Parques tecnológicos em expansão
As universidades despertam para o potencial inovador dos parques tecnológicos e começam a investir alto em projetos localizados em regiões-chaves da economia gaúcha
 O Rio Grande do Sul está sabendo surfar na onda dos parques tecnológicos. Hoje, o Estado conta com pelo menos 150 empresas nos três parques localizados, respectivamente, na PUC, na Unisinos e na Feevale. Além disso, está em vias de receber o quarto empreendimento do tipo – o da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), principal instituição de ensino superior do Estado. Outras instituições universitárias planejam o mesmo em municípios do interior. Não há dúvidas: hoje, os parques são um atalho valioso para o Rio Grande do Sul chegar ao desenvolvimento tecnológico.
Para estimular esse modelo, o governo do Estado já colocou em prática um dos mecanismos previstos na lei estadual de inovação, o Programa Gaúcho de Parques Científicos e Tecnológicos (Pgtec). No final de abril, foi lançado um edital para a liberação de R$ 10 milhões destinados à implantação, desenvolvimento e expansão dos parques. Além dos três parques em operação – o Tecnopuc, o Tecnosinos e o Valetec –, a Secretaria de Ciência e Tecnologia espera que a UFRGS e diferentes instituições do interior se habilitem a receber a verba. Santa Maria, Santa Cruz, Lajeado, Caxias do Sul, Passo Fundo, Estância Velha e Pelotas são algumas das cidades que vêm gestando novos parques, segundo o secretário de Ciência e Tecnologia, Júlio Ferst.
Criados para azeitar a integração entre empresas e universidades, os parques tecnológicos surgiram na década de 50, nos Estados Unidos. Um deles, o da Universidade de Stanford, deu origem ao chamado Vale do Silício – que hoje reúne a nata das multinacionais de alta tecnologia. No Brasil, o modelo chegou bem mais tarde, a partir de 2004, com a aprovação da lei nacional de inovação. “Antes, a interação entre empresas e universidades existia, mas não de forma institucionalizada. A partir da lei, ficou claro que a universidade tem um papel a exercer no processo de inovação”, afirma a presidente do Fórum Nacional de Gestores de Inovação e Transferência de Tecnologia (Fortec), Eliza beth Ritter.
Elizabeth lembra que, no caso das universidades públicas, a legislação impunha amarras à transferência de tecnologia para empresas, o que só podia ser feito mediante licitação. Ainda hoje, esse processo é complicado nas instituições públicas. Apesar disso, o pró-reitor de pesquisa da UFRGS, João Edgar Schmidt, diz que a relação da UFRGS com o setor privado é histórica. “Às vezes, parecia que a UFRGS precisava do parque para interagir com as empresas. Não é verdade. Há mais de 70 anos fazemos isso. O parque apenas cria um novo instrumento de aproximação com elas”, esclarece.
O parque científico e tecnológico da UFRGS, projetado para o Campus do Vale, na capital, terá uma área inicial de 15 hectares. Estão previstos seis grandes terrenos e um prédio para micro e pequenas empresas. A estimativa de investimento em infraestrutura nos primeiros três anos é de R$ 15 milhões, e as primeiras atividades podem ter início ainda em 2010.
Já o Tecnopuc, também em Porto Alegre, praticamente duplicará de tamanho com a inauguração de um novo prédio no segundo semestre deste ano. Hoje, o parque conta com 40 empresas – tais como Dell, HP, Microsoft, Ubisoft e Totvs, entre outras. Agora, o número de empresas deve pular para 60 e o de funcionários, duplicar para 5 mil. De acordo com o pró-reitor de pesquisa e pós-graduação, Jorge Audy, boa parte da ampliação se dará com investimentos das companhias já instaladas. Em 2009, diz ele, as empresas aplicaram, juntas, R$ 40 milhões em pesquisas. Neste ano, o valor deve dobrar. “Isso inclui recursos próprios das empresas, da Finep e do governo”, afirma Roberto Moschetta, diretor do Tecnopuc.
A lógica de funcionamento dos parques tecnológicos é uma via de mão dupla. As empresas atuam acionando as universidades, ao propor pesquisas de seu interesse. Já a universidade busca as empresas apontando temas e também chamando a atenção para recursos de fomento à inovação à espera de projetos.
