“A Ilusão da Alma”, romance-ensaio de Eduardo Gianetti, tenta compreender como o cérebro, essa espécie de hardware humano, dialoga com os softwares da mente Por Andreas Müller Um professor de Literatura sobe ao palco para apresentar uma conferência sobre a obra de Machado de Assis – a mesmíssima que já apresentara inúmeras vezes. A conferência transcorre como sempre: as mesmas frases, as mesmas pausas e os mesmos gracejos calculados para despertar e prender a atenção da plateia. Até que, subitamente, o professor tem um “branco”. As palavras lhe escapam e a linha de raciocínio se esvai. Por mais que se esforce, ele não consegue retomar a apresentação que tantas vezes já havia feito. Seu cérebro simplesmente não funciona – e aí está o ponto de partida do romance-ensaio A Ilusão da Alma – Biografia de uma Ideia Fixa, de Eduardo Gianetti.
 No desenrolar da história, o professor descobre que a causa para o “branco” não é mental e tampouco deriva do estresse, do cansaço mental ou de qualquer outra razão subjetiva. O motivo é físico, real e objetivo: um tumor cerebral. Uma cirurgia é realizada às pressas e o problema, resolvido. Mas logo outras estranhezas se manifestam. Entre elas, uma inesperada surdez no ouvido esquerdo – tida como sequela da cirurgia –, que não só torna o personagem intolerante a qualquer tipo de ruído como acaba levando-o ao isolamento.
Intercalando a história do professor com breves e bem construídas reflexões filosóficas, Gianetti coloca o leitor diante de uma questão instigante: afinal, quem tem as rédeas do nosso pensamento – o cérebro ou a mente? Aquilo que queremos ou decidimos fazer é fruto do arranjo determinista dos bilhões de neurônios que se comunicam na massa cinzenta do cérebro? Ou é consequência das forças etéreas da “alma”, formada pela massa invisível das nossas lembranças, experiências, paixões e medos?
O próprio professor é que se encarrega de buscar as respostas. Atordoado com os problemas no ouvido, que comprometem sua capacidade de se relacionar com outras pessoas, ele mergulha nos livros tentando compreender como o cérebro, essa espécie de hardware humano, dialoga com os softwares da mente. Sua pesquisa conduz o leitor a duas correntes filosóficas antagônicas: a “fisicalista”, que considera a mente refém do cérebro, e a “mentalista”, que defende o contrário.
Gianetti apresenta os argumentos e resgata grandes autores de ambos os lados. Mas em nenhum momento disfarça a sua predileção particular: tanto ele quanto seu alterego – o professor especialista em Machado de Assis – são “fisicalistas” de carteirinha. No livro, ambos se embrenham nas mais recentes descobertas da neurociência e desembocam numa conclusão inevitável – a de que o livre-arbítrio não passa de uma ilusão. O que nos leva a um beco sem saída: se discordarmos da tese, como iremos saber se não estamos apenas atendendo aos desmandos do cérebro, este tirano?
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