Lavoura eletrônica
Com a agricultura de precisão, o Rio Grande do Sul busca se posicionar como fonte de inovação em um dos setores mais importantes da economia
 A cidade de Não-Me-Toque, no interior do Rio Grande do Sul, desfruta hoje de um título lisonjeiro: é a principal referência brasileira em agricultura de precisão – atividade que representa uma das mais promissoras fronteiras de inovação do agronegócio brasileiro. E não se trata apenas de fama. O título de capital da agricultura de precisão é oficial e está previsto em lei federal, a 12.081. O próximo passo, agora, é fazer jus ao nome. A estratégia para isso está delineada: em breve, a prefeitura de Não-Me-Toque vai lançar um curso gratuito para formar técnicos e reduzir o crescente déficit de talentos nessa área. As primeiras aulas devem acontecer em setembro. O interesse é tão grande que ultrapassa as fronteiras do Rio Grande do Sul. A prefeitura já recebeu ligações de Estados como São Paulo. A razão é sempre a mesma: gente interessada em buscar qualificação.
Agricultura de precisão é o uso de tecnologia eletrônica para mapear as propriedades nutritivas e níveis de produtividade da terra. Com base nessas informações, pode-se fazer um uso mais racional de insumos – aplicando fertilizantes em quantidades adequadas às características de cada pedaço de campo. Para fazer isso, são necessários sistemas de posicionamento global (GPS), tratores e colheitadeiras com computadores de bordo, sensores e softwares especializados. A revolução da agricultura de precisão em Não-Me-Toque – que hoje sedia a mais importante feira do setor no Brasil, a Expodireto – começou quando se decidiu fabricar esses equipamentos localmente em vez de somente importá-los e integrá-los às máquinas produzidas na região.
A mudança começou há cerca de 10 anos, a partir de uma parceria entre empresas locais, a Universidade Federal de Santa Maria e a Cooperativa Tritícola de Não-Me-Toque (Cotrijal). Batizada de Projeto Aquarius, a iniciativa redundou em pesquisas e testes de novos sistemas. A Stara, integrante do projeto Aquarius desde o início, foi uma das pioneiras em tropicalizar o maquinário de precisão. Anos depois, em 2006, a empresa adquiriu o conhecimento necessário para produzir eletrônica. “A tecnologia importada era engessada. Era como comprar um carro de uma fábrica e instalar o ar-condicionado de outra. Decidimos deixar de ser usuários para ser desenvolvedores”, recorda Cristiano Buss, gerente de tecnologia da Stara. Desde 2008, a empresa investiu R$ 40 milhões em ampliação da fábrica e melhorias nos processos de pesquisa e desenvolvimento, revela ele.
O núcleo de tecnologia da Stara, que em 2004 tinha três pessoas, hoje tem 38. “Usamos o Aquarius também para formar mão de obra. Investimos na pesquisa e depois absorvemos alguns desses profissionais”, descreve Buss. “As parcerias são fundamentais para este processo. A inovação depende do entrosamento entre as indústrias e as instituições de pesquisa”, completa Telmo Amado, coordenador técnico do projeto Aquarius.
Numa região em que predominam pequenas e médias propriedades, produtores que não têm condições de adquirir maquinário próprio também podem usufruir do programa Ciclus, da Cotrijal. A cooperativa disponibiliza maquinário para gerar mapas detalhados de fertilidade do solo e de produtividade. Hectare por hectare, as máquinas equipadas com sensores e GPS mapeiam a composição química do solo, determinando as diferentes quantidades de fertilizante necessárias em cada área. As colheitadeiras apontam o rendimento em cada pedaço da lavoura. “Assim, podemos ver a variação, identificar onde há problemas de solo e intervir para melhorar a produtividade”, explica Robson Sandri, coordenador técnico da cooperativa.
Claro que a Stara não é a única empresa que vem se destacando. Outras companhias vêm ajudando a manter o Rio Grande do Sul na fronteira da inovação do agronegócio. É o caso da Semeato, de Passo Fundo, da John Deere, que opera em três cidades do Estado, e da AGCO – que mantém um importante centro de pesquisas em Canoas, onde desenvolve os tratores da linha Massey Ferguson. Campo fertil para os investimentos. |