Foi a partir de uma emenda da bancada gaúcha no Congresso que a Unisinos obteve verba de R$ 22,6 milhões do Ministério de Ciência e Tecnologia para ampliar o Tecnosinos, de São Leopoldo, com um polo de nutracêutica – ramo da ciência que desenvolve alimentos com funções farmacêuticas. Os recursos serão utilizados para montar três estruturas: uma para prototipagem de novos produtos, outra para prestação de serviços e avaliação de conformidades e outra de estímulo ao empreendedorismo. “A Nestlé é uma das empresas que gostaríamos que estivesse aqui dentro”, adianta Susana Kakuta, diretora do Complexo Tecnológico Unisinos – Unitec. Atualmente, o Tecnosinos tem 53 empresas instaladas e gera 2,1 mil empregos.
Tal como o Tecnosinos, o Valetec também está em expansão. Instalado em Campo Bom, o parque abriga 11 empresas e mantém parceria com outras 45, todas integradas com a Feevale. “Hoje, temos (na universidade) 120 pesquisadores, e mais da metade trabalha nas empresas”, conta o pró-reitor de pesquisa, tecnologia e inovação da Feevale, Cleber Cristiano Prodanov. Ainda neste ano, dois novos empreendimentos devem se somar ao parque – onde se localizam empresas das áreas química, eletrônica, de plástico e telecomunicações. Em Novo Hamburgo, o Valetec deverá ter uma extensão voltada a companhias de tecnologia da informação e empresas criativas. Já em Estância Velha, o foco deve ser os setores de couro e calçados e o de meio ambiente. Em 2009, o Valetec captou mais de R$ 3 milhões – neste ano, a previsão é expandir o orçamento entre 25% e 30%.
Para Elizabeth Ritter, do Fortec, o Brasil ainda tem muito a avançar na integração empresa-universidade. Aqui, a maioria dos doutores brasileiros ainda está nas instituições de ensino, e não nas empresas. “O mais importante é que finalmente percebemos que os resultados de pesquisas estão saindo da universidade e tomando o caminho do mercado”, conclui Elizabeth.
A lógica do Lego
Apostando em uma atividade que representa até 12% do faturamento de um shopping center, a Engeltec Soluções Digitais desenvolveu um sistema curioso – um gerenciador de estacionamentos. A empresa faz parte do grupo de negócios com potencial inovador que ganha guarida nas incubadoras empresariais instaladas dentro de parques tecnológicos, como o Tecnopuc, onde está instalada. E, com esse sistema peculiar, já conquistou clientes em seis Estados brasileiros.
Conforme o CEO da empresa, Marcio Pinheiro, o produto monitora a movimentação e o fluxo de caixa on-line. Além disso, custa 30% menos do que os sistemas concorrentes. O baixo custo, diz ele, é resultado do poder de customização. O primeiro cliente da Engeltec na área de estacionamentos e acesso por catracas foi o Velopark, em Nova Santa Rita. Depois, vieram outros, como o shopping Vila Olímpia, na capital paulista, e a fábrica da Ford em Camaçari, na Bahia. Cada um recebeu uma solução específica.
Como cada equipamento é criado de acordo com a demanda do cliente, nada é desperdiçado – o sistema só leva os componentes necessários, quando o normal nesse setor é agregar uma lista-padrão de componentes. Além disso, acrescenta Pinheiro, praticamente toda a manutenção é feita online. Tanto que a Engeltec, fundada em 2006, tem apenas 26 funcionários. “Nossas peças são como o Lego. Agregamos apenas aquilo que o cliente realmente precisa”, compara Pinheiro.
Surgida da ideia de produzir automação sob encomenda, a Engeltec não se dedica somente a estacionamentos, afirma Pinheiro, que fundou a empresa com mais três sócios. Outro produto em desenvolvimento é um sistema de controle de ponto para o setor de petróleo – estaleiros, plataformas etc. É um portal que identifica e marca o ponto de quem entra e de quem sai sem a necessidade de catracas. Cada funcionário que passa é registrado em movimento. Prestes a ser “graduada” – ou seja, deixar a incubadora para integrar o parque tecnológico da PUC –, a Engeltec deve faturar R$ 5 milhões em 2010, quase o dobro do ano passado (R$ 2,3 milhões). |