Cenários de Amanhã
Revista Amanhã

 

Inovar é preciso

Hoje, o Rio Grande do Sul dispõe de um ambiente favorável à inovação. Mas o Estado ainda precisa superar alguns desafios se quiser buscar um diferencial competitivo























Inovação. Para o mundo dos negócios, uma palavra de ordem. Para o Rio Grande do Sul, a oportunidade de transformar uma economia ainda fortemente baseada na produção agrícola em outra, mais dinâmica e estável – capaz de viabilizar o desenvolvimento do Estado independentemente das chuvas ou das secas.
O tempo em que os investimentos e as iniciativas de estímulo à inovação se mostravam acanhados parece ter ficado para trás. A aprovação de uma lei estadual de inovação – que começa a ser efetivamente aplicada neste ano –, o aumento das liberações de verbas federais para ciência e tecnologia e a esperada retomada dos investimentos estaduais na área dão um novo ânimo aos empresários. E há programas de apoio a empresas de todos os tamanhos.



Os incentivos fiscais previstos na lei estadual de inovação, aprovada no ano passado, estão entre os estímulos mais aguardados. Dependem, ainda, de uma regulamentação. Mas o secretário de Ciência e Tecnologia do Estado, Júlio Ferst, garante que entram em vigor ainda neste ano. Com isso, as empresas inovadoras poderão ter uma redução de até 75% no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) que gerarem a mais a partir da colocação da inovação no mercado. Para conceder o benefício, o Estado pontuará empresas inovadoras levando em conta fatores como mestres e doutores empregados, existência de projetos internos de fomento à inovação, entre outros. “Nos interessamos em incentivar empresas inovadoras, não aquelas que querem apenas adquirir produtos inovadores de outras”, afirma Ferst.


Uma pesquisa da consultoria McKinsey evidencia por que a inovação tem tido papel de destaque na pauta dos governos estadual e federal e de entidades como a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) ou o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). O trabalho demonstra que uma inovação de rompimento – que rompe paradigmas – agrega 26% de valor ao negócio.


Por isso, a estruturação de um programa gaúcho de inovação e tecnologia está entre as prioridades da Agenda 2020, iniciativa que une entidades privadas e governamentais em torno do objetivo de acelerar o desenvolvimento do Rio Grande do Sul. Segundo Paulo de Tarso Pinheiro Machado, diretor técnico da Polo RS e Agenda 2020, os estímulos tributários estaduais concedidos pela lei da inovação foram importantes, especialmente para evitar que empresas de tecnologia da informação gaúcha continuassem migrando para São Paulo, onde os incentivos já existiam.

Ricardo Felizzola, coordenador do Conselho de Inovação e Tecnologia da Fiergs: A falta de uma cultura de inovação vem de família. Há na base da população uma aversão natural ao risco


Outro caminho é a construção de clusteres de emepresas inivadoras. “A regra predominante hojé é a da não inovação, e isso gera perda de recursos. O setor empresarial não sabe o que a universidade faz e a universidade se ensimesma com pesquisas para deleite ritualístico”, critica Machado. Ao menos, a inovação nunca esteve tão em voga no Estado. “O tema aqui está muito mais difundido do que em outras áreas do país”, avalia Maximiliano Carlomagno, consultor da Innoscience, consultoria especializada em gestão da inovação.


Do ponto de vista de recursos para empresas inovadoras, o ambiente também é favorável. Entre 2005 e 2007, as operações de crédito reembolsáveis da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) ficaram estacionados em R$ 570 milhões por ano. No ano passado, porém, saltaram para R$ 1,6 bilhão. Já as operações não reembolsáveis chegaram a R$ 2,4 bilhões em 2009. Juntando as duas modalidades, o aumento nos recursos foi de 197% entre 2005 e 2009.


Além disso, em 2008, os gastos globais em Ciência e Tecnologia do país chegaram a 1,43% do Produto Interno Bruto (PIB). “O Plano Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação 2007-2010 prevê chegarmos a 1,5%. Creio que entraremos em 2011 próximos disso”, prevê Ronaldo Mota, secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT).


Mota cita a lei federal da inovação e a chamada Lei do Bem, respectivamente de 2004 e 2005. Ambas culminaram na criação de incentivos fiscais federais a empresas inovadoras. Pelos dados do MCT, no ano fiscal de 2008 – último dado disponível –, os incentivos levaram 441 empresas a investir R$ 8,1 bilhão. Na comparação com 2006, o incremento no número de empresas beneficiadas foi de 240%. Já os valores concedidos cresceram 270%.


