nasbancas_jan2012
terça-feira, 04 de outubro de 2011
Pedro Passos: “O governo precisa induzir a produtividade no país”

Para o presidente do Iedi, a guinada cambial ajuda, mas é insuficiente para que a indústria retome a competitividade. Ele será o conferencista do evento de premiação do ranking Grandes & Líderes, que ocorre nesta quarta, em Porto Alegre

Nesta quarta-feira, começa em Porto Alegre a série de eventos de premiação das empresas que despontaram na edição 2011 do ranking GRANDES & LÍDERES, realizado por AMANHÃ em parceria com a PricewaterhouseCoopers (PwC). A partir das 11h30, os representantes das maiores companhias gaúchas estarão presentes na sede da Federação de Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) para receber os troféus e certificados alusivos ao ranking. A celebração das maiores de Santa Catarina acontece posteriormente, no dia 25 de outubro, em Joinville. Já as grandes do Paraná serão festejadas no dia 26 de outubro, em Curitiba.

Além de receber a distinção, os participantes do evento poderão acompanhar de perto um debate de peso. Pedro Passos, copresidente do Conselho de Administração da Natura e presidente do Conselho do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), estará na mesa junto com Heitor Müller, presidente da Fiergs, e André Gerdau, CEO da Gerdau. Nesta terça, a equipe de AMANHÃ conversou rapidamente com Pedro Passos para tratar de um tema que preocupa grande parte das maiores empresas do sul do país: a desindustrialização. Confira os principais trechos da conversa:

pedro-passos-natura-350Há tempos os segmentos exportadores da indústria, especialmente no sul do país, reclamavam do câmbio como um obstáculo para a busca de competitividade no mercado externo. Com a recente valorização do dólar, esse cenário muda? Estamos mais competitivos?
Eu acho que essa posição do câmbio a R$ 1,85, R$ 1,90, nos torna mais competitivos sem dúvida nenhuma. Entretanto, o comércio exterior depende de negociações feitas ao longo prazo, que não são imediatas. Então nós precisamos ter estabilidade nesse padrão da moeda para poder tirar vantagem de um dólar mais alto. É ainda muito cedo para saber se o setor exportador vai poder tirar vantagem dessa situação. Obviamente, ficamos mais competitivos, e acho que é bastante razoável a gente trabalhar com essa taxa de moeda. Entretanto, mais importante que isso é continuar trabalhando nos fatores que afetam a competitividade sistêmica do país. Não é só o dólar, mas fatores como educação, tributação, capital humano, infraestrutura – coisas que precisam ser mexidas para que possamos avançar.

Recentemente, o governo lançou um plano industrial (Brasil Maior) para atenuar os efeitos colaterais do atual momento conjuntural. Em um artigo publicado recentemente, você criticou as “lacunas” desse plano, especialmente a ausência de medidas relacionadas ao aumento da produtividade. Na sua visão, é papel do Estado atuar nesse nível?
Esse é um papel da sociedade, das empresas e também é um papel do Estado induzir o aumento de produtividade no país. Eu, naquele comentário que fiz, apontei três lacunas no Plano Brasil Maior. A primeira delas é uma visão muito de curto prazo, que não permite às empresas a orientarem seus planos. Política industrial precisa de uma visão mais de longo prazo. A segunda lacuna é a própria governança desse Plano Brasil Maior, para que não caia nos mesmos defeitos de ausência de administração e monitoramento. A terceira são medidas relacionadas à produtividade, até porque o plano praticamente não fala de produtividade. Um fato relevante é que a produtividade do país – e aí eu falo da produtividade do trabalho, do capital e de todos os outros elementos que compõem a produtividade – não evolui nas últimas décadas em relação aos Estados Unidos e países competidores, como China, Índia, etc. A produtividade precisa ser induzida pelo governo.

Quais medidas você julga necessárias para impulsionar a produtividade e o investimento no Brasil?
Educação, infraestrutura, ciência e tecnologia e inovação. Também é preciso ter melhorias no ambiente empresarial em assuntos regulatórios, a promoção de estratégias políticas de longo prazo – medidas que criem um ambiente favorável à produtividade do país.

