Brava gente brasileira

Qualquer um que tenha perseverado tanto, só pode mesmo atrair isso que se chama sorte

Por Fernando Dourado Filho, de Recife

Bandeira do Brasil

O nome dele é Pedro e tem 30 anos. Mora há 12 em Angola e chegou lá determinado a vencer. É claro, não fazia a mínima ideia do que o esperava e hoje, no tom de um jovem sábio, fala como os veteranos de combate. "Corri riscos, mas não me dava conta deles. Foi sorte. Se soubesse que estava tão vulnerável, teria recuado". Mas, então, não teríamos a história bonita que nos legou. Conto-a. Pedro perdeu o pai aos 11 anos e a mãe se viu com sete crianças para encaminhar. Trabalhando duro com confecções no Agreste de Pernambuco, de vez em quando puxava a conta-gotas os valores da família. O primeiro dever de um comerciante era honrar seus compromissos, ou seja, pagar os fornecedores. Só depois, com o que sobrasse em caixa, se atendem as demandas pessoais. Um mantra simples.

Foi assim que ele chegou a Luanda onde dividiu um colchão com o irmão. Como luxo único, tinha um ventilador de pás preguiçosas. Com as malas de mostruário em punho, pegava um avião militar russo, tripulado por dois pilotos cheirando a vodka e fumando sofregamente. Os passageiros iam de pé e Pedro sabia que não podia descuidar das valises se não quisesse ser roubado. No destino, o boxe do chuveiro tinha tanto lodo que tomava banho de sapato e as paredes eram pretas de mosquitos. Tudo era um suplício. Até que abriu a primeira loja, perto do prédio da Sonangol. Mas o ponto se revelou ruim, pois as pessoas passavam já de sacola cheia. O irmão desistiu, mas ele perseverou. Até que os ventos mudaram. Acertou na segunda loja e hoje tem seis. Com Angola endividada, foi atrás do cash. Manteve as lojas e abriu dois restaurantes que hoje rendem dinheiro sonante.

Para completar o script, um dia conheceu uma paulista das bandas de Rio Claro. Gostou dela. Ela só chegara ali para fazer um trabalho de auditoria. “Não, não, não. Você fica”, pediu ele. Hoje ela toca as lojas e ele os restaurantes. Tinha um sonho quando chegou. Faturar US$ 1 mil por dia. Ainda na fase pioneira, na véspera de certo Natal, faturou US$ 99 mil. Foi um marco que ele comemorou dormindo de tanto cansaço. Na longa conversa que tivemos, destacou a sorte. Como foi afortunado. “Sorte?”, pergunto. “Qualquer um que tenha perseverado tanto, só pode mesmo atrair isso que você chama de sorte. Ou, então, seria muito azarado”, comentei. Ele sorri. “Vou te levar para fazer um circuito de palestras universitárias comigo de Brasil afora para inspirar nossa juventude”, sugeri. Ele diz que não pode, pois mal terminou o segundo grau. Ora, Pedro, para mim você é PhD.      

 


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