado em inovação, por parte do Estado e dos setores empresarial e educacional.

No Brasil, a indústria reclama da falta de infraestrutura, dos altos custos de impostos e do peso de salários e encargos nas despesas das empresas. Muitas dessas reclamações são válidas, mas quando analisamos com quem nossa indústria está preocupada em concorrer, vemos que essa guerra pode estar perdida. Nas últimas duas décadas, o Brasil reduziu a desigualdade social; desde o Plano Real, o salário mínimo e o poder de compra dos trabalhadores têm evoluído sistematicamente. Os salários seguem um curso ascendente, mais próximos aos valores europeus e americanos, consequência do esforço de incluir as classes menos favorecidas.

Esse caminho não tem volta: não há como pedir à sociedade que aceite reduzir esse ganho. Assim, torna-se urgente a adaptação à nova realidade. O Brasil não é a China ou a Índia, em que a desigualdade é brutal, os salários muito baixos e os direitos dos trabalhadores praticamente inexistem. Por isso, mesmo que tivéssemos no Brasil uma infraestrutura americana e uma eficiência alemã, concorrer com a China em bens industrializados básicos seria uma tarefa quase impossível. Prova disso é que os Estados Unidos têm perdido espaço sistematicamente para a indústria produtiva chinesa. Infelizmente, nossa indústria ainda patina quando precisa “pivotar” (como se costuma falar no universo de startups) seu núcleo de negócios para uma indústria inovadora. Por isso, natural que surjam mais Embraers e menos “fábricas de parafusos”.

Se a indústria não inova, perde para as mercadorias chinesas. Com isso, em vez de se diferenciar em termos de produtos, processos e serviços, a indústria pressiona o governo para reduzir impostos e fixar barreiras aos produtos estrangeiros, o que gera uma falsa sensação de melhora, mas um encarecimento do que é oferecido no mercado local. A saída é buscar inovação, utilizando as diversas leis de incentivo, do crédito subsidiado do BNDES, entre outros dispositivos, para que as empresas se preparem para um futuro disruptivo.

Há uma certa “acomodação” para perpetuar um modelo que já mostra os desgastes naturais perante uma realidade transformadora. Os países que enxergaram China e Índia como concorrentes às suas indústrias primárias, décadas atrás, saíram na frente e conseguiram transformar suas indústrias e empresas locais em marcas globais. Criaram ainda um mercado de trabalho altamente qualificado, com o qual a China não consegue (ainda) concorrer.

Nosso setor privado precisa dar passos firmes, encarando essa nova realidade. Em todos os ecossistemas de sucesso, ele tem papel essencial no desenvolvimento das startups e da inovação. O risco faz parte do processo, e isso precisa ser enfrentado sem medo, pois sem essa evolução ficaremos para trás. Alguns desses passos podem ser, por exemplo, abraçar a ideia de que inovação não precisa surgir necessariamente dentro de casa. É comum nos Estados Unidos – e em todos os países que tem seus ecossistemas mais desenvolvidos – que as empresas apoiem e incentivem o surgimento de startups para, depois, garimpar quais podem trazer ideias disruptivas que dentro de casa raramente se consegue.

O pensamento “fora da caixa” já se demonstrou muito mais eficiente do que aquela área de inovação que as empresas têm, muitas vezes, só no papel. No Brasil temos alguns eventos importantes sendo organizados para essa relação startups e empresas, como diversos Demo Days específicos para setores do mercado (financeiro, moda, etc) organizados pelas principais instituições do setor, como a ABStartups (Associação Brasileira de Startups), que tentam aproximar as empresas brasileiras deste mundo.

A inovação proveniente de uma startup é mais barata e rápida de ser criada, validada e posta em prática. Não é à toa que empresas como Google, Apple e Facebook, sempre que consideram oportuno, adquirem startups que desenvolvem tecnologias de ruptura. Elas entenderam que esse processo é mais eficiente e, por isso, apoiam iniciativas para fortalecer os ecossistemas de startups de onde surgirão os próximos Waze e Instagram.

Já para o governo, simplificar o processo de investimento em inovação é essencial, mas não é o único ponto. A história demonstra que os países que conseguiram criar um ecossistema inovador contaram com uma articulação inicial forte da iniciativa pública e um planejamento estratégico claro que contava com o apoio do setor privado e da sociedade. Incentivar projetos de inovação e empreendedorismo em universidades é essencial para criar a cultura e o conhecimento necessário ao surgimento de visionários, além da criação de mão de obra qualificada e interessada em novos mercados. Focar em capacitação básica para uma indústria primária é apertar a corda no pescoço para um fim inevitável: ficar de fora no futuro do mercado de trabalho.

As universidades brasileiras precisam abraçar a ideia de que são o elo fundamental para a inovação do país, na formação de talentos, criação de cultura empreendedora e, finalmente, na criação da inovação em si até como modelo de negócios para a própria faculdade. É importante lembrar que só no ano passado a universidade de Berkeley recebeu de seus ex-alunos algo em torno de US$ 3 bilhões, com B mesmo, para o seu endowment [uma espécie de fundo para investimentos na instituição]. Eis, a seguir, alguns exemplos de ações práticas para a academia.

A criação de cursos com a visão de carreiras em Y, ou seja, formando o aluno para que ele possa ser um funcionário ou um empreendedor; 

O investimento em pesquisa aplicada a problemáticas e necessidades reais do mercado para que gerem produtos e serviços que resolvam demandas da sociedade; 

Fomentar a cultura empreendedora, em que se ensine que nesse caminho o fracasso não significa uma humilhação, mas sim um passo essencial para o sucesso.

Para enfrentar os desafios do nosso breve futuro, o Brasil deve começar a planejar já – governo, empresas, universidades e sociedade em conjunto. Não há apenas falta de leis ou incentivos, mas a ausência de um trabalho de articulação entre as engrenagens do ecossistema. Esse processo precisa da união de todos.

*Fundador da Dínamo. Leia aqui o artigo original.  


leia também

FMI: economia crescerá mais fortemente em 2017 - Lagarde fez previsões em artigo para o jornal alemão Handelsblatt

A balança da produção está mudando – de novo - Karen Reddington, CEO da FedEx Ásia Pacífico, avalia mapa global da indústria

A inovação pode ser estimulada - Falhas também fazem parte do processo criativo

A medida da importância - A publicidade devia se preocupar mais com o retorno para os anunciantes, e não para o país

Acordos comerciais fortalecem exportação catarinense - A indústria de cerâmica é uma das primeiras beneficiadas

comentarios


Seja o primeiro a comentar a notícia!



Comentar

Adicione um comentário: