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Um conceito em construção

Ela invadiu noticiários, virou assunto na escola, está presente em conversas de executivos e deu origem ao conceito de green building. Agora, chegou a vez de a sustentabilidade bater à porta dos escritórios corporativos


Salas com tecnologias que controlam o nível de CO² do ambiente. Portas desenvolvidas com a resina do bagaço da cana-de-açúcar ou da casca do coco. Persianas que sobem e descem automaticamente, obedecendo ao tom da luz natural. Divisórias de fórmica que incentivam a criatividade e a comunicação de funcionários, servindo também de lousa. Definitivamente, a sustentabilidade – e seu famoso tripé ambiental, social e econômico –, que já havia invadido diversos segmentos empresariais, entrou também no dia-a-dia dos escritórios corporativos.

O conceito da sustentabilidade, tão propagado em diversos setores da economia, ainda está dando os seus primeiros passos na construção e, principalmente, na arquitetura corporativa. Mas é um caminho irreversível. Se quisermos perpetuar não só o planeta, mas também os nossos negócios, precisaremos avançar”, resume Pedro Simch, considerado uma referência em arquitetura corporativa, sócio de um dos mais tradicionais escritórios de Porto Alegre (RS) e responsável por assinar obras do Grupo Gerdau, do Centro de Convenções da Fiergs, além das novas sedes do Grupo Vonpar e CIEE-RS.

 

CONSTRUÇÃO VERDE

De fato, como veremos nas próximas páginas, trata-se mesmo de um conceito irreversível. E que já vem provocando uma mudança, muitas vezes silenciosa, na forma que escritórios de arquitetura, construtoras e fornecedores vêm trabalhando. É o caso da fabricante de móveis Novara, localizada em Caxias do Sul, na Serra gaúcha. Preocupada com o futuro do planeta, a empresa faz parte da cadeia de custódia, sistema no qual todas as empresas participantes utilizam produtos ecologicamente corretos. “Nossa adesão à cadeia fez com que os fornecedores também se adequassem às exigências. Acabou se tornando uma lei de mercado”, destaca Rudimar Grillo, diretor da Novara.


Quem também tem esse cuidado é a Cavaletti, fábrica de cadeiras de Erechim (RS). Além de usar matérias-primas certificadas, todos os resíduos gerados na fábrica são tratados. De quebra, a empresa mantém uma área de reflorestamento com 3,5 mil árvores – e faz o reaproveitamento de 14 mil litros de água por dia. Todos os produtos da Cavaletti são ecologicamente corretos. Uma linha, porém, se destaca: trata-se da Viva Eco. Feito principalmente de plástico e aço, o produto é 98% reciclável. “O único componente que não pode ser reaproveitado é a microcamada de tinta que cobre a cadeira”, explica Francisco César Groch, diretor de Marketing da empresa. Lá, o tema da sustentabilidade é tratado de forma ampla – das grandes ações, como o tratamento dos resíduos, aos pequenos gestos, como presentear os funcionários com uma caneca de cerâmica, o que acaba desestimulando o uso de copos plásticos.


Especialista em empreendimentos corporativos, Pedro Simch garante que, apesar do interesse cada vez maior pela sustentabilidade, ainda são poucos os empresários que aceitam pagar mais pela consciência verde. “Infelizmente nem todos investem no conceito. Temos um compromisso de trabalhar para mudar esse horizonte”.

