| segunda-feira, 13 de dezembro de 2010 |
| O inventor que venceu o tempo |
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Oskar Coester esperou 30 anos para que o Brasil entrasse nos trilhos da sustentabilidade e apostasse no seu já quase esquecido aeromóvel Por Ricardo Lacerda Trinta e três anos atrás, o empresário Oskar Coester teve uma grande ideia para atenuar o crônico problema de mobilidade urbana das grandes cidades. Apaixonado por engenharia, daqueles que desmontam aparelhos só pelo prazer de remontá-los, Coester propôs a criação de um trem aéreo que circulasse em trilhos suspensos – sem intervir no trânsito da cidade – e que se locomovesse unicamente com a força do ar. Parecia genial. Tanto que, em pouco tempo, o projeto já causava alvoroço em todo o país. Uma linha experimental foi erguida em Porto Alegre, prenunciando o início de uma nova era no transporte urbano. Em Brasília, o Ministério dos Transportes chegou a incluir os aeromóveis em sua agenda política. Tudo levava a crer que Coester havia dado início a uma pequena revolução urbana. Mas não havia. Não ainda. Na época, o Brasil ainda estava redescobrindo a democracia. Eram os tempos de hiperinflação, dos planos econômicos de Sarney e do dinheiro volátil. E foi justamente no meio dessa turbulência que o invento de Coester, que já estava saindo do papel, parou. Desde então, no Brasil, o famoso aeromóvel jamais passou de um trilho suspenso no centro de Porto Alegre. Quem passa pela região ainda se surpreende com a via experimental, que segue lá – começa no meio de uma praça e termina em cima de uma das avenidas mais movimentadas da capital. Durante todo esse tempo, a ideia de Coester só vingou na longínqua Indonésia, onde uma linha comercial funciona há 21 anos, transportando pessoas em um trajeto de 3,2 quilômetros dentro de um parque de Jacarta. Engana-se, porém, quem acha que a história de Oskar Coester – e do seu aeromóvel – termina aí. Hoje, com o Brasil devidamente encarrilado na estabilidade e prestes a sediar uma Copa do Mundo, o inventor encontrou o cenário ideal para retomar seu invento. Em setembro deste ano, o Ministério das Cidades decidiu investir R$ 28,8 milhões em uma linha entre o Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, e uma estação da Trensurb, estatal que administra o metrô da capital gaúcha. Se tudo der certo, o novo aeromóvel entrará em operação já a partir de 2011. Será o início de uma nova etapa que, desta vez, tem tudo para acabar bem e alçar Coester ao rol dos mais criativos empreendedores do país. Vida de inventor Que fique claro: a queda e ascensão do aeromóvel compõe apenas uma parte da trajetória de Coester. Por trás dos trilhos suspensos de Porto Alegre há o líder de um empreendimento que fatura cerca de R$ 18 milhões por ano e que se destaca na produção de equipamentos de automação industrial. Fundado nos anos 1960, o Grupo Coester reúne duas empresas. Uma delas é a Coester Automação, que busca cerca de 60% de seu faturamento nas vendas para a Petrobras de atuadores elétricos inteligentes – como são conhecidos os equipamentos que ajudam a controlar válvulas de refinarias de petróleo. A outra é a Aeromovel Brasil. A criatividade sempre fez parte da vida de Coester. Começou a carreira na Escola da Varig, em uma manobra especialmente calculada para escapar do serviço militar. Trabalhou lá durante dez anos, justamente no período áureo da companhia, até pedir demissão em 1969 – quando passou a se dedicar exclusivamente ao que hoje é o Grupo Coester. Foi com esse empreendimento que ele introduziu, no Brasil, a grande novidade tecnológica da época: os primeiros intercomunicadores transistorizados do mercado. “Ninguém acreditava em transistor naquela época. Tudo era a válvula”, lembra. A empresa começou com quatro funcionários – e a ajuda da esposa, Elida, com quem Oskar é casado há 46 anos. Mas cresceu rápido graças a um insight típico de inventor. “Eu costumava visitar o Estaleiro Só [em Porto Alegre], que era nosso cliente. Um dia, eu estava lá e ouvi alguém dizer que não poderiam fazer prova de mar com um navio porque faltava um sinalizador. Pedi o catálogo emprestado e fiz um em 24 horas”, diz. Dali em