Uber, foie gras e resorts

Quando há muita gritaria, é sinal de que o argumento é fraco

Por Fernando Dourado Filho, da Cidade do México

Motorista do aplicativo Uber

Nas muitas cidades de porte que visitei neste ano, o debate sobre o Uber está na ordem do dia. Na porta do hotel em Johannesburg – mais precisamente diante do terminal de trem de Sandton –, me assustei com a briga corporal entre taxistas e motoristas provados nervosos, estes alvos da intimidação daqueles. É claro que os usuários também se sentiram acuados. Mas se as máfias do transporte público são de regra na África do Sul, nada impedirá o usuário de táxis de se perguntar: mas, afinal, que tal serviço é esse que causa tanta celeuma? Ora, ao cabo de breve pesquisa, com tanta publicidade espontânea, o que acontecerá? O Uber ganhará mais adeptos. E o "Fuck Uber" virará "Try Uber".   

 Preocupados, os taxistas que acusam o serviço do aplicativo de ser carona paga camuflada, desperdiçam preciosa energia remando contra a maré. Conheço um paraibano, há muito radicado em São Paulo, que acabou de vender o táxi. Você acha que eu vou brigar com o futuro? Doravante, quem for a Patos, lá no Sertão, é só perguntar pelo restaurante de Inácio e lá o encontrará para explicar porque era hora de mudar de ramo. O que não quer dizer que não se alcance um meio termo inteligente, como já aconteceu em San Francisco. Enquanto isso não chega, a batalha campal continuará acontecendo nas ruas. E, como não, nos tribunais – para delírio da empresa. Ora, renegar é promover.

Certas agendas dão visibilidade enorme ao que se quer combater, alcançando efeito contrário ao intento. Quando o foie gras foi proibido na Califórnia, sob alegação de que os gansos eram submetidos ao brutal gavage – ou alimentação forçada – para que o fígado inchasse e ficasse suculento, os mais radicais não quiseram dar ouvidos aos criadores que insistiam que já não se serviam desse expediente e que as aves bicavam milho no terreiro livremente, até o abate. Mas os talibãs não quiseram saber. O resultado é que a curiosidade em torno da iguaria disparou. Ora, como poderia acontecer com adolescentes proibidos de namorar, os consumidores também decidiram pagar para ver. Parece que essa rebeldia é inerente à natureza humana.

Outra história que beirou o anedótico foi a tentativa de proibição de resorts turísticos na Grécia, proposta por um inflamado deputado helênico. A alegação dele não era ruim. Esses estabelecimentos distanciam os turistas da economia criativa. Se todos comem no mesmo local e do mesmo tempero; se ninguém vai às galerias de arte da cidade visitada e tampouco perambula pelas suas ruas, todos perderiam, salvo o próprio resort. Mas ora, a muita gente não desagrada a ideia de saber de antemão quanto vai gastar. E nada mais tentador do que passar um só cheque que inclua refeições, traslados, hospedagem e lazer. Com a celeuma criada, nunca os resorts estiveram tão cheios desde que passaram a existir. Na verdade, tudo é uma questão de tom e encaminhamento. Quando há muita gritaria, é sinal de que o argumento é fraco. 



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