| segunda-feira, 19 de setembro de 2011 |
| O forasteiro de Campo Mourão |
|
A saga do catarinense que forjou a maior cooperativa da América Latina e virou cidadão honorário de 24 cidades paranaenses Por Greta Mello A história da pequena Campo Mourão pode ser dividida em duas fases: antes e depois de José Aroldo Gallassini. A região de terras desprezadas, que estava fadada à miséria, deu lugar a campos férteis e produtivos. O município do centro-oeste do Paraná é sede da Coamo Agroindustrial, a maior cooperativa da América Latina, idealizada por Gallassini há 40 anos e comandada por ele há 36. O cenário que Gallassini, natural de Brusque (SC), encontrou em Campo Mourão, em 1968, não era promissor. Além do enfraquecimento da extração de madeira, a cidade tinha agricultura incipiente e desorganizada. O solo ácido era repleto de samambaias e formigas das espécies sapé e saúva, um problema que ficou conhecido na região como a “peste dos três esses”. O resultado era que ninguém se interessava pelas terras vendidas por apenas 100 cruzeiros o alqueire (cerca de 2,4 hectares), o equivalente a R$ 540 nos dias de hoje. A comercialização da escassa produção agrícola – café e arroz, entre outros produtos – era outro problema. Mais de 80% dos agricultores vendiam imediatamente a produção e apenas 15% aguardavam a melhora dos preços. Muitos vendiam para um único comprador, o que tornava os preços ainda mais baixos. O destino de Gallassini começou a se misturar com o de Campo Mourão quando ele decidiu ser engenheiro agrônomo aos 18 anos. Filho de Luiz Henrique Gallassini e Otília Gamba Gallassini, José Aroldo era o sexto dos 12 filhos do casal. O pai era dono de uma fábrica de móveis muito conhecida na região de Brusque. “Não éramos uma família rica, nem pobre. Mas ninguém queria pedir dinheiro para o pai”, lembra o diretor-presidente da Coamo, na entrevista concedida a AMANHÃ em seu amplo escritório no nono andar da sede da cooperativa, em Campo Mourão.
Gallassini, que foi reconduzido ao cargo
de presidente da Coamo nove vezes e está no comando há 36 anos Essa enorme influência de Gallassini sobre os associados da Coamo também é resultado de um comportamento irretocável que cultiva como diretor-presidente. Apesar de o expediente da cooperativa começar às 7h30, Gallassini já está no trabalho às 7h15. O superintendente administrativo da Coamo, Antonio Sérgio Gabriel, conta que Gallassini faz questão de dar o exemplo. “Ele não só diz ‘você não pode utilizar os bens da cooperativa para uso particular’ como também não faz isso. Chega a ser até radical nesse sentido. Como presidente, ele poderia ter algumas regalias, mas não tem justamente para dar o exemplo”, descreve Antonio Sérgio Gabriel, que convive com Gallassini desde 1975, quando foi para Campo Mourão criar o departamento jurídico da Coamo. O mais importante Aos 70 anos, Dr. Aroldo, como é conhecido na região, é cidadão honorário de 25 cidades, sendo 24 paranaenses e uma de Santa Catarina, além do Estado do Paraná. Em 2009, recebeu um título que sintetiza em uma frase o seu significado para a cidade-sede da Coamo: foi eleito, em votação feita pelo jornal local Tribuna do Interior, “A mais importante personalidade de Campo Mourão de todos os tempos”. Ainda que seja um homem modesto, durante a entrevista não deixou de mostrar orgulho ao pedir que a repórter se levantasse para olhar o certificado pendurado na parede em meio a tantos outros do seu escritório. Em 2007, Gallassini ganhou outra menção de destaque, ao ser escolhido o único brasileiro a estrelar uma campanha da Bolsa de Valores de Chicago. “Temos um volume muito grande de contratos na Bolsa de Chicago e acabamos tendo uma amizade muito grande com o presidente, diretores e corretores. Eles vêm praticamente todo ano aqui participar do baile da Associação de Funcionários. Vêm só para tomar cerveja, sem as mulheres”, entrega. De cozinheiro a juiz de paz Pai de duas filhas de nomes curiosos – Lenara Letícia e Larissa Lorena –, Gallassini nunca considerou a hipótese de elas trabalharem na cooperativa, até porque a Coamo tem uma rigorosa política que proíbe a contratação de familiares de diretores e superintendentes. Na vida pessoal, Gallassini mantém hábitos simples, como caminhar, cozinhar e podar árvores, o que confirma sua ligação estreita com a terra. “Ele gosta de podar tudo. Brinco com ele que eu nunca vi um agrônomo que poda tanto, mas ele diz que é para (a planta) ficar mais grossa, mais bonita, e ele tem razão. Depois fica tudo como ele quer”, admite Marli. Ela garante que o marido também é um ótimo cozinheiro. “Na cozinha, ele não precisa de mulher, pois sabe fazer tudo. E não existe