diante, Coester adaptaria vários conceitos de automação aeronáutica – aprendidos na época da Varig – à indústria naval. Sua empresa se tornou pioneira, no Brasil, na fabricação de pilotos automáticos para a marinha. O crescimento veio a reboque. “Foi ‘vapt-vupt’. Quando vi, já estávamos com mais de 400 funcionários”, destaca. Partindo do pressuposto de que distâncias não se mediam mais em quilômetros, mas sim em tempo, o misto de empresário e inventor passou a conviver com uma questão desafiadora: como desenvolver um sistema de transporte cujo meio de sustentação ignorasse obstáculos, transportasse mais carga útil e tivesse um baixo custo? A solução apareceria em 1977: um conjunto roda-trilho suspenso no ar e impulsionado pelo vento. “Não sei por que cargas d’água lembrei do princípio do barco à vela e pensei: coloco a vela invertida para baixo, dentro de um túnel, e gero ar com um ventilador... Por que não experimentar?”, recorda Coester. Os testes mais rudimentares foram feitos em casa. “Lembro de meu pai pegando o aspirador de pó e meus carrinhos de brinquedo para fazer experiências”, conta o filho Marcus, hoje vice-presidente do Grupo Coester e diretor do Ciergs (Centro das Indústrias do Rio Grande do Sul). O passo seguinte foi levar a ideia para dentro da empresa e fazer uma cadeirinha de madeira tripulada deslizar sobre 40 metros de trilho. “O projeto não era nenhum segredo, mas eu não sabia se ia dar certo. Quando tinha um equipamento de solda dando sopa, eu ia lá e fazia um pouquinho”, recorda Oskar. O protótipo sequer havia sido concluído quando foi descoberto pela imprensa. Sem demora, o empresário ganhou fama como inventor de uma revolucionária solução para o transporte urbano. Mas a distinção incomodou. “Aquela repercussão toda perturbou minha paz. Até então, eu tocava o projeto sem compromisso”, explica. Depois de ser patenteado, em 1978, na Inglaterra, o aeromóvel se tornou assunto de repercussão nacional, discutido no âmbito do Ministério dos Transportes do ex-presidente João Figueiredo. O entusiasmo, porém, durou pouco. Com a saída de Elizeu Resende da pasta, o substituto, Cloraldino Severo, cancelou um acordo firmado para a construção de uma linha de aeromóvel em Porto Alegre. Anos depois, em 1986, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do governo federal, ainda liberou um financiamento em moeda brasileira equivalente a US$ 3 milhões para a conclusão do trecho. Mas a instabilidade da economia fez os recursos virarem pó. “Estávamos na época do Plano Cruzado e o contrato não previa reajustes. Quando fomos fazer a obra, a inflação já havia comido o dinheiro”, relata Oskar. Desde então, muito se falou em conspiração, lobby de grandes indústrias e boicote político para explicar o triste fim do aeromóvel. “A vida toda ouvi essa conversa de teorias conspiratórias. Na verdade, acho que o ambiente tecnológico brasileiro simplesmente não era propício à inovação”, resume Marcus Coester. O pai também prefere não entrar no debate. “Não quero julgar ninguém, nem tomar partido de A, B ou C. O tempo mostrará quem tem razão”, diz Oskar. Ele garante que colocou dinheiro do próprio bolso na construção da linha que, hoje, jaz no centro de Porto Alegre. “Não quero que pensem que tem dinheiro público enterrado nesse projeto”, enfatiza. Para piorar, a derrocada nos planos do aeromóvel coincidiu com uma época difícil para o Grupo Coester. “Nos anos 1980, com a falência da indústria naval, ficamos aos frangalhos. Eu estava dentro de um bunker, as bombas caiam de tudo quanto era lado e eu não sabia para onde ir”, lembra. Mas o bombardeio passou e a Petrobras surgiu como grande aliada. Puxada pelas encomendas da estatal, a holding transformou em seu principal negócio a fabricação de atuadores elétricos inteligentes. Somente anos depois, em 1989, o aeromóvel renderia o primeiro e único resultado a Oskar: durante uma visita a Porto Alegre, um grupo da Indonésia se interessou pela ideia e decidiu pagar US$ 10 milhões pela construção de uma linha em Jacarta. “Lá, o aeromóvel é usado há 21 anos sem nenhum problema”, destaca Oskar. Hoje, é Marcus que coloca o pé na estrada para tocar os negócios do grupo. Mais low profile, Oskar diz