Então a produtividade não está atrelada apenas a fatores econômicos, como também sociais?
Sem dúvida nenhuma. A educação eu diria que é quase uma pré-condição para que a gente possa melhorar a produtividade de uma forma sistêmica no país. Quando você compara os dados de educação, seja no nível fundamental ou médio, você vê que o Brasil esta muito atrás em termos de formação e educação em relação aos seus competidores. No Pisa (indicador que mede a qualidade do ensino médio em diferentes países), estamos entre os últimos colocados. A boa notícia é que pelo menos entramos no Pisa, então já podemos nos comparar com os outros.

Há quem diga ser “mito” a ideia de que o Brasil está passando por um processo de desindustrialização. Só no ano passado, por exemplo, a nossa produção industrial cresceu mais de 10%, gerando grande quantidade de empregos no setor. Até 2000 o nosso setor manufatureiro era apenas o décimo do mundo – hoje é o sexto. Nesse contexto, até que ponto a desindustrialização ameaça o país?
Desindustrialização é uma palavra que pode induzir a uma leitura equivocada, que diz respeito ao “tamanho da indústria do país”. O fato é que a indústria cresceu efetivamente antes da crise de 2008, mas muito voltada ao mercado interno e com baixa competitividade externa. O que chamamos de “desinsdustrialização” é a perda da capacidade competitiva da industria brasileira no mercado internacional. Nós estamos sendo atacados, estamos perdendo mercado para exportar. Estamos perdendo crescimento que poderíamos ter no mercado interno porque estamos abastecendo o país com produtos importados. E os dados são eloquentes. A balança comercial de produtos manufaturados, nos últimos quatro anos, inverteu mais de R$ 40 bilhões. Nós éramos superavitários na balança comercial e hoje nós estamos deficitários em R$ 20 bilhões. Se considerarmos então os setores de alta e média tecnologia, aí a situação é gravíssima. A inversão na balança comercial brasileira é muito grave, o Brasil está perdendo capacidade competitiva.

Onde aparecem os principais sintomas desse processo?
As cadeias de produção – as automobilísticas, eletrônicas, entre outras – e até cadeias de menor valor agregado estão completamente perfuradas por produtos importados. Boa parte das indústrias estão comprando componentes de fora para abastecer e montar os seus produtos finais aqui. Nós estamos cada vez mais “primarizando” a indústria, valorizando o setor primário, ou nos tornando montadores de produtos importados, que é o que acontece com o setor de microeletrônicos. É preciso analisar de uma forma mais completa o tema da indústria, que vem perdendo muita competitividade. É verdade dizer que, até 2008, o setor cresceu. Mas também é verdade dizer que, depois de 2008, a indústria está praticamente parada e a maior parte do crescimento de consumo no mercado interno vem sendo abastecido por produtos importados.

Na sua visão, como o Brasil vai sair do atual momento de turbulência internacional? De que forma a crise que se avoluma sobre partes da Europa e Estados Unidos vai impactar na nossa economia? Qual será o tamanho desse impacto?
Que o Brasil vai ser afetado pela crise internacional – decorrente da Europa, dos Estados Unidos e do Japão – não há duvidas. Vai afetar a nossa taxa de crescimento. Mas eu tenho a impressão que o Brasil tem uma situação bastante mais confortável, porque possui reservas internacionais importantes, tem um mercado interno que continua forte... Tem condições de enfrentar essa crise. O Brasil tem uma oportunidade de modelar e reavaliar sua política econômica. Ou seja, fazer um ajuste fiscal de longo prazo e conseguir uma expressiva redução das taxas de juros, que é uma doença que afeta o país há muitos anos. Nós precisamos perder logo o título de campeões da taxa de juros mundial. Nós precisamos aproveitar essa oportunidade da crise para reforçar a política fiscal, ter menos ênfase na política monetária – e combater a inflação não só com taxa de juros.
PDF Imprimir E-mail
 

Comentar