O autor do estudo que analisa a trajetória de crescimento da América Latina garante: explorar e vender commodities é um dos trunfos do Brasil na busca do desenvolvimento
por Andreas Müller
Quem disse que a vocação para exportar grãos, carnes, minério de ferro e outras commodities é um obstáculo ao desenvolvimento da economia brasileira? Para John Nash, economista-chefe do Departamento de Desenvolvimento Sustentável do Banco Mundial, a abundância de recursos naturais é um dos pontos fortes do Brasil na busca por maior competitividade. Autor do estudo “Recursos Naturais na América Latina: Indo além das Altas e Baixas”, lançado pelo Banco Mundial, Nash afirma que o país é um dos poucos que sabem explorar a venda de commodities como alavanca para o desenvolvimento. Para que essa vantagem seja duradoura, porém, o Brasil terá de adotar políticas que garantam a sustentabilidade dessa riqueza. Bem-humorado, Nash conversou com AMANHÃ durante uma hora e, ao final, brincou dizendo que não é “aquele John Nash” que ganhou Prêmio Nobel pela criação da Teoria dos Jogos – e cuja trajetória foi retratada em uma superprodução de Hollywood. “Eu não sou uma mente brilhante, viu?”
O estudo mostra que a vocação para produzir e exportar commodities não é necessariamente um fardo para a América Latina. Que mensagem fica para os críticos da atual matriz econômica desses países, especialmente do Brasil, que sempre foi um grande exportador de commodities? A América Latina tem apresentado uma taxa de crescimento bastante elevada mesmo durante a crise recente. Esse crescimento coincide com o verdadeiro boom registrado nos preços globais das commodities. E esta é uma mensagem positiva que o estudo nos traz: os países da América Latina descobriram como aproveitar a ocasião. Suas políticas de gestão macroeconômica avançaram – hoje, estão melhores, muito melhores que em períodos anteriores. Com a grande demanda na Ásia, as commodities estão com preços bem mais altos e os países fornecedores, aí incluído o Brasil, estão registrando avanços consistentes por causa disso.
Mas é uma vantagem duradoura? Historicamente, muitos economistas criticam esse modelo, alegando que os preços dos recursos naturais tendem a ficar cada vez menores em relação aos dos manufaturados... De fato, essa era a hipótese de alguns economistas até poucos anos atrás, especialmente de Prebisch e Singer [Nash se refere aos economistas Raul Prebisch e Hans Singer, autores de uma famosa critica aos países com vocação para exportar commodities]. A tese deles foi bem aceita nos anos 1950, 1960 e 1970, até porque se baseava em uma observação objetiva da tendência histórica das commodities. Quem analisava os gráficos não tinha dúvidas: parecia, mesmo, que os preços estavam caindo. Entretanto, hoje, se você ampliar o campo de observação e usar alguns métodos econométricos para determinar a variação dos preços, encontrará evidências bastante claras de que a tendência das commodities não é de queda. Estatisticamente falando, trata-se de um “passeio aleatório” – ou seja, não há razão para se esperar que eles caiam indefinidamente. Com a Ásia demandando cada vez mais energia, água e alimentos, é possível considerar que os preços das commodities entrem em uma trajetória permanente de alta? Não. A ascensão de alguns países do leste e do sul da Ásia criou uma demanda nova por commodities – e isso explica, sim, por que os preços têm permanecido tão elevados. Entretanto, não penso que eles continuarão subindo sempre. Quer dizer: eles não vão cair, mas tampouco vão subir.
Como assim? É que tem também o lado da oferta. Os preços das commodities podem estar altos agora. Mas a produção está aumentando e há um limite que o mercado aceita pagar. Além disso, sabemos que, no longo prazo, novas reservas de petróleo e minerais em geral deverão entrar em produção. Aí os preços já não serão tão altos, mas também não serão muito mais baixos.
Mas é prudente fortalecer a exportação de commodities e de outros produtos básicos? Nos anos 1960, por exemplo, o Brasil ficava altamente exposto às variações do preço do café... Sim, mas hoje o minério de ferro é seu principal produto de exportação, certo? Se você analisar, vai perceber que até mesmo o minério de ferro responde por uma parcela pequena no total de exportações do Brasil. É diferente do que ocorria nos anos 1960. Naquele tempo, só o café representava mais de metade das exportações brasileiras. Há um claro processo de desconcentração aí. Com esse maior equilíbrio, focar na venda de recursos naturais pode ser uma boa escolha? Para um país como o Brasil, sim. Quer dizer: diversificar e agregar produtos manufaturados à pauta de exportações é sempre bom. Mas penso que a diversificação da pauta brasileira pode se valer dessa abundância de diferentes commodities – sem aquela necessidade de buscar produtos que não sejam commodities. Quando 60% de sua exportação é de café, aí, sim, você fica muito exposto às oscilações dos preços. Mas quando você exporta diferentes commodities, o resultado final não se altera tanto assim. Sempre há um produto em alta e outro em baixa. Claro que eles não são perfeitamente correlacionados, mas o efeito final, ao contrário do que muitos imaginam, pode ser muito bom.
Historicamente, o Brasil tem feito grandes esforços para reduzir sua dependência das exportações de commodities. Por que é tão difícil fazer essa transição? Há, obviamente, aspectos que precisam ser observados aí. Um deles é a chamada “doença holandesa”. Quando um país começa a ganhar muito dinheiro com as exportações de commodities e recursos naturais, a tendência é de que entre em um processo de desindustrialização. Afinal, você tem grandes rendas, grandes lucros associados à venda de recursos naturais – que geram um enorme influxo de moeda estrangeira. O resultado é uma depreciação da taxa real de câmbio que reduz os incentivos para o desenvolvimento de outros setores, como a indústria, por exemplo.