que seu papel é cuidar da retaguarda – o que demanda 12 horas de trabalho por dia. “Já pedi ao meu copiloto o check-list para descida e pouso. Estou com 72 anos e oito netos”, afirma. Mas Wilson Kapp, que trabalha na empresa desde 1978, diz que “seu Oskar” não é do tipo que mantém distância do dia a dia do grupo e seus quase 100 empregados. Ao contrário: faz questão de se envolver pessoalmente no desenvolvimento de novos produtos. “Ele tem essa facilidade da criação no sangue”, relata o diretor industrial. Oskar refuta o rótulo de inventor, mas o filho entrega o jogo. “Meu pai é muito modesto: ele é 100% inventor”, garante Marcus. “Ele já fez até uma máquina de inseminação de ovelhas para um amigo”, completa. Preocupado em facilitar a vida de quem está à sua volta, Oskar patenteou recentemente um protótipo de “degrau móvel”, equipamento que ajuda pessoas com dificuldades a subir escadas – e que deverá ser instalado em breve em sua própria casa. “Minha esposa fez uma cirurgia no joelho e não pode subir escada. É um sisteminha banal, mas que ainda não existe no mundo”, despista ele, com um leve sorriso. Trechos pequenos A distância que Oskar costuma percorrer entre sua casa, na zona sul de Porto Alegre, e a sede atual do Grupo Coester, em São Leopoldo, é de aproximadamente 50 quilômetros. Por obra do destino, o novo aeromóvel será instalado justamente no meio do caminho. Contente pela iminência de ver a antiga invenção funcionando no Brasil – “e não lá na Indonésia” –, o empresário se diz preocupado em fazer do projeto “um show em termos de prazo, qualidade e segurança”. Para Luis Antonio Lindau, presidente Centro de Transporte Sustentável (CTS-Brasil), chegou a hora de testar a confiabilidade do sistema e, especialmente, sua capacidade de gerar ganhos ambientais e financeiros. “Espero ver na prática o que todos os estudos mostraram até hoje”, afirma Lindau, que é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e, desde 1983, acompanha a via-crúcis de Coester. Confiante, o inventor do aeromóvel assegura que o empreendimento terá um significado especial. “Não me preocupo em ganhar dinheiro com ele, e sim em desenvolver uma cadeia produtiva competitiva para atender às demandas do mercado brasileiro e às exportações que virão”, prevê. Ele acredita que, no futuro, as vendas para o exterior poderão render bons negócios. “Sempre fomos mais reconhecidos fora do Brasil do que aqui”, comenta. Outro divisor de águas será a conclusão de uma linha de aeromóvel no campus da PUC do Rio Grande do Sul. Gestado desde 2006 com o apoio da UFGRS, o sistema já passou pela etapa de estudos, que demandou cerca de R$ 3 milhões, e agora espera a liberação de R$ 6 milhões do Ministério da Ciência e Tecnologia, por meio da Finep, para viabilizar as obras de instalação. Coester conta que, antes mesmo da PUCRS, a Universidade da Georgia já havia manifestado interesse em contar com a tecnologia. Mas o projeto não avançou porque, nos Estados Unidos, qualquer sistema de transporte de pessoas precisa estar certificado conforme as normas do país. Daí a importância do empreendimento da universidade gaúcha: ele já segue o padrão norte-americano, que é aceito mundo afora. Além disso, o projeto da PUCRS estabelece um novo posicionamento para o aeromóvel: o de atender a demandas de transporte em trechos curtos. “Depois de tantas experiências, nos demos conta de que, desde o início, deveríamos ter proposto sistemas pequenos, para ligações entre aeroportos e campus universitários”, avalia Oskar. Lindau, do CTS, lembra que é crescente o interesse de aeroportos por APMs (Automated People Movers), sistemas automatizados de transporte usados em linhas curtas. “Se o aeromóvel confirmar sua viabilidade, irá concorrer com os veículos tracionados a cabo. Esse mercado é muito grande fora do Brasil”, acrescenta Lindau. Trinta e um anos depois de assinar seu primeiro contrato, com a extinta Empresa Brasileira de Transportes Urbanos (EBTU), Oskar Coester faz uma espécie de mea culpa: “Começamos a casa pelo telhado. Poderíamos ter feito sistemas pequenos. Provavelmente teríamos tido menos obstáculos para colocá-lo em funcionamento”. Agora, este cauteloso septuagenário, que em nada lembra um inventor maluco, espera pelo retorno triunfante de sua grande ideia. 