SERÁ PRECISO RODAR EM OUTRO SOFTWARE

O EVENTO QUE ENCERRA A SÉRIE CENÁRIOS DE AMANHÃ – RIO GRANDE EM REDE DEMONSTRA QUE A TECNOLOGIA TERÁ PAPEL CADA VEZ MAIS PREPONDERANTE EM DECISÕES ESTRATÉGICAS E NO DIA A DIA DOS NEGÓCIOS

A nona edição do relatório anual Medindo a Sociedade da Informação, lançado pela União Internacional das Telecomunicações (UIT), a agência da ONU especializada na área de TI, concluiu que avanços na internet, computação em nuvem e inteligência artificial vão permitir enormes inovações e transformar de forma fundamental negócios, governos e sociedades, servindo para melhorar os meios de subsistência em todo o mundo. Segundo o documento, essa “revolução vai se desenrolar nas próximas décadas com oportunidades, desafios e implicações ainda não plenamente conhecidos”.Para colher esses benefícios, o relatório defende que os países terão de “adotar políticas que sejam propícias à experimentação e inovação, ao mesmo tempo que mitiguem possíveis riscos à segurança, privacidade e emprego”.

O relatório analítico da UIT sobre acesso e utilização das TICs informa que a competitividade do mercado de telecomunicações no Brasil está em expansão. Ele destaca que o país é um dos maiores mercados de telecomunicações nas Américas e que existe competição de todos os serviços nas grandes cidades. Outro ponto importante é que tanto o governo quanto as empresas privadas investem no setor. Foram temas com essa envergadura que nortearam o fórum Inteligência Artificial: a Nova Fronteira, no encerramento da série Cenários de AMANHÃ – Rio Grande em Rede, que teve como palco a sede da Companhia de Processamento de Dados do Rio Grande do Sul (Procergs), em Porto Alegre. O conjunto de oito fascículos, que discutiu como a tecnologia está transformando vários segmentos de negócios no Estado, contou com o apoio técnico do Gartner Group, empresa líder mundial em pesquisa e consultoria na área da tecnologia da informação. Durante a plenária, que foi conduzida por Eugênio Esber, diretor de Redação de AMANHÃ, foram apresentados os cases de uso de tecnologia da Procergs, da fabricante de máquinas agrícolas Stara, de Não-Me-Toque, e do Grupo RBS.

“A internet das coisas, por exemplo, já é praticamente uma realidade para a geração dos millen-nials. Isso é um pouco mais difícil de absorver para nós, que passamos da era do analógico para o digital, mas teremos de ultrapassar essa fronteira da revolução”, avalia Paula Castro, coordenadora de TI da Yara Brasil Fertilizantes. Confira, a seguir, as reportagens sobre os cases apresentados assim como os temas debatidos na plenária.

A TECNOLOGIA TRANSFORMANDO NEGÓCIOS

Rio Grande em Rede reuniu empresários, universidades e o poder público para debater as mudanças que a TI demandará na sociedade

AS MUITAS FACES DA REVOLUÇÃO DIGITAL

A TRANSFORMAÇÃO DIGITAL OFERECE INÚMERAS FERRAMENTAS PARA POTENCIALIZAR RESULTADOS, MAS TAMBÉM ENORMES DESAFIOS PARA MODELOS CONSOLIDADOS HÁ DÉCADAS

Com 45 anos de experiência no ramo de TI, Antonio Ramos Gomes, presidente da Companhia de Processamento de Dados do Rio Grande do Sul (Procergs), costuma dizer que, enquanto boa parte dos cidadãos já é digital, o governo ainda é analógico. Porém, no que depender da filosofia empregada pela empresa de economia mista, que presta serviços de informática para o governo gaúcho, esse cenário está em vias de ser alterado. “O principal desafio, hoje, é prestar serviço ao cidadão que deseja ter tudo na palma da mão”, enfatiza Gomes.

