Cenários de Amanhã
Revista Amanhã
Dique aquece a economia


Estrutura para a construção de plataformas de petróleo movimenta recursos superiores a US$ 2 bilhões em Rio Grande

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um imenso buraco, com 14 metros de profundidade, 530 metros de largura e 350 metros de comprimento, é o epicentro do desenvolvimento da indústria naval em Rio Grande. Construído pela WTorre, o Dique Seco é o símbolo do polo naval gaúcho que compete com outros já formados ou em formação localizados em municípios como Suape (PE), São Roque do Paraguaçu (BA) e Itajaí (SC), além de cidades do litoral carioca com forte tradição em estaleiros.



A rigor, o dique é um canteiro de obras ideal para a montagem de plataformas de petróleo, sejam elas semissubmersíveis ou FPSO (sobre cascos de navio). A exemplo de similares implantados em grandes estaleiros da Ásia, o dique seco de Rio Grande pode comportar trabalhos em duas estruturas ao mesmo tempo. Seu segredo é ser um espaço para montagem industrial que pode ou não estar inundado. Quando a comporta é aberta para a Lagoa dos Patos, ele se enche de água e permite a saída ou entrada de plataformas. O passo seguinte é drená-lo, deixando-o seco para que os módulos sejam incorporados às bases. Para auxiliar nos trabalhos de montagem, sobre o dique há um pórtico-guindaste móvel com 90 metros de altura e capacidade de erguer 600 toneladas.


O Dique Seco deve ficar pronto ainda no primeiro semestre, mas as atividades no Estaleiro Rio Grande 1 (ERG1) – uma área de 440 mil metros quadrados que conta com oficinas e outros espaços para o desenvolvimento da indústria naval – já começaram. Em março, havia 650 trabalhadores atuando na construção de módulos para a P-55. Os operários atuam para o consórcio Quip, que venceu a licitação da Petrobras para desenvolver parte da estrutura e integrar a base à parte superior da plataforma. O valor total do projeto é de US$ 1,6 bilhão – desse montante, a parte da Quip, executada no ERG1, é de US$ 857 milhões. A média de trabalhadores envolvidos nessa empreitada deve ser de 1,2 mil, com a entrega da estrutura para a estatal projetada para o final de 2011. Para dar suporte às atividades, o consórcio já montou sua infraestrutura administrativa, de suporte e de alimentação dos trabalhadores lá mesmo, no sítio.


O ERG1 está sendo construído pela WTorre, mas, por dez anos, ficará arrendado para a Petrobras. A estatal pagou cerca de R$ 850 milhões antecipados à construtora, que investiu o valor nas obras. As fornecedoras já estão no local: a Engevix construirá oito cascos de navio na área do ERG1 e, pela encomenda, a Petrobras pagará US$ 4 bilhões à empresa. A expectativa é de que, no futuro, as plataformas possam ser montadas sobre cascos de navios em Rio Grande mesmo. A própria WTorre busca se estruturar para entrar nesse mercado e disputar as encomendas da Petrobras ou fornecer para as empresas que vencerem as concorrências. Por isso, está construindo o ERG2 em uma área com 250 mil metros quadrados que fica ao lado do ERG1.



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A WTorre obteve R$ 243 milhões de financiamento do Fundo de Marinha Mercante e aguarda a liberação dos recursos para iniciar esse segundo estaleiro, que deve ampliar a capacidade de processamento de aço do complexo de 1,5 milhão para 6 milhões de toneladas mensais. Seus executivos esperam que a operação possa começar dentro de um ano e meio e que o setor se mantenha aquecido por décadas. “A demanda por construção offshore tem uma vida de mais de 20 anos. Ainda tem muita coisa para ser descoberta e muita coisa para ser fabricada”, afirma José Hagge, diretor do estaleiro da WTorre.




A operação do ERG2 deve ficar a cargo da própria construtora, apesar de ser o primeiro projeto da empresa no ramo. Desde o início, a intenção era fazer uma parceria com algum estaleiro internacional. A empresa chegou mesmo a fechar acordo com um grupo asiático, mas na última hora os futuros sócios desistiram.


Complementando a estrutura do ERG1 e do ERG2, a WTorre também aposta em uma terceira área, a ERG3, na qual tem previsão para implantar a infraestrutura para um condomínio de empresas. Ali se instalariam companhias do setor metalúrgico e de outros ramos que fornecem para a área naval. Além da estrutura montada para dar suporte às instalações industriais, a área tem como vantagem ficar em frente ao Dique-Seco, facilitando a logística e aumentando a competitividade dos condôminos. Hagge não revela quais empresas devem ocupar lotes no empreendimento, mas afirma que “os fornecedores fundamentais estarão ali”.


