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terça-feira, 03 de Janeiro de 2012
O novo paradigma do investimento

A popularização do mercado de capitais impõe um desafio aos corretores: mostrar aos investidores que a bolsa é uma aplicação de longo prazo

Por Rafael Mangoni Moretti*
Ao longo dos últimos 15 anos dedicados ao mercado de capitais, pude observar mudanças relevantes nesse ambiente de negócios. Não apenas a atividade profissional se aperfeiçoou como os investidores e as empresas se fizeram mais atuantes e se qualificaram. Hoje, é difícil imaginar que, ao final da década de 1990, os volumes diários negociados em bolsa de valores no Brasil totalizavam R$ 400 milhões; a precificação das empresas listadas aceitava múltiplos de avaliação abaixo dos hoje praticados; a taxa de juros nominal da economia estava acima de 20% ao ano; e, finalmente, a conjuntura brasileira não inspirava credibilidade. Falar em investir em ações ou em assuntos gerais sobre o mercado de capitais era “coisa de outro planeta”.

bovbolsobolsa350A busca pelo aprimoramento da gestão do Estado e das instituições no país, somada à estabilidade da economia mundial até a crise de 2008, foi determinante para fomentar o ambiente necessário à expansão da bolsa brasileira. Mesmo assim, ainda há escassez de informação. Quando se fala em mercado de capitais, é comum as pessoas pensarem tão somente em investimentos em ações. Na verdade, trata-se de algo muito maior, que envolve (pelo menos) empresas, projetos, pessoas, emprego, investimento, financiamento, renda, produtos e serviços. É, sem dúvida, a base do capitalismo moderno. Talvez, analisando o contexto, possamos entender o porquê de as pessoas questionarem “e o mercado, como está esta semana?”. Afinal, quem é o tal “mercado”? Parece até um ser vivo... Será que é?

O período da fartura, do “ganha-ganha”, do “tudo se valoriza”, parece que realmente são favas contadas. Felizmente, a crise trouxe à tona muitos pontos positivos, tanto para investidores quanto para profissionais do mercado. Os investidores, por exemplo, aprenderam que não existem garantias e que buscar bons investimentos é o próximo desafio. Para bom entendedor, investimento se resume a disciplina, planejamento e conquista de objetivos de médio e longo prazos – com retornos condizentes aos riscos associados ao perfil de quem investe e aos ativos escolhidos. As empresas podem ter desacelerado o ritmo de expansão, mas passaram a avaliar projetos com maior rigor, exigindo segurança e taxas de retorno alinhadas ao custo de capital engajado. Já o profissional do mercado de capitais buscou a qualificação e voltou a lembrar que crises existem e que não se deve subestimar a força do “mercado” – tampouco os impactos de um desajuste sobre a economia real.

Mais profissionalismo

É justamente em meio a esse contexto que se pode vislumbrar uma nova tendência: o investidor irá, cada vez mais, buscar a gestão dos seus investimentos de forma profissionalizada. Terão destaque aqueles profissionais que conseguirem conciliar a demanda dessa nova gama de exigências, priorizando a prestação de serviços. Adicionalmente, a maior regulação das atividades demonstra a intenção em minimizar riscos de conflito de interesses entre profissionais e clientes.

Ao mesmo tempo em que a concorrência predatória entre as corretoras proporcionou aos investidores a oportunidade de operar com valores de corretagem significativamente pequenos via homebroker, eles também estão notando que custos baixos não são garantia de rentabilidade. Nesse contexto, observam-se oportunidades para todos – de profissionais e investidores a empresas de capital aberto.

O desafio está em saber qual será o formato de serviços a ser adquirido pelos investidores. Será que focarão em homebroker, em atendimento via agentes autônomos e em alocação direta em fundos de investimentos? Ou serão contemplados os gestores com produtos e serviços personalizados? Certamente, haverá mercado para todos. Mas é razoável acreditar que o investidor qualificado se dará conta de que ter a profissionalização do seu planejamento financeiro e poupança é o melhor caminho. É a tônica que se observa nos países desenvolvidos.

Os investidores têm compreendido a necessidade de desvincular sua rotina dos ruídos de mercado e a importância de se dedicar a pleno em sua própria atividade profissional. Está mais presente o conceito de que o investidor quer a contratação de serviços profissionalizados para a gestão de seus recursos. Entretanto, é fundamental que ele opte pelo serviço que conte com profissionais que se valham de modelos sem potencial conflito de interesses. A prestação de serviço na qual a origem da remuneração do profissional depende da performance dos investimentos por ele administrados parece ser a mais alinhada aos objetivos dos investidores.

As metas para o mercado de ações no Brasil são desafiadoras. A BM&FBovespa deseja fomentar acesso a 5 milhões de investidores até 2014. O potencial é evidente, mas o alinhamento das variáveis que interferem no apetite do investidor ao risco e a própria necessidade de incentivar a educação financeira são iniciativas essenciais. Saber administrar os momentos de entrada e saída, por exemplo, é um ponto crítico para o investidor, dada a característica cíclica dos mercados. Na maioria das vezes, ele é corajoso quando há excesso de otimismo (bolsa nas alturas) e conservador quando o momento é de alta volatilidade. Gerenciar as expectativas e o emocional é planejar. E o planejamento financeiro de longo prazo é a base para a formação de poupança – economia que será usufruída no futuro.

O mercado de ações sempre proporciona oportunidades de investimentos. Quando observamos o Índice Bovespa, analisamos um conjunto ponderado – e, por vezes, limitado – de ações. Mas, se direcionarmos nossa análise para uma visão micro, perceberemos que as realidades podem ser muito diferentes. Buscar profissionais que tenham essa visão é o melhor caminho para conquistar resultados positivos no longo prazo, jamais deixando de questionar se os interesses estão equiparados ao do investidor: você.

*Economista, gestor de recursos e sócio da Mestria Asset Management
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