O Rio Grande do Sul já conta com algumas iniciativas nesse sentido. A maior delas, porém, é invisível ao cidadão comum. Um dos cases de maior alcance da Procergs é o One, sigla de Operador Nacional dos Estados. Solução criada em conjunto com a Secretaria da Fazenda, o sistema é utilizado para fiscalizar a movimentação de cargas entre 14 diferentes unidades federativas no Brasil. Um caminhão recebe uma etiqueta que opera por radiofrequência, facilmente identificada por antenas. Assim, quando o veículo passa por uma delas, o registro da placa é captado e transmitido para o One, que gera a informação nos devidos documentos fiscais e encaminha para os postos de fiscalização todos os dados referentes ao que está sendo transportado naquele veículo. Isso permite ao posto de fiscalização realizar toda a análise e a avaliação dos documentos. Ou seja, o software atua como um grande concentrador de leituras e registros de passagem. “A Receita daqui faz toda a fiscalização para esses outros Estados. Se vendemos arroz pra Joinville, o caminhão tem de cruzar o Mampituba. E o One saberá se ele fez a travessia ou não”, exemplifica Gomes.

A Procergs, que recebe consultoria do Gartner Group, também quer ser agente da mudança da concepção de que só é possível atender solicitações dos cidadãos no balcão. A comunicação via smartphones é um desses caminhos. A Farmácia do Estado avisa, por mensagens de texto para o celular, se determinado remédio já está disponível para retirada.

Outra melhoria para o atendimento do cidadão é o aplicativo Consultas Policiais, uma parceria entre a Procergs e a Secretaria da Segurança Pública (SSP). A solução possibilita, por exemplo, que os usuários consultem placas de veículos, históricos de ocorrências criminais através do RG e ocorrências de roubo de veículos. Com estas facilidades, o trabalho dos agentes que atuam com abordagens ganha qualificação e rapidez na obtenção de dados. Lançado em janeiro de 2017, o aplicativo, de uso restrito, conta com cerca de 4 mil usuários – entre eles agentes da Polícia Rodoviária Federal, Polícia Civil e Brigada Militar. A ferramenta fez com que a estatal vencesse a categoria e-Administração Pública no Prêmio e-Gov (Excelência em Governo Eletrônico), na 45ª edição do Seminário Nacional de TIC para a Gestão Pública (Secop), realizado em Pernambuco.

Na visão de Gomes, o maior salto tecnológico no setor público ainda está por vir, com a futura adoção da inteligência artificial. Da mesma maneira que algumas empresas tiveram de criar um assistente virtual – como a Luiza, da rede de lojas de mesmo nome, ou a Cortana, da norte-americana Microsoft –, os governos terão de tomar esse caminho. “O cidadão não tem a obrigação de saber se o município, o Estado ou a União é o órgão competente para oferecer determinado serviço. Um assistente virtual poderá estar munido de todas as regras e procedimentos para manter diálogo com o usuário. Basta que seja qualquer dispositivo que possa conversar de forma inteligente e interagir”, conjectura.

Porém, algumas barreiras complexas ainda precisarão ser vencidas na relação entre governo e tecnologia. A primeira delas é a identificação digital das pessoas, solução que já está sendo buscada pelos órgãos públicos. A outra é fazer com que a inovação não seja tolhida por marcos regulatórios que carecem de atualização. A terceira, e talvez a mais importante delas, é o modelo de negócio. “Como vou cobrar uma informação de alguém que já paga impostos? Talvez a saída seja trabalhar como fazem os aplicativos de táxi, onde alguns centavos são pagos à operadora que permitiu que a chamada do usuário circulasse na internet e chegasse até o motorista. Há de se discutir uma fórmula para financiar certas demandas”, evidencia Ramos. Não sem razão, o Estado iniciou um processo que tem por alvo a simplificação dos serviços públicos, tendo em vista a diminuição da burocracia. Temas desafiadores para serem colocadas à mesa – a exemplo deste – não faltarão.

Precisão no campo

As possibilidades de automatização e conexões que as mais recentes tecnologias trouxeram – tanto aos setores produtivos quanto na ponta consumidora – despertam curiosidade, paixões e alguma inquietação. Para quem vê suas chances de crescimento potencializadas pelas novidades, as notícias são animadoras. Porém, em alguns casos, posições consolidadas e modelos de negócio blindados há décadas foram diretamente afetados pelas novas tendências, obrigando muita gente a abandonar sua zona de conforto em busca de soluções. A Stara, de Não-Me-Toque, está entre os que remaram de forma pioneira para surfar nessa onda positiva. Em um Estado no qual o setor agrícola possui protagonismo histórico, os limites de crescimento para a fronteira do agronegócio pareciam ter sido esgotados. No Brasil, cuja economia também é amplamente vinculada ao setor, a expansão das áreas produtivas continua, mas em ambos os casos, a prioridade foi redefinida: produzir muito mais nas áreas ocupadas pelas lavouras já existentes.

