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quarta-feira, 16 de março de 2011
Revelação em Utah

Uma história que mostra como é possível aprender a se reinventar após experiências traumatizantes

Por Fernando Dourado*
De vez em quando me lembro do velho Barbosa, industrial de Belo Horizonte. Sempre que o visitava, chamava-me a atenção a foto em preto e branco de um rapaz cujo olhar lânguido varria o ambiente. Ao pé da moldura de prata de lei, rosas brancas recém-colhidas ornavam o altar de linho e sépia. Eu já ouvira falar que se tratava de um filho há muito falecido. Nunca conversáramos a respeito, mas tinha quem atribuísse ao luto o fato de meu amigo só envergar tons sóbrios. Não que fosse amargo. Afável, ele simplesmente achava que de alguma forma tinha de insinuar a dor. Por que não na vestimenta? Um dia me abriu o coração mineiro.

fatherandson350A família sempre fora bem de vida. Ele próprio herdara uma indústria rentável, casara, tivera duas filhas e o Junior, ali retratado. Pouco depois da formatura deste – dia em que ganhou um carro italiano, uma diretoria e a noiva de sorriso mais mavioso das Alterosas –, o rapaz engavetou atrás de um caminhão. Resultado? Uma gravíssima lesão cerebral. Ato contínuo, diante de um quadro que não evoluía, a junta médica recomendou a remoção em avião fretado para Montpellier, na França. Lá havia um hospital que registrara discretos progressos em casos similares.

O pai de Barbosa, já octogenário, voltou à ativa e liberou filho e nora para acompanhar o tratamento do neto no exterior. Meu amigo viria ao Brasil quando pudesse, mostraria a face aos gerentes e voltaria no outro pé. Importante era que nada faltasse ao enfermo. As coisas assim foram até quando os neurologistas disseram que só havia chance para o rapaz em Berlim. O capítulo francês estava encerrado. Menos mal que a viagem era curta. A estada na Alemanha teve o mérito de ser breve. Pautados pela objetividade germânica, logo lhe disseram que levasse Junior para Riga, na Letônia, então URSS. Só certo professor russo poderia ajudar.

Meu amigo não se apequenou diante da cidade gélida, dona de uma beleza que lhe escapava. Instalou-se numa datcha vizinha ao sanatório e lá estaria até hoje se o filho tivesse mexido uma pálpebra. Mas nada. O rapaz se abraçara a um coma irremovível. Foi então que o catedrático soviético recomendou apostar as fichas em Salt Lake City. Pois se alguém poderia fazer alguma coisa, seria um neurologista americano laureado do Nobel. E lá se foi Barbosa, a esposa esgotada, Junior e um fio de fé para Utah. No Brasil, o velho pai resistia e as filhas, bem ou mal, cresciam. O gringo ruivo disse: se há solução, saiba que ela é cirúrgica; as chances de sucesso, porém, são mínimas.

Meu amigo autorizou a intervenção. Mas o rapaz morreu na mesa. Enquanto dava ao casal a pior das notícias, o notável cientista encurralou Barbosa: “O senhor foi um pai abnegado, quase heróico. Agora, me diga: o que vai fazer da vida?”. Ele engoliu em seco e recitou o script há muito ensaiado: “Volto para Minas, enterro meu filho, rendo meu pai, vendo a fábrica e vou esperar a morte. Para que viver?”. O cientista foi incisivo: “E suas filhas? Não é hora de cuidar dos vivos? Onde está escrito que a vida de um homem vale mais do que a de uma mulher? Em que manual religioso ou científico consta essa patranha?”, perguntou o prêmio Nobel.

Barbosa afagou até o último lampejo de lucidez a foto de Junior. Que o levara a Utah para fazê-lo ver a vida quando ele pensou ter olhos só para a morte


Ficamos um longo momento em silêncio enquanto Barbosa olhava a Pampulha. Foi então que ele arrematou: “Tive que rodar o mundo com meu filho moribundo para que um homem de ciência me incutisse a fé perdida. Gosto de acreditar que foi Junior que me guiou até lá e escolheu pelas mãos de quem iria falecer”. Naquele ano, Barbosa ainda perderia a esposa e o pai. Mas o fato é que retomou a vida. As filhas até estranharam o pai repaginado. Passou a levá-las à escola, ensinou-as a dançar e conheceram o Douro e a Toscana. Por fim, ajudaram-no a soerguer a fábrica quando suas testadas forças arrefeceram. Depois lhe deram netos, bons rebentos da “geração Y”.

A última informação que tive foi que Barbosa afagou até o último lampejo de lucidez a foto de Junior. Que o levara a Utah para fazê-lo ver a vida quando ele pensou ter olhos só para a morte.

*Escritor e consultor de
empresas em São Paulo
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