Por que só Itaú e Bradesco ganham dinheiro no Brasil, entre os bancos?

Custo de captação mais barato é um dos motivos

Por Infomoney

Por que só Itaú e Bradesco ganham dinheiro no Brasil, entre os bancos?

A consultoria Economática divulgou nesta semana um levantamento com grandes bancos brasileiros e norte-americanos. O resultado não foi nenhuma novidade. Desde 2002, as instituições financeiras brasileiras têm dado um "banho" nas americanas em rentabilidade. Apesar do ROE (entabilidade sobre o patrimônio líquido) não ser tão alta quanto em 2006 (quando bateu 33,1%), os bancos brasileiros superaram, e muito, os americanos em 2014: 18,2%, contra 7,6%, respectivamente.  O que chamou atenção, no entanto, foi um ponto pouco ressaltado no estudo. Retirando o filtro dos grandes bancos (ou seja, aqueles que possuem ativo total superior a US$ 100 bilhões), a média dos ROEs de todos os bancos brasileiros e americanos praticamente coincidem. Os brasileiros encerraram 2014 com rentabilidade de 9,80, contra 8,4% dos americanos.

O que explicaria tamanha diferença? Um dos fatores possíveis de se observar no primeiro momento é que o ROE dos grandes bancos brasileiros, na verdade, é puxado principalmente por duas instituições: Itaú Unibanco (foto), que encerrou o ano passado com 22,6% de rentabilidade sobre o patrimônio líquido (figurando disparado na liderança dos bancos brasileiros e americanos), seguido por Bradesco, com 19,8%. À margem, aparecem Banco do Brasi, que apesar de ter fechado o ano com o indicador em 16,6%, só vem perdendo em ROE – queda de 7,3 pontos percentuais na comparação com 2013 –, e Santander, com 3%.

Passando por essa observação, a segunda mais lógica é que os bancos grandes se diferenciam dos médios por vários motivos, entre eles, o mais óbvio: o próprio porte. Isso possibilita um custo de captação mais barato, dado o menor risco de solvência. O segundo é a diversificação de receitas. Os grandes bancos ganham dinheiro não apenas com a margem financeira (empréstimos e aplicações em títulos públicos e privados), mas também com receitas de serviços e seguros. Terceiro: os grandes bancos desfrutam de elevados créditos tributários, seja diante dos robustos provisionamentos, seja por conta de aquisições efetuadas.  

Com tudo isso na conta, seria de se esperar que a rentabilidade dos menores fosse realmente inferior a dos grandes bancos, mas a questão principal aqui é que essa diferença nem sempre foi tão gritante. Em 2008, por exemplo, antes do estouro da crise, a média do ROE de todos os bancos brasileiros estavam em 21,2%, contra cerca de 25% quando considerado apenas os grandes bancos. No pós-crise, é que essa relação se perdeu e o ROE de todos os bancos desabou para 10,6% em meados de 2009 – um pouco acima do atual patamar, de 9,8%, e bem abaixo do registrado pelos grandes bancos, em torno de 20% naquele ano.

Dito isto, o que explicaria esse afastamento nos últimos anos? A economia. Depois do baque de 2009 e passado anos de euforia brasileira, a economia do país voltou a degringolar e os bancos de médios e pequenos não conseguiram acompanhar a concorrência que os grandes começaram a travar. A desaceleração econômica fez com que os grandes bancos invadissem a área dos bancos médios e pequenos, especificamente em créditos consignados. Diante da entrada acirrada dos grandes, uma onda de associações começou a se espalhar pelo setor: o BMG com o Itaú; o Bonsucesso com o Santander; o BMC com o Bradesco; e, por fim, o Nossa Caixa com o Banco do Brasil. "Eles optaram por abrir mão do controle para ganhar em margem. Quem não fez isso ficou para trás", explica João Augusto Frotta Salles, da consultoria Lopes Filho.

Dos que têm capital aberto hoje na Bolsa, a lista dos bancos que passam por situação complicada é extensa: o BicBanco sucumbiu e precisou ser vendido para um banco chinês. Sofisa, Banco Pine e Indusval não passam longe de um cenário turbulento. O que está em situação melhor é o Daycoval, que é o mais bem administrado, na opinião de Salles. Dos bancos focados em investimentos, a realidade também não é muito diferente dessa, com a atividade fraca no mercado de capitais. "O BTG Pactual, por exemplo, também não está muito bem na foto", afirma o analista. Há também os bancos de montadoras, que atravessam um período complicado na venda e financiamento de veículos.

 

Em meio a tudo isso, como Itaú e Bradesco se salvaram?

O Itaú e Bradesco têm buscado eficiência nos últimos anos, com corte de custos e avanços tecnológicos, o que também contribuiu para reduzir despesas. Além disso, um aspecto ainda mais importante é que essas instituições melhoraram muito suas carteiras de crédito ao longo dos anos, diminuindo financiamentos em veículos e a empresas de médio porte, que são os segmentos mais propensos à inadimplência em períodos de desaceleração econômica, explica Salles. Por outro lado, elas têm elevado em crédito consignado, que é mais difícil de ter inadimplência, pois o desconto é feito em folha; no imobiliário, que tem o imóvel como garantia; e para grandes corporações.

Com tudo isso feito, o Itaú e Bradesco conseguiram reduzir muito suas despesas com provisionamento para crédito, o que contribuiu para o bom resultado no ano passado. Já o Banco do Brasil não conseguiu acompanhar o ritmo deles e por isso vem perdendo em eficiência, em grande parte pois tem sido usado como instrumento do governo para ajudar a dar sustentação a uma economia cambaleante. Outra questão é que o BB é muito ligado ao crédito agrícola, que tem uma margem muito apertada. "O BB é o mais engessado, não consegue fazer tantos cortes e fica para trás. Nunca conseguirá ter um desempenho como Itaú e Bradesco", argumenta Salles. Ele ressaltou ainda que no último ano as despesas do banco com provisionamento, na contramão do Itaú e Bradesco, cresceram muito, já que tem uma carteira de crédito muito superior a de seus pares. Com isso na conta, a resposta não poderia ter sido diferente e o banco foi o único entre os grandes a apresentar queda no ROE na comparação caindo de 24% para 16,6%.



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