O Brasil está passando pela “doença holandesa”? Não chegamos a analisar se isso ocorre no Brasil. Certamente, o problema é sério em alguns países. Mas, no Brasil, onde o principal produto de exportação, que é o minério de ferro, representa apenas 7% dos embarques, não me parece que isso seja um problema tão sério. Me preocupo muito mais com a Venezuela, por exemplo, onde o petróleo representa 60% ou 70% de toda a exportação.
Vender commodities não é uma maldição, mas tampouco é uma bênção. É algo que deve ser aproveitado – com as políticas adequadas para isso
Com a chegada do petróleo do pré-sal, qual é o risco que o Brasil corre de supervalorizar a exploração de recursos básicos? Certamente, quando os campos de pré-sal estiverem em plena produção, este será um problema maior para o Brasil. Mas não é nada assustador. Pelo que sei, mesmo com o pré-sal, o petróleo poderá representar, no máximo, 15% do total das exportações do Brasil. É um percentual ainda pequeno, comparável com o da Colômbia ou do México. Minha primeira impressão é que a “doença holandesa” não será, no Brasil, um problema tão sério quanto é em outros países. E em que medida essa vocação pode gerar vantagens competitivas duradouras para o Brasil? Há algo que já acontece no setor agrícola brasileiro que é muito positivo: com o fortalecimento de algumas commodities, começam a surgir grandes cadeias de produção – e algumas delas têm uma clara vocação industrial e tecnológica. Isto é: indústrias ou processadoras que fornecem insumos, produtos e serviços para o setor de commodities. A Noruega, por exemplo, desenvolveu uma indústria muito pujante em torno da exploração do petróleo. No Chile, um número grande de empresas se desenvolveu ao redor da indústria do cobre – o que contribuiu enormemente para a redução da pobreza do país. O Brasil já é uma grande potência agrícola. Quão longe o país está de se firmar entre os grandes polos industriais e tecnológicos? O Brasil já é um ator importante tanto nas exportações de produtos agrícolas quanto industriais. Mas penso que a mensagem importante aqui é que é sempre positivo para um país saber aproveitar seus pontos fortes – e um desses pontos fortes, no caso do Brasil, é a abundância de recursos naturais. Se você olhar a trajetória de desenvolvimento de outros países, como os Estados Unidos, Austrália ou Canadá, verá que eles também começaram pela exploração de recursos naturais. Aos poucos, essa atividade foi dando origem a diferentes tipos de indústrias – que, finalmente, geraram níveis elevados de tecnologia. Essa me parece ser a trajetória que o Brasil está seguindo.
Quando você começou o estudo, o que esperava encontrar? O resultado chega a ser surpreendente? Todos os anos, o gabinete do economista-chefe da América Latina e do Caribe do Banco Mundial seleciona um tópico para ser tema de um grande estudo – e este foi o tópico de 2010. Sentimos que a América Latina sempre foi muito dependente de commodities. No caso do Brasil, a descoberta de ouro foi o que motivou a rápida exploração do interior do país. De modo geral, as commodities sempre tiveram um papel muito importante na América Latina. Algumas vezes, isso foi bom; em outras, percebemos que os países responderam mal e acabaram ainda mais pobres do que começaram. Nossa intenção foi identificar se há, mesmo, algum tipo de “maldição” que acompanha a dependência de commodities – e como se pode evitar essa maldição.
Concluído o estudo, você tem segurança para dizer que a dependência de commodities não é uma “maldição”? Acho que não é uma maldição, mas tampouco é uma bênção. Commodities são um tipo de recurso que os países podem e devem aproveitar – desde que tenham as políticas adequadas para isso. O Brasil tem essas políticas? É difícil dizer. Mas a história recente mostra que o Brasil está seguindo uma trajetória muito boa. Sua economia está diversificada e apresenta um dos melhores desempenhos na América Latina. Onde podemos melhorar? Não sei se podemos apontar o dedo e dizer que esse ou aquele ponto precisa ser melhorado. Mas eu diria que há algumas coisas com as quais o país deveria ser mais cauteloso. Por exemplo: como gerenciar as novas receitas geradas pelas reservas do pré-sal? Considero positivo o fato de que o governo brasileiro está pensando em algum tipo de fundo para gerenciar e atenuar os impactos da oscilação dos preços do petróleo. À medida que o petróleo se tornar abundante no Brasil, essa será uma questão mais importante: como estabilizar o fluxo de receita e evitar que a economia entre em ciclos alternados de expansão e contração?
Em um mundo cada vez mais alinhado com os princípios da sustentabilidade, há espaço para um país crescer amparado na indústria do petróleo ou na agricultura? Bem, essa questão é complicada. A indústria petrolífera, por exemplo, gira em torno de um recurso que não é renovável. Logo, se formos falar de sustentabilidade na indústria do petróleo, teremos de falar em como economizar esse recurso a longo prazo. Ou de reservar uma parte que possa ser aplicada no desenvolvimento de novos meios de produção. O ponto-chave é usar essa riqueza para evitar que a economia não se esgote à medida que o petróleo se esgotar. Uma forma de fazer isso é investindo em capital humano ou em uma nova infraestrutura produtiva para que as gerações futuras continuem a colher seus benefícios.
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