Responsável por quase um quarto do PIB nacional, o agronegócio brasileiro evoluiu muito nas últimas décadas. Sua vedete é a soja, que passou de uma produção de 220 mil toneladas na década de 1960, para 32,8 milhões de toneladas quarenta anos depois. Porém, mais impressionantes são os números alcançados a partir da virada do milênio – marco para a implantação e popularização da chamada agricultura de precisão. Em 2010, foram 75,3 milhões de toneladas produzidas, número que saltou para 95,6 milhões de toneladas apenas cinco anos depois. São volumes que colocam o Brasil em briga permanente com os Estados Unidos pela liderança na produção mundial.

Rafael Costa, gerente de Tecnologia da Stara, usa os números para demonstrar de maneira clara até onde a agricultura de precisão e a Internet das Coisas podem impactar no agronegócio. “Em vez de aplicar a mesma quantia de fertilizante em toda a lavoura, é feito um mapeamento das áreas mais eficientes. Então, eu aplico somente onde precisa. Isso já traz uma economia enorme de insumos para o agricultor” explica ele, dando o exemplo mais básico dos conceitos de agricultura de precisão. Mas as possibilidades são infinitas – e só crescem.

No início da aplicação desses conceitos, o maquinário era importado, e sua operação muito complexa. Foi quando a Stara aproveitou a oportunidade de se associar com universidades e outras empresas em torno do Projeto Aquarius, que concebeu lavouras modelo, onde se aplicava o “estado da arte” da agricultura de precisão. “Tudo o que os agrônomos do projeto pesquisavam a gente traduzia na máquina. E as lavouras, em um período de uma década, aumentaram em 40% sua produtividade. Em todos os anos, as lavouras do modelo tiveram produtividade maior do que as médias nacional e estadual”, relembra.

Além de disseminar a agricultura de precisão, a Stara via no Projeto Aquarius a possibilidade de reduzir o custo dos equipamentos. Na época, o maquinário importado chegava a custar US$ 120 mil. Anos depois, desenvolvido com tecnologia própria, o custo do primeiro computador de bordo da Stara – com interface simplificada em português – necessitava de um investimento de US$ 7,5 mil. Um exemplo de plantadeira que a empresa desenvolveu possui sua parte mecânica articulada e é capaz de mapear terrenos com desníveis. Com sensores de sementes instalados, qualquer interrupção no fluxo de plantio é avisada ao operador na cabine. Assim, o equipamento otimiza a distribuição das sementes durante o plantio.

Uma parceria com a Tecnopuc para aprimorar o algoritmo do software fez com que, entre outras funções, o computador de bordo possa garantir uma precisão de dois centímetros. Uma tecnologia mais recente permite o “desligamento linha a linha”, ou seja, a interrupção gradativa do plantio em pequenas áreas e intersecções já plantadas no trajeto da máquina, trazendo uma economia de até 4% no volume de sementes. “Todos os dados dos sensores instalados na máquina são centralizados no computador de bordo e enviados para nuvem, por wi-fi ou GPRS, conforme a conectividade do local. Desde 2015 já usamos Internet das Coisas nas máquinas”, explica Costa.

O ritmo das inovações na Stara tem relação com a união entre os departamentos de tecnologia e desenvolvimento. “Há quatro anos, a TI e a engenharia de produtos praticamente se misturam na Stara. São 202 pessoas e nosso índice de renovação fez com que, em 2016, 40% do faturamento viesse de produtos lançados nos últimos três anos”, comemora o gestor, prevendo aumento desse índice ainda em 2017. Outro fator importante, lembra Rafael, foi a decisão, tomada pela empresa em 2013, de implantar os sistemas de gestão da SAP. A proximidade com o laboratório da SAP em São Leopoldo favoreceu a consolidação de uma parceria para um projeto de inovação, apresentada no Agrishow de Ribeirão Preto. Os produtores com máquinas da Stara podiam acessar, via smartphone, todas suas informações em tempo real. A apresentação da novidade fez chegar à Stara, de imediato, demanda por um leque ainda mais variado de soluções. “Quando mostramos toda a informação das máquinas, os produtores gostaram, aceitaram as ideias, mas queriam que tudo já estivesse integrado ao sistema de gestão para que, enquanto estivessem plantando, o sistema descontasse do estoque de sementes, acionasse compra de mais insumos e assim por diante”, destaca Costa. Isso levou a Stara a acionar a SAP, que convidou a empresa para participar do InnoWeeks, projeto de inovação. Resultado: com a integração entre pessoal da Stara, SAP e estudantes da Unisinos, o desafio foi resolvido em 26 dias – o que fez deste case o vencedor do InnoWeeks. A relação construída e os resultados alcançados fizeram a empresa gaúcha ser reconhecida pela multinacional alemã como o Melhor Cliente Referência da marca no país.