Com mais de 50 anos de atuação, Pedro Simch é o grande nome da arquitetura corporativa no Rio Grande do Sul. Responsável por obras como as do complexo da Gerdau, do Centro de Convenções da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul, da nova sede da Vonpar (foto) e do CIEE-RS, Simch foi o curador do projeto O Escritório de AMANHÃ
 
Com mais de 50 anos de atuação, Pedro Simch é o grande nome da arquitetura corporativa no Rio Grande do Sul. Responsável por obras como as do complexo da Gerdau, do Centro de Convenções da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul, da nova sede da Vonpar (foto) e do CIEE-RS, Simch foi o curador do projeto O Escritório de AMANHÃ  

Apesar de grande parte das construtoras estar apta a executar esse tipo de obra, muitas ainda encontram outra barreira: a falta de informações sobre os produtos. “Boa parte dos materiais disponíveis no mercado brasileiro ainda não traz essa especificação na embalagem. Diferentemente de outros países, onde existem selos que indicam o quão sustentáveis são”, conta Pedro Silber, diretor-presidente da Tedesco, construtora responsável por erguer o SAP Labs, laboratório da companhia mundial de softwares no Parque Tecnológico da Unisinos, em São Leopoldo (RS).
Para colocar o prédio da empresa alemã de pé – um forte concorrente a ser o primeiro empreendimento do Estado com a certificação LEED (leia mais abaixo) –, a Tedesco teve de entrar em contato com os fornecedores e fabricantes para saber os dados de emissão de composto volátil ou de conteúdo reciclável dos materiais, por exemplo. Outra exigência, para a certificação, é pensar na operação do prédio. Foi acionada a Sapotec, companhia que atua no tratamento de resíduos sólidos e na remediação dos solos dos terrenos, para fazer a gestão da estação de tratamento da SAP.

AS CERTIFICAÇÕES SUSTENTÁVEIS

   
SAP Labs, no Tecnosinos, em São Leopoldo: candidato a ser o primeiro prédio com certificação LEED no Estado  
Buscar uma certificação custa caro, pois materiais com essa conotação têm um custo mais elevado. Por isso, a questão ainda divide opiniões. A certificação reconhecida em todo o mundo se chama LEED (sigla em inglês para Leadership in Energy and Environmental Design), criada pelo Green Building Council, presente em mais de 20 países. No Brasil, existem apenas 15 prédios certificados com esse selo – concentrados nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná –, mas 117 estão no processo de certificação, que é longo. Outra certificação já concretizada no Brasil é a AQUA (Alta Qualidade Ambiental). Concedida pela Fundação Vanzolini, instituição privada e sem fins lucrativos, a AQUA é uma adaptação para o Brasil da Démarche HQE, certificação já consolidada na França.


Quando busca-se uma certificação, a construtora deve ter uma visão diferenciada sobre a pós-utilização do prédio. Depois de concluído, o empreendimento precisa de um rigoroso controle, que garanta que aquilo que foi projetado realmente vai funcionar”, avalia Thomas Berger, diretor-geral da Sapotec. “Quem investe em produtos e técnicas sustentáveis é recompensado não só com os benefícios ao meio ambiente, mas com a redução dos custos operacionais e com o aumento da produtividade dos colaboradores”, completa José Rocco, do escritório Arquitetônica, parceiro de Pedro Simch em diversos projetos – casos das novas sedes do Grupo Vonpar e do CIEE-RS.

 

A TEORIA NA PRÁTICA

Ao longo desta leitura, você vai descobrir que essa já não é a realidade – e muito menos a tendência para os próximos anos. As novas necessidades do século 21 fizeram com que essa realidade mudasse (e muito).
 
Parceiro de Pedro Simch, o escritório Arquitetônica tem como sócios os arquitetos José Rocco (na imagem, acompanhando as obras do novo prédio do Grupo Vonpar), Milton Cunha, Walter Schindel e Ricardo Ruschel. Com foco na área corporativa, a Arquitetônica vem tendo uma participação crescente nos setores industrial e residencial  

Do equilíbrio entre a melhor relação custo e benefício ao aumento da produtividade da equipe, a preocupação com o bem-estar dos colaboradores, a criatividade do projeto, a funcionalidade dos espaços e, claro, o respeito ao meio ambiente fazem cada vez mais parte da agenda dos profissionais responsáveis por desenvolver, fornecer equipamentos e executar esses projetos corporativos. Os próximos capítulos mostrarão os produtos e as experiências que já estão em uso no mercado.

 

 

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