Mas há quem diga que a alta nos investimentos públicos é insuficiente para colocar o país na rota da inovação. Um dos críticos é o diretor-geral da Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica (Protec), Roberto Nicolsky. Ele explica que boa parte dos recursos aplicados em Ciência e Tecnologia vai para pesquisas que não se transformam em inovações mercadológicas.


Nicolsky lembra que o país é  o 13º no ranking mundial de artigos científicos publicados, mas caiu da 50ª para 68ª posição no ranking mundial de inovação, publicado pela escola mundial de negócios Insead em parceria com a Confederação da Indústria Indiana. Afirma, ainda, que a lei que garante incentivos fiscais federais para inovação é pouco abrangente, atingindo apenas as empresas que declaram pelo sistema de lucro real – que representam entre 6% e 8% do universo total das empresas brasileiras. “A maioria está no lucro presumido e não pode usufruir [do benefício]. E as que estão no lucro real são as grandes”, afirma.


Para Nicolsky, a falta de apoio do poder público à inovação é um dos fatores responsáveis pela queda do Brasil no ranking mundial da inovação e diminuição do número de patentes brasileiras concedidas pelo escritório de patentes dos Estados Unidos (Uspto), referência para as comparações globais. Embora o número de pedidos brasileiros tenha aumentado, as patentes concedidas vêm diminuindo. Entre 2000 e 2004, o Brasil obteve 704 concessões. Entre 2005 e 2009, foram 634 – ou 10% menos. No ano passado, o Brasil obteve a concessão de 146 patentes no escritório americano. Quase nada perto da Coreia do Sul, que teve 9.401 patentes concedidas – e que, até 1984, ficava atrás do Brasil no ranking global da inovação.


Depois de quatro anos com orçamentos minguados, oscilando entre R$ 4,7 milhões e R$ 8,9 milhões, o governo estadual deve repassar R$ 25 milhões à Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs) em 2010. Em parceria com a  Finep, Sebrae e Fiergs, a entidade estadual opera diversas linhas de incentivo a empresas inovadoras. Entre elas, está o Pappe Subvenção, que tem a Finep e a Fiergs como parceiras. O programa prevê a concessão de recursos a fundo perdidos para 45 empresas – que já foram selecionadas com ajuda do Sebrae. Os resultados começam a aparecer. “Uma das empresas selecionadas gerou, desde 2004, três vezes mais impostos do que o total de investimentos que recebeu do Estado”, destaca Costa.


O Rio Grande do Sul tem se mostrado articulado na busca de recursos de incentivo à inovação. O Estado concentra 11% dos projetos beneficiados pelo programa e, atualmente, atrai 12% da verba disponível – mais do que sua participação percentual no PIB nacional, que é de 6,4%. Para Nicolsky, os empresários gaúchos se mostram mais abertos à inovação do que os de outros Estados. “No Sul, a quantidade de indústrias inovadoras é proporcionalmente maior do que em São Paulo. Nas chamadas de fomento à inovação, as empresas da região sempre participam acima da média”, afirma.


O coordenador do Conselho de Inovação e Tecnologia da Fiergs e presidente do Programa Gaúcho de Qualidade e Produtividade (PGQP), Ricardo Felizzola, pondera que ainda falta ao gaúcho – e aos brasileiros em geral – uma cultura inovadora. “Isso vem de família. Os pais querem que os filhos passem num concurso público, não que abram uma empresa. Existe uma aversão natural ao risco”, afirma. Mesmo assim, Felizzola reconhece que o ambiente no Estado é favorável à inovação.


Um dos fatores estimulantes é a existência de capital humano qualificado. Esse fator contribui, por exemplo, para que grandes empresas instalem centros de pesquisa e desenvolvimento no Rio Grande do Sul. É o caso das multinacionais Dell e HP, encravadas no Parque Tecnológico da Pontifícia Universidade Católica (PUC-RS), da Softek e da SAP, que mantêm operações no Tecnosinos, dentro da Unisinos, e da Braskem, que desenvolveu o plástico verde em Triunfo.


Adotar uma política de incentivo à inovação é um desafio árduo. De acordo com Carlomagno, da consultoria Innoscience, uma das maiores dificuldades está no passo inicial de implantação de um projeto interno: os empresários e gestores entenderem o que é é inovação. “A inovação tem dois pré-requisitos: ter um alto grau de novidade e gerar um resultado significativo”, explica. Outra ponderação de Carlomagno é que a inovação tem de ser medida de acordo com o que existe no mercado, e não com as práticas internas da empresa.  