Um dos objetivos da Stara, em conjunto com a SAP, é conectar as máquinas com o ERP instalado nas fazendas [a sigla significa Enterprise Resources Planning, software que integra todos os dados e processos de uma organização em um único sistema]. Desse modo, é possível gerenciar a colheita em tempo real, por exemplo. O prêmio reconhece o DNA inovador da Stara, que vem ao longo dos anos inovando em produtos, processos e tecnologias. “Hoje nosso principal case de inovação está relacionado à Internet das Coisas. Mas isso é só um caminho para inovarmos. Daqui a dez anos, talvez não se fale mais em Internet das Coisas, mas haverá outro tipo de tecnologia inovadora e nós continuaremos inovando, pois isso faz parte da Stara”, projeta Costa.

Desafio aceito

A indústria da mídia e do conteúdo foi uma das primeiras a sentir os efeitos da revolução digital e das possibilidades cada vez mais numerosas e surpreendentes no uso da rede pelos seus consumidores. Talvez nenhum outro setor tenha seu modelo de negócio tão desafiado. “O jornal e as comunicações, historicamente, dominaram a cadeia de produção e distribuição. Diziam o que é notícia, produziam e distribuíam. Esse mundo se modificou, e agora qualquer um pode, imediatamente, colocar uma informação nas redes sociais. Quem era produtor de conteúdo profissional tem outro tipo de concorrente”, resume Camila Leães, gerente executiva de mídia digital e desenvolvimento digital do Grupo RBS.

A avassaladora expansão do uso da internet nas últimas duas décadas coloca, hoje, mais da metade dos cerca de 200 milhões de habitantes do Brasil em posição de consumidores de conteúdo pela rede. Destes, 50% acessam a internet todos os dias, e 35% exclusivamente via smartphone. O uso dos celulares, inclusive, faz com que boa parte do consumo de conteúdo ocorra enquanto as pessoas estão em deslocamento. Não existem mais momentos de experiência on-line: a conexão é contínua. A grande transformação que o mundo da tecnologia trouxe provocou revolução similar no interior do Grupo RBS e na configuração de duas de suas principais marcas: o jornal Zero Hora e a Rádio Gaúcha, que recentemente se uniram no ambiente digital sob o nome de GaúchaZH. Segundo Camila, o grupo passou a encarar os “brutal facts”, os desafios que a realidade trazia ao modelo consolidado há décadas. “Somos líderes ainda em todas as plataformas de negócios de comunicação e começamos a enxergar que, aquilo que por muito tempo foi a nossa força – chegar no anunciante com ofertas de televisão, rádio e do jornal – hoje tem uma concorrência muito grande”, referindo-se a gigantes como Facebook e Google, que monopolizam grande parte do tempo on-line dos usuários de internet. Outra parte do tempo que o público utiliza nas redes precisa ser disputado com aplicativos das mais diversas finalidades.

“Nosso cenário era muito desafiador. Na banca de jornal, eram dois ou três concorrentes. Em um browser de internet, tenho acesso à produção de conteúdo do jeito que eu quiser, do nicho que eu quiser, em qualquer lugar”, explica Camila. “Olhamos para isso, e entendemos que Gaúcha e Zero Hora, eventualmente, num ambiente off-line, se favoreciam dessa separação. Mas no ambiente digital, notamos que 80% do público de Gaúcha já estava contido dentro de Zero Hora. Isso não facilitava a vida das pessoas”, lembra.