o que ele não coma, mas gosta muito de doce, massas e peixes”, relata. Mas o que agrada mesmo Gallassini é preparar compotas. “Adora fazer conservas. Planta figo, colhe e faz as conservas”, diverte-se Marli. Muito envolvido com a comunidade, Gallassini foi um dos fundadores do Rotary Campo Mourão. Participa ativamente de diversas entidades e colaborou para a reconstrução da Santa Casa de Campo Mourão. Por isso, a unidade de tratamento intensivo (UTI) leva o seu nome. “Só que eu não quero ir para lá, não”, brinca Gallassini, com o bom humor que demonstrou durante toda a entrevista, apesar de ter recebido AMANHÃ em um uma tarde bastante atribulada, na véspera de mais uma de suas viagens de trabalho. Atualmente, ele também é vice-presidente do Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar). Considerado uma referência na cidade de 80 mil habitantes, Gallassini é chamado até para atuar como juiz de paz. O amigo e colega de trabalho Nelson Teodoro de Oliveira conta que, muitas vezes, quando um casal quer se separar, recorre a Gallassini para dividir os bens. “Ele conversa com os dois, sugere uma divisão que fique bom para as duas partes”, relata. Certa vez, um pai brigou com o filho por causa de um terreno. Na cidade, já circulava o boato de que o pai esperava o filho com uma espingarda. Gallassini interveio. “A coisa ficou séria. Iria dar morte. Aí o Aroldo mandou chamar os dois, sem que um soubesse que o outro viria. Conversaram e o Aroldo fez eles assinarem um acordo. Os dois saíram de mão dadas, o pai dando beijo no filho”, relembra Oliveira, impressionado. O futuro e a sucessão Como Gallassini foi crucial para transformar a Coamo na gigantesca cooperativa que é, já há quem se pergunte o que será dela quando ele não estiver mais no comando. Por conta disso, a sucessão do septuagenário diretor-presidente é uma grande preocupação da comunidade e da diretoria da Coamo. “Não só minha, mas de todo o quadro funcional”, afirma Gallassini. Para tentar resolver a questão no longo prazo, a Coamo promove cursos de liderança, com duração de oito meses, para jovens cooperados que estão assumindo as propriedades dos pais. Mas no que se refere à sucessão de Gallassini, ele mesmo tenta tranquilizar os cooperados: pretende ficar o máximo de tempo que puder no cargo. “Só saio sob duas condições: a primeira, se eu não tiver saúde. A segunda, se os cooperados não me quiserem mais”, ressalta. “Mas amanhã ou depois vai ter um presidente no meu lugar, porque eu não vou durar muito tempo, só até os 120 anos”, brinca. Se depender da genética, dos cuidados médicos e das atividades físicas, isso até poderia acontecer. A mãe de Gallassini faleceu às vésperas de completar 100 anos e ele faz check-ups de seis em seis meses. Além disso, o executivo caminha sete quilômetros e faz 500 abdominais diariamente. Apesar da boa saúde, Gallassini sabe que tem a responsabilidade de “preparar gente” para dar sequência ao seu bem-sucedido trabalho. “Todos os chefes de todos os setores da Coamo têm de ter o seu ‘segundo homem’, que às vezes nem sabe que ocupa essa função, mas tem de ser preparado para isso”, enfatiza o executivo que, é bom lembrar, um dia foi gerente da empresa e saiu exatamente da posição de “segundo homem” para transformar a Coamo na maior cooperativa da América Latina. |
|
|
|
blogs
| VIDA EXECUTIVA | por Bernt EntschevEmpresas também têm parceiros |
| SR. CONSUMIDOR | por André D´AngeloDepois da queda, o coice |
| Mundo Sem Fronteiras | por Carlos Serapião Jr.É o mandarim, ô meu! |
| COMUNICAÇÃO / por Eloi ZanettiComo reter talentos e funcionários (6) |
| DNA CORPORATIVO | por Lígia FascioniIdentidade anoréxica |
| Ball Street | por Fernando FerreiraA caixa preta do futebol precisa ser aberta |
| INTELIGÊNCIA COMPETITIVA | por Eduardo LapaUm mundo mais Inteligente |


O cenário que Gallassini, natural de Brusque (SC), encontrou em Campo Mourão, em 1968, não era promissor. Além do enfraquecimento da extração de madeira, a cidade tinha agricultura incipiente e desorganizada. O solo ácido era repleto de samambaias e formigas das espécies sapé e saúva, um problema que ficou conhecido na região como a “peste dos três esses”. O resultado era que ninguém se interessava pelas terras vendidas por apenas 100 cruzeiros o alqueire (cerca de 2,4 hectares), o equivalente a R$ 540 nos dias de hoje. A comercialização da escassa produção agrícola – café e arroz, entre outros produtos – era outro problema. Mais de 80% dos agricultores vendiam imediatamente a produção e apenas 15% aguardavam a melhora dos preços. Muitos vendiam para um único comprador, o que tornava os preços ainda mais baixos. 






Comentários