Problema de diagnóstico

Sociólogo pede que partido político combata o consumismo. Faz sentido?

Por André D´Angelo

Zygmunt Bauman, sociólogo

Em entrevista reproduzida pelo site da Unisinos, o sociólogo Zygmunt Bauman (foto) comentou a atual crise econômica na Europa. E citou o consumismo como uma de suas causas: “A metade do problema é o excessivo consumismo, o esbanjamento que predomina. E é por isso mesmo que nenhum provável partido de poder não promete aos seus eleitores que combaterá o consumismo. Não falamos, naturalmente, para frugalidade, mas para mudança da forma de pensar e de forma de vida, com ênfase na satisfação das necessidades e não a satisfação dos consumidores. O mundo, então, não esbanja dinheiro para adquirir diversos gadgets como, por exemplo, você adquirir um novo telefone celular, enquanto o antigo continua funcionando perfeitamente” (entrevista completa aqui).

Como autor de um recente livro justamente sobre a tal frugalidade prescrita por Bauman (“Por uma vida mais simples”), eu poderia concordar de imediato com o diagnóstico do sociólogo. Mas acredito que a discussão seja um pouco mais complexa.

Em primeiro lugar, o consumismo não é uma “doença” fácil de ser identificada. Numa definição simples, poderíamos afirmar que o consumismo é o consumo em excesso. “Excesso”é a compra que vai além do necessário, que atende apenas a “desejos e caprichos”. O consumismo combater-se-ia “comprando somente aquilo de que se precisa”. De imediato, fica patente a precariedade do diagnóstico: necessidades e desejos não são conceitos definitivos, indiscutíveis. Pelo contrário; são bem abstratos, indefinidos, quase pessoais. À exceção das necessidades físicas (alimento, abrigo, sono, sexo), todas as demais são culturalmente construídas, de modo que necessidades ou desejos de consumo são tão verdadeiros e legítimos quanto quaisquer outros. O consumo é, em nossa sociedade, uma resposta a questões humanas, e não mero canal de suprimento de carências físicas. É um meio pelo qual a sociedade contemporânea transaciona significados, suprindo menos urgências materiais do que simbólicas. De nada adianta falar em “necessidades” e “supérfluos”, ou em “comprar apenas o que se precisa”: não é disso que o consumo trata.

Segundo: além de não haver certeza sobre do que trata a doença, não há sequer consenso de que ela exista. O consumismo não ocorre contra a vontade das pessoas. Ele representa, hoje, a vontade das pessoas. Cada um tem a sua visão do que seja “consumismo” e “exagero”, já que cada um entende necessidade e desejo de maneira diferente. O discurso de desaprovação ao consumo é forte, genérico e amplo o suficiente para ganhar a simpatia e a inércia de todos. Mesmo o mais ferrenho crítico do dito consumismo atual, toda vez que submetido a algum questionamento sobre suas próprias práticas, responde com base em justificativas que, evidentemente, o eximem de responsabilidade, transferindo-a para os outros. Todos temos nossas próprias razões para dirigirmos carros que ocupam espaço excessivo nas vias, acumularmos roupas e mais roupas no armário etc.

Há um agravante adicional. Nas nações em desenvolvimento, movimentos voluntários de moderação no consumo são ainda menos prováveis, pois populações emergentes tendem a idealizar o padrão de vida dos países ricos, superdimensionando os benefícios do capitalismo. O consumo, entre populações pobres ou recém saídas da pobreza, funciona como uma forma de empowerment, de exercer um controle inédito sobre suas próprias vidas, historicamente marcadas pela privação e pela falta de opções. Nos países ricos – ou nas classes mais altas dos países em desenvolvimento –, a liberdade de escolha relacionada ao consumo é um fator do cotidiano, ao qual não se confere atenção, visto que entendida como permanente e inalienável. Mas, para os pobres, é uma novidade fundamental que lhes ajuda a desenvolver uma identidade social e um senso de pertencimento ao coletivo. Não surpreende que para estas pessoas o remédio da frugalidade soe como uma injusta e oportunista tentativa de tolher conquistas há muito almejadas, tal qual uma ameaça de apagar as luzes tão logo se tenha conseguido ingressar, após muito tempo e esforço, no salão de festas.

Por tudo isso, não admira que partido político algum se disponha a “combater o consumismo”, como quer Bauman. Trata-se de uma causa impopular e mal definida, sobre a qual não compensa, filosófica e eleitoralmente, construir uma plataforma política. Que o diga Jimmy Carter que, em fins dos anos 1970, tentou algo nesse sentido, nos Estados Unidos. O resultado? Perdeu a reeleição para Ronald Reagan.



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