Ao colocar no centro dos questionamentos o usuário – termo pelo qual o público leitor e ouvinte passou a ser referido –, o grupo percebeu que as pessoas se confundiam no processo de busca das informações, e então unificou as plataformas, criando um espaço único, o GaúchaZH. “Modificamos um processo-chave, que mexe com as duas marcas mais importantes do jornalismo pra gente, com base no retorno do mercado”, lembra Camila. É claro, houve resistência. Mas tudo foi sustentado com dados e informações técnicas. “Nenhuma decisão foi no ‘achismo’, no gosto de fulano ou beltrano. Testamos absolutamente tudo, com recursos diferentes. Ainda é um projeto bastante ousado do ponto de vista estratégico, justamente por mexer com essas marcas tão queridas, interna e externamente”, assinala Camila sobre a mudança que busca – mais que expandir fronteiras – fazer com que um negócio reencontre o seu lugar.

A NOVA EMPRESA

É FATO: PRATICAMENTE TODOS OS NEGÓCIOS SERÃO ALTERADOS PELA TECNOLOGIA. A SAÍDA SERÁ SE ADAPTAR – OU DESAPARECER

De uma forma ou de outra, todos os segmentos de negócio serão atingidos pela tecnologia – e terão de se adaptar (ou mudar) para permanecer no jogo. “Quando começamos a vivenciar a tecnologia, percebemos o surgimento de novos modelos de negócios: em alguns, ela ajudou a criar nichos específicos e em outros complementou algo que já existia”, diagnostica Fabio Rios, CEO da Plugar. Ele exemplifica o fato lembrando que, ainda nas décadas de 1980 e 1990, Microsoft e Oracle lançaram produtos que criaram novos mercados. Diferentes são os casos de Google e Facebook, que utilizaram tecnologias existentes para criar uma nova forma de comunicação – e publicidade – em seus canais.

Porém, mesmo o que salta aos olhos – ou deveria – ainda segue sendo um enigma para muitos empreendedores. Na opinião do consultor Paulo Kendzerski, presidente da WBI On Life, empresas ainda não entenderam como a internet impacta os negócios. “A linguagem tecnológica tem de conseguir se comunicar com esse público”, alerta Kendzerski, que desenvolveu uma pesquisa sobre a maturidade digital de empresas gaúchas ligadas a comércio e serviços. Segundo ele, é comum o empresário confundir a expressão “transformação digital” com algo relacionado ao site de sua companhia, e não a uma mudança nos processos de negócios. Nenhuma grife alcançou o nível excepcional de maturidade digital, de acordo com o estudo da WBI. A Panvel e a Lojas Renner foram as únicas a alcançar um padrão digital avaliado como bom.

Mesmo que não queiram, as empresas são tragadas pela tecnologia – e, ironicamente, pela profusão de dados que elas mesmas produzem. Na visão de Dimitri Souza, gerente de P&D de Software da AEL Sistemas, atualmente há capacidade para coletar muita informação, e gerar dados que serão úteis para os negócios. “O big data pode revolucionar o setor industrial nos próximos anos”, projeta. Tanto é verdade, que a estimativa feita por Souza ganhou números reais e impactantes em uma pesquisa promovida pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). A digitalização do processo produtivo industrial deve atingir 21,8% das empresas brasileiras em uma década. Atualmente, o percentual é de 1,6%. A sondagem, que faz parte do Projeto Indústria 2027, avalia a expectativa de 759 grandes e médias indústrias em relação à adoção de tecnologias 4.0. Os números se referem ao nível mais elevado de conexão da produção – Geração 4 –, com tecnologias da informação e comunicação (TIC) integradas, fábricas conectadas e processos inteligentes. De acordo com a CNI, o país passará os próximos dez anos em um processo de transformação industrial muito intenso, com as empresas buscando trazer tecnologia disruptiva e implementando essas práticas dentro do seu modo de produção. Na opinião de Reges Bronzatti, diretor comercial da Processor, se todas as companhias passarem a ter em seu DNA tecnologia, terão de repensar o modo pelo qual gerenciam seus processos. “A lógica interna das organizações terá de ser completamente diferente quanto às pessoas, o perfil, a governança...”, enumera. “O Rio Grande do Sul é extremamente conservador, pois assistimos de camarote as mudanças acontecerem e nossos esforços em prol da inovação não acompanham o ritmo”, alerta. Uma das grandes dúvidas, também trazidas pelo alto grau de informatização de todo e qualquer negócio, é a sobrevivência dos empregos – pelo menos aqueles que hoje conhecemos. A consultoria Ernst Young estima que um terço dos empregos serão extintos até 2025 – a maior parte deles substituídos por automação. “Todos os empregos que envolvem ações repetitivas vão ser substituídos, pois as máquinas terão a possibilidade de aprender seguindo padrões estabelecidos”, prevê Fernando Dotti, diretor da Faculdade de Informática da PUCRS.