No portfólio da WTorre havia um quarto projeto em Rio Grande: a construção de um condomínio de 3 mil casas na praia do Cassino, balneário de Rio Grande, para dar conta do fluxo de forasteiros que chegarão ao município atraídos pelo polo naval. Esse fluxo causou quase um colapso no mercado imobiliário rio-grandino durante a montagem da P-53: a chegada de novos moradores inflacionou o valor de aluguéis e vendas, com um evidente prejuízo para os moradores que pagam aluguel. As moradias projetadas pela WTorre seriam construídas em tempo recorde devido a uma tecnologia de pré-moldados desenvolvida pela empresa. O projeto, no entanto, foi colocado de lado a partir do anúncio do programa Minha Casa, Minha Vida em 2009. Devido aos recursos proporcionados pelo programa habitacional da União, a WTorre decidiu priorizar a disputa por um contrato da prefeitura de Rio Grande para a construção de 2,3 mil unidades habitacionais populares – o projeto ainda está em fase delicitação.


Será, dessa forma,  mais uma frente de trabalho em um ambiente altamente especializado – ainda mais quando se fala em construção naval. A montagem da P-53, primeira plataforma feita em Rio Grande pela Quip, entre 2007 e 2008, foi uma demonstração do quanto essa indústria necessita mão de obra especializada. Dos trabalhadores que atuaram diretamente no projeto, 42% eram de fora do Estado, informa o consórcio. Por outro lado, muitos gaúchos que aprenderam com a empreitada aderiram à vida nômade e passaram a correr o Brasil sempre em busca de projetos maiores, lembra Luis Müller, chefe da Divisão de Apoio ao Trabalhador da Superintendência Regional do Trabalho. “Muitos trabalhadores que migraram voltam agora qualificados e bem mais experientes para seus mercados de origem”, confirma o secretário de Assuntos Extraordinários de Rio Grande, Gilberto Pinho.


De acordo com o diretor de suporte corporativo da Quip, Marcos Reis, se o projeto da P-55 tivesse sucedido imediatamente o da P-53, a migração não teria ocorrido e o investimento para captar mão de obra local e reciclar as habilidades dos que atuaram na primeira plataforma poderia ser reduzido. Reis informa que a alternativa do consórcio é complementar a formação de egressos dos cursos técnicos que existem na região. Mas ele acredita que, com o tempo, se formará no Estado uma massa de trabalhadores especializados em construção naval. “A P-53 trabalhou com 58% de mão de obra local. Com a P-55, nosso trabalho de formação e fixação de gente local teve de recomeçar. A partir da P-63, esperamos trabalhar com um índice bem superior de trabalhadores da própria região”, acredita o executivo. A montagem da P-63, cujo contrato atinge US$ 1,2 bilhão, deve contar com 1,5 mil trabalhadores no pico e está projetada para se encerrar na metade de 2013. As atividades industriais serão desenvolvidas na mesma área em que a Quip desenvolveu o projeto da P-53 e que agora está sendo preparada para a empreitada.


Trabalhadores têm oportunidades garantidas


Para dar conta do desafio de formar trabalhadores locais, a Petrobras treinou, desde o projeto da P-53, 2 mil pessoas em cursos técnicos na região por meio do Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás. Já o Plano Setorial de Qualificação – Polo Naval, controlado pelo Ministério do Trabalho e executado pelo Senai, capacitou quase mil trabalhadores e deve abrir mais 500 vagas. Em outra frente, a fim de suprir a demanda para funções superiores exigidas pela indústria que surge na zona sul, a Fundação Universidade de Rio Grande (Furg) abriu neste ano dois novos cursos: Engenharia Mecânica Naval e Engenharia Civil, Costeira e Portuária, cada um com 25 vagas neste primeiro semestre.


Por enquanto, os formados nos cursos técnicos de qualificação têm oportunidades garantidas para buscar ocupação nos projetos da P-55, da P-63 e dos oito cascos em construção. Mas todo o investimento que está sendo realizado pelas empresas em Rio Grande é para que o polo naval vá muito além. Isso significa disputar a montagem das plataformas que serão erguidas sobre os navios a serem construídos no ERG1 e as demais encomendas da Petrobras.


Além da WTorre e da Quip, pelo menos outro grande estaleiro deve se instalar em Rio Grande de olho nos contratos da estatal. É o Wilson, Sons, cujo investimento projetado no município é de US$ 50 milhões, segundo a prefeitura da cidade. As obras devem começar ainda neste ano. Localizado em uma área ao sul do Dique Seco, bem próxima à Lagoa dos Patos, o empreendimento deve gerar em sua operação 400 empregos diretos e 1,2 mil indiretos.

 

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