1) O trem se ampara em um conjunto de rodas sem tração, que desliza sobre os trilhos2) Uma vela instalada debaixo do vagão preenche todo o espaço de um duto de ar 3) Ventiladores industriais sugam o ar da rua e injetam nos dutos 4) O vento infla as velas dentro do duto e coloca o vagão em movimento 5) O controle da velocidade se dá pela intensidade do vento e pela frenagem do vagão 6) Como qualquer trem, o aeromóvel pode andar em qualquer sentido – pelo ar ou pelo vácuo A TRAJETÓRIA DE OSKAR COESTER E O AEROMÓVEL 1955 Aos 17 anos, Oskar Coester ingressa na Escola da Varig para escapar do serviço militar. Depois, torna-se reservista da FAB e funcionário da companhia aérea 1959 Especialista em automação aeronáutica, Coester ouve o chefe, Ruben Berta, reclamar do tempo perdido pelas pessoas no trânsito para chegar aos aeroportos 1969 Coester deixa a Varig e concentra esforços em sua empresa, que já atuava na fabricação de intercomunicadores transistorizados 1977 Enquanto os negócios do Grupo Coester crescem na esteira da indústria naval, o empresário cria protótipos do aeromóvel e a ideia começa a chamar atenção 1980 Uma miniatura do aeromóvel é apresentada na Feira de Hannover, na Alemanha, onde transporta 18 mil pessoas. Mas a empresa de Coester começa e enfrentar dificuldades 1981 O Ministério dos Transportes assina um contrato para a construção de uma linha piloto em Porto Alegre 1983 O governo federal desiste do projeto. A construção da linha na capital gaúcha avança com recursos privados e o aeromóvel faz sua primeira viagem experimental 1986 A Finep libera um financiamento para a conclusão da linha de Porto Alegre, mas a inflação galopante impede a conclusão da obra 1987 Oskar Coester banca com recursos próprios o empréstimo feito com a Finep e conclui o trecho experimental 1989 O aeromóvel é exportado para a Indonésia por US$ 10 milhões. A linha de Jacarta está instalada em um parque, tem 3,2 quilômetros e funciona até hoje Anos 1990 O Grupo Coester foca sua atuação na fabricação de atuadores inteligentes e tem a Petrobras como maior cliente 2004 Depois de anos adormecido, o aeromóvel é resgatado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia – que emite parecer recomendando o fomento da tecnologia 2007 Com apoio da UFRGS e da Finep, a PUCRS inicia a etapa de estudos para a instalação de uma linha dentro de seu campus, em Porto Alegre 2010 O Ministério das Cidades anuncia o investimento de R$ 28,8 milhões em um trecho que ligará o aeroporto de Porto Alegre à estação mais próxima do metrô |
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Trinta e três anos atrás, o empresário Oskar Coester teve uma grande ideia para atenuar o crônico problema de mobilidade urbana das grandes cidades.
A empresa começou com quatro funcionários – e a ajuda da esposa, Elida, com quem Oskar é casado há 46 anos. Mas cresceu rápido graças a um insight típico de inventor. “Eu costumava visitar o Estaleiro Só [em Porto Alegre], que era nosso cliente. Um dia, eu estava lá e ouvi alguém dizer que não poderiam fazer prova de mar com um navio porque faltava um sinalizador. Pedi o catálogo emprestado e fiz um em 24 horas”, diz. Dali em diante, Coester adaptaria vários conceitos de automação aeronáutica – aprendidos na época da Varig – à indústria naval. Sua empresa se tornou pioneira, no Brasil, na fabricação de pilotos automáticos para a marinha. O crescimento veio a reboque. “Foi ‘vapt-vupt’. Quando vi, já estávamos com mais de 400 funcionários”, destaca.
ouvi essa conversa de teorias conspiratórias. Na verdade, acho que o ambiente tecnológico brasileiro simplesmente não era propício à inovação”, resume Marcus Coester. O pai também prefere não entrar no debate. “Não quero julgar ninguém, nem tomar partido de A, B ou C. O tempo mostrará quem tem razão”, diz Oskar. Ele garante que colocou dinheiro do próprio bolso na construção da linha que, hoje, jaz no centro de Porto Alegre. “Não quero que pensem que tem dinheiro público enterrado nesse projeto”, enfatiza.
1) O trem se ampara em um conjunto de rodas sem tração, que desliza sobre os trilhos





