| quinta-feira, 28 de julho de 2011 |
| O filósofo que era empresário |
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Disposto a deixar o comando da anjo química nos próximos três anos, Beto Colombo mostra que a filosofia e até a teologia podem ser aliadas na condução dos negócios Por Pedro Pereira Palavras são apenas palavras – nomes que grudamos nas coisas, para classificá-las, certo? Errado – pelo menos, de acordo com o empresário Beto Colombo, cuja empresa, a Anjo Química, é líder nacional nos mercados de repintura automotiva e solventes. Para Colombo, um apaixonado estudioso de filosofia e teologia, as palavras não apenas revelam a essência das coisas como também expressam a “alma” do negócio. Foi com isso em mente que ele resolveu, em 1987, mudar o nome de sua empresa. A Colombo Indústria de Massas Plásticas, fundada um ano antes, transformou-se na Anjo Química. Para Colombo, a palavra “anjo” era tão importante que ele chegou a fazer um considerável investimento só para poder usá-la. “Na época, já havia uma empresa chamada Anjo. Mas eu queria muito usar esse nome – e, no final das contas, acabei resolvendo o dilema comprando essa empresa”, diz ele. Anjos são criaturas que povoam não apenas as páginas dos teólogos, como também as dos filósofos – o judeu alemão Walter Benjamin imortalizou este ser alado e enigmático em seu célebre ensaio sobre O Anjo da História. E é nas páginas de um contemporâneo de Benjamin, o judeu austríaco Martin Buber, que Beto Colombo encontra muitas de suas inspirações de vida e de trabalho. Segundo a filosofia de Buber, a comunicação e o diálogo são o fundamento da existência. Nenhum objeto e nenhum ser humano podem existir sem interagir com os outros. Outro filósofo que frequenta constantemente as prateleiras de Beto Colombo é o francês de origem lituana Emmanuel Levinas. Para ele, a ética deve ser o centro de toda reflexão sobre o mundo – e a filosofia não pode ser apenas um “amor à sabedoria”, como dizem os dicionários, mas também uma “sabedoria do amor”.Para Colombo, reflexões como essa são mais do que um hobby intelectual. Ele faz questão de aplicar as ideias de seus pensadores favoritos na empresa que fundou, em Criciúma, sudoeste de Santa Catarina. Prova disso são as sessões de “Filosofia Clínica” que ele oferece aos funcionários todas as terças e quintas-feiras. Desenvolvida pelo filósofo gaúcho Lúcio Packter, no final da década de 1980, a Filosofia Clínica propõe um método para tratar questões existenciais de um jeito bem diferente da psicanálise clássica. Para um filósofo clínico, não existe conceito de “normalidade” ou “patologia”. Todo problema é tratado de acordo com as peculiaridades e com a história de vida de cada “partilhante” (assim são chamados os pacientes em uma sessão de filosofia clínica). Em outras palavras: em vez de simples diagnósticos, o objetivo é buscar autoconhecimento. “A solução sempre está dentro de cada pessoa”, explica Colombo, que tem pós-graduação em Filosofia Clínica – é ele mesmo, por sinal, quem ministra as consultas aos funcionários. “Durante uma sessão, o que se faz é ajudar cada partilhante a encontrar a saída para seu próprio dilema. São raríssimas as vezes em que a pessoa encontra a solução fora, e não dentro de si mesma”. E a aplicação desse “amor à sabedoria” não se limita às tardes de terça e quinta-feira. Com efeito, Beto Colombo usa o filtro filosófico para analisar e incrementar toda sua experiência da vida corporativa. “Acredito que o mundo seja nossa representação. Cada pessoa tem sua própria visão de mundo, que não está necessariamente certa nem errada”, diz. Elaborado pelo alemão Arthur Schopenhauer, no século XIX, o conceito de representação é um dos mais difundidos na filosofia ocidental. Em termos simples, significa que cada um de nós tem uma imagem mental do mundo – mas ninguém pode conhecer a verdade nua e crua, com 100% de certeza. Lição espinhosa, mas certamente salutar em um ambiente competitivo, como o dos negócios. “Se um psicólogo considera uma pessoa inapta para determinado cargo, isso não significa que ela seja realmente incapaz ou que não tenha outras virtudes. A visão daquele psicólogo em particular deve ser respeitada – mas também existem outras”, aponta. O mesmo raciocínio serve para aplacar discussões potencialmente acaloradas – como tantas que ocorrem a portas fechadas no ambiente empresarial. “É possível que duas pessoas estejam discordando, sem que nenhuma delas esteja necessariamente errada”, filosofa Colombo. Para esse executivo de fala mansa, sempre gentil e bem-humorado, a serenidade conquistada pelos estudos de filosofia pode evitar deslizes sérios no quotidiano de uma empresa. “Às vezes, um funcionário que está há anos em uma companhia acaba saindo por causa de uma alteração momentânea do chefe ou de outro colega”, destaca Colombo. A julgar pelo desempenho da Anjo Química no mercado, a contemplação filosófica pode mesmo gerar dividendos. Hoje, a empresa é líder na produção de tintas para impressão na região sul – e está entre as cinco principais empresas do ramo no Brasil. Como tantas outras, essa história de sucesso teve um começo humilde. “Eu era vendedor, daqueles que batem de porta em porta”, conta Colombo. “Trabalhei com calçados, fui funcionário de vendas da Volkswagen e, depois de algum tempo, passei a trabalhar como balconista em lojas de tintas.” Foi desempenhando essa última função que Colombo encontrou o nicho para seu espírito empreendedor. “Comecei a ir até as oficinas