No caso das pequenas empresas, o principal entrave é financeiro, acredita a diretora do Complexo Tecnológico da Unisinos, Susana Kakuta. “O desafio para a pequena empresa inovar é bastante grande, porque ela tem limites de recursos internos. Mas a pequena empresa tem uma grande vantagem, que é a proximidade com o mercado”, diz ela.


Outra dificuldade para os pequenos empresários provém da desinformação quanto a fontes de recursos para inovar e também quanto a caminhos para construir um ambiente inovador. Para reverter esse problema, um dos principais projetos no Estado é o que cria a figura dos “agentes locais de inovação”, com metodologia e execução do Sebrae. Ao todo, 30 agentes receberam formação para atuar junto a pequenas empresas. O trabalho se iniciou em maio e a ideia é que eles prestem assessoria a até 1,5 mil negócios em diferentes setores.


Uma das funções desses agentes é levar até os pequenos empresários as oportunidades de financiamento para a inovação. “É um projeto piloto e a ideia é que se expanda para os demais setores da economia”, explica Cléber Fernando Homem, técnico em inovação e empreendedorismo do Sebrae-RS. Com o trabalho dos agentes, diz ele, as empresas serão estimuladas a detalhar previamente seus projetos inovadores. Isso é fundamental para que possam ser apresentados em tempo hábil a partir da publicação dos editais de liberação de recursos.




Mais plástico verde


Quem não lembra das imagens do presidente Lula, dois anos atrás, brincando com a caminhonetinha branca de plástico verde, o brinquedo fabricado pela Estrela a partir do polietileno de origem renovável desenvolvido pela Braskem? Seu sucessor na presidência talvez seja fotografado usando uma “vassoura verde”, ou bebendo água mineral em uma “garrafinha verde”. São essas algumas das aplicações do polipropileno verde, o segundo tipo de polímero que a Braskem está desenvolvendo a partir de etanol.


A empresa foi a primeira do mundo – a partir de 2007 – a fabricar eteno e polietileno com base no álcool de cana-de-açúcar, em substituição ao petróleo. E o projeto nasceu, cresceu e frutificou no Polo Petroquímico de Triunfo, no Rio Grande do Sul. É lá que fica o Centro de Tecnologia e Inovação da companhia, inaugurado em 2002, onde trabalham 113 pessoas. A estrutura conta com 11 laboratórios.


O investimento anual da companhia em pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias é de R$ 50 milhões. E o valor engloba o lançamento de diversos tipos de resina, além daquelas feitas de fontes renováveis. A Braskem tem mais de 200 registros de patentes aguardando pela concessão – o processo todo pode levar mais de cinco anos, segundo o Instituto Nacional da Propriedade Industrial. Quatro pedidos se referem a polímeros verdes.


A produção do polietileno verde em Triunfo ainda é feita na planta piloto, cuja capacidade reduzida até agora só permitiu o lançamento de um produto que leva a matéria-prima: o Banco Imobiliário Sustentável, jogo de tabuleiro da Estrela. Mas o investimento no projeto – R$ 500 milhões – incluiu a construção de uma fábrica de eteno (que dá origem ao polietileno) com capacidade total de 200 mil toneladas por ano.


Conforme Antonio Morschbacker, que foi responsável pelo projeto, essa será a maior planta de polímeros verdes do mundo. Hoje, a maior do mundo fica nos Estados Unidos, produz polímeros a partir do álcool de milho e está sendo duplicada para chegar à capacidade de 140 mil toneladas anuais.


A nova fábrica de Triunfo começa a operar no segundo semestre. A expectativa é de que comece a comercializar polímeros em 2011. A maioria dos funcionários que trabalham na planta piloto serão alocados na fábrica. São cerca de 50 técnicos e engenheiros treinados na Braskem. “A planta piloto é uma ferramenta de aprendizado. Quando iniciamos o projeto, buscamos profissionais da Braskem no Rio Grande do Sul, na Bahia e em Alagoas e reunimos gente mais antiga na empresa com profissionais recém-treinados”, explica.


Os principais mercados consumidores do plástico verde estão na Europa e no Japão, seguidos dos Estados Unidos e do Brasil. Na época do lançamento do projeto, a Braskem já tinha acordos firmados com a trading da Toyota e com o fabricante de cosméticos Shiseido.

 

 

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