e imobiliárias para oferecer o produto, conhecer melhor os clientes, seus ofícios e suas necessidades”, relata. Em 1986, resolveu abrir seu próprio negócio. A futura Anjo – que, na época, ainda tinha outro nome – começou produzindo e distribuindo massas plásticas. Desde as origens de seu negócio, Colombo deu mais importância à qualidade do produto do que ao imediatismo das vendas. Essa mistura de serenidade e persistência foi uma das chaves de seu sucesso. Já em 1994, o bom ritmo de vendas levou a empresa a produzir não só massas plásticas, mas também tíners e solventes. De lá para cá, sua fatia de mercado só aumentou. A Anjo, por sinal, já foi considerada líder em inovação, entre as empresas que trabalham com produtos químicos. “Ficamos à frente, inclusive, da Petrobras, nesse sentido”, comemora Colombo, acrescentando que a empresa foi eleita “fornecedor do ano em impressão”, demonstrando a vocação de prestação de serviço que sempre o mobilizou. E o anjo de Colombo vem batendo asas com tanta gana que já existem planos para conquistar novos segmentos – entre eles, o imobiliário. “Nosso volume vem crescendo 12% ao ano,” revela o executivo. “Quanto ao mercado imobiliário, pretendemos alcançar a liderança até 2025.” Muito além do lucro Nem mesmo no auge de sua carreira empresarial, Beto Colombo deixou de lado seus interesses culturais. De suas pesquisas sobre a aplicação de conceitos filosóficos à vida corporativa, já nasceram livros como Muito Além do Lucro – Como um Plano de Participação Pode Transformar Você e Sua Empresa e também Despertando a Excelência. Hoje, Beto é coordenador do curso de pós-graduação em Filosofia Clínica e Gestão da Universidade do Extremo Sul de Santa Catarina (Unesc). Suas publicações, que refletem não apenas o mundo empresarial, mas também o quotidiano da vida moderna, valeram-lhe uma cadeira na Academia Catarinense de Letras. Além das páginas de Buber e Levinas, Beto busca lições para o dia a dia nas palavras de outro livro: a Bíblia. Membro ativo da Igreja Católica, Beto é um teólogo leigo e gosta de trazer experiências dos estudos bíblicos para a gestão dos negócios. Em histórias como as de Jó, Móises e Abraão, ele encontra um parâmetro para sua rotina e um espelho para sua vida pessoal. E é dos versículos do Novo Testamento que ele retirou uma de suas citações favoritas. Está no capítulo 7 do livro de Mateus, a partir do versículo 13: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso é o caminho que leva à perdição, e muitos são os que entram por ele! Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida! E são poucos os que o encontram”. A partir dessa passagem do Evangelho, Beto Colombo puxa as mais variadas interpretações – sempre aplicáveis ao dia a dia da gestão empresarial, é claro. “Podemos sempre optar pelo caminho largo ou pelo estreito”, diz ele. “No nosso caso, o caminho fácil seria oferecer produtos baratos e de menor qualidade. Venderíamos muito, sem dúvida. No entanto, escolhemos trilhar o caminho mais difícil, o da qualidade, e por isso é preciso trabalhar mais arduamente.” Outro exemplo bíblico que logo vem à mente de Colombo são as viagens do apóstolo Paulo de Tarso – aquele que correu o mundo angariando conversos para a recém-fundada religião cristã. Na opinião do empresário, o santo apóstolo tem muito a ensinar aos profissionais de marketing de hoje. “Paulo já demonstrava ter uma estratégia de marketing quando viajava a outros lugares para pregar. Quer dizer, ele buscava o público – se não estava sendo bem recebido em um lugar, buscava outros povos”, compara. O exemplo de Paulo também é aplicado fora das plantas industriais e salas de reunião. À imagem do grande divulgador do cristianismo, o filósofo da Anjo é um viajante contumaz. Acompanhado de outros professores, já viajou por diversos continentes. Uma de suas obras é inspirada em uma peregrinação feita no Caminho de Santiago de Compostela – viagem de 790 quilômetros, realizada a pé, ao longo de 29 dias. Outra jornada memorável foi a ida a Jerusalém, onde conheceu os caminhos trilhados por Jesus. Dessa viagem, o empresário guarda uma lembrança doce-amarga. “Fico me perguntando: como pode haver tanto ódio no lugar onde Jesus pregou o amor?”, questiona. Leve e solto Diante de voos audaciosos e de andanças tão apaixonadas, surge uma inevitável pergunta: quais os caminhos futuros de Beto Colombo? A obviedade, como se viu, não é uma característica muito presente na vida dele. Quando a reportagem de AMANHÃ lhe perguntou sobre seus projetos pessoais, ele deu uma resposta que pouca gente esperaria encontrar: “Estou com 47 anos. Aos 50, eu paro”. Basicamente, Colombo projeta aprofundar ainda mais seus estudos em filosofia e palmilhar ainda muitas terras distantes. O que não significa que a empresa esteja excluída de seus pensamentos. Ele pretende deixar a direção dos negócios a cargo do filho mais velho, Filipe, que hoje estuda nos Estados Unidos. Mas essa transição nada terá de corriqueira. “Quando Filipe voltar, será avaliado tecnicamente por uma equipe que não faz parte da empresa”, revela. “A equipe terá total autonomia para fazer seu julgamento. Se meu filho estiver capacitado, ocupará o meu lugar. Se o parecer não for favorável, Beto garante já ter pelo menos três diretores aptos a assumir o comando. “Depois disso, vou integrar o Conselho de Administração, e nada mais.” Seja quem for, o próximo diretor da Anjo contará com um sábio conselheiro. |
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