Porém, um estudo que a IBM encomendou ao Massachusetts Institute of Technology sobre o impacto específico da inteligência artificial nos empregos chegou à conclusão bem diversa. O MIT prevê que apenas 10% dos postos de trabalho estarão diretamente sob risco. “Não estamos vendo o copo cheio, pois fazemos a conta de quantos empregos perderemos, quando deveríamos calcular quantos novos postos surgirão a partir das novas tecnologias”, pondera Camila Leães, gerente executiva de mídia digital da RBS. Esta visão mais otimista é referendada pelo responsável pela divisão de Cloud da IBM na América Latina, Marcelo Porto. Ele acredita que cerca de 60% das pessoas que estão saindo atualmente das universidades trabalharão em uma profissão que ainda não existe, mas estão a caminho, devido às novas cadeias de negócios a serem geradas pela revolução digital. Segundo ele, em alguns segmentos ocorrerá o achatamento de negócios, enquanto, em outros, a migração de cadeia de valor. Em sua análise, o uso da inteligência artificial criará empregos de maior valor agregado. “Se você trabalha em uma atividade que você sabe ‘como’ fazer, ela é uma forte candidata a ser substituída por uma plataforma cognitiva. Se o que você emprega na sua atividade são os seus soft skills – criatividade, bom senso, perfil profissional – não terá uma plataforma para substituí-lo”, avalia. Mesmo a robótica, tão temida por todos, fará com que surjam postos de trabalho. “Por mais que o robô entre na fábrica e substitua alguém, essa fábrica está se tornando mais competitiva e vai crescer. Supondo que tenha mil pessoas, robotiza, reduz para 800 funcionários, mas abre outra com mais 800”, calcula José Rizzo Hahn Filho, presidente da Associação Brasileira de Internet Industrial (ABII), entidade criada para divulgar a internet industrial no país.

Vai um PILA aí?

A TI está sendo responsável por quebrar paradigmas, até mesmo em setores altamente regulamentados, como o bancário. O blockchain [a plataforma digital de transações], tecnologia base para moedas virtuais como o bitcoin, tem desafiado os bancos. Hoje, as transações internacionais de recursos podem levar semanas, pois devem passar por uma série de checagens de informações, como nomes e endereços. Porém, o blockchain pode checar os dados e corrigir erros em questão de segundos. E mais: ele também pode ser usado para operações de empréstimos, que, hoje em dia, são realizadas por meio de processos lentos e detalhados. Ainda assim, a utilização de moedas virtuais é combatida por não estar submetida a uma regulação específica. O Banco Central (BC) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) assinaram um documento conjunto alertando que esse tipo de moeda não tem a garantia de qualquer autoridade monetária. Elas podem também não ter a garantia de conversão para moedas soberanas, como, por exemplo, a libra esterlina, e tampouco são lastreadas em ativo real de qualquer espécie, o que significa deixar todo o risco com os seus detentores.

No Rio Grande do Sul, já existem iniciativas que envolvem o uso de criptomoedas. Um grupo de idealizadores criou o PILA, unidade de valor digital que remunera quem faz algum tipo de trabalho voluntário no Estado. “A base dela é voluntária, não especulativa. Vai ser uma espécie de teste para sabermos como pode funcionar isso em solo gaúcho”, explica Alex Hermann, diretor vice-presidente de Relações Internacionais da Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação – RS (Assespro), um dos integrantes que ajudaram a conceber o projeto.

Não apenas as novas possibilidades monetárias levarão instituições financeiras a mudarem seus conceitos. Bancos de fomento, por exemplo, terão de se adaptar para poder oferecer a startups formas de investimento. “A iniciativa privada quer tratar uma startup com o mesmo grau de risco esperado de uma companhia já consolidada. E isso não funciona, pois uma empresa nascente não tem estrutura”, adverte Rafael Costa, gerente de TI da Stara. “Embora os bancos estejam se renovando através do uso intensivo da TI, muitos dos meios usados como garantia [para dar suporte ao financiamento] ainda são bens físicos, ao passo que nos encontramos em um ambiente onde pode prevalecer a inteligência, algo não tangível”, avalia César Martins da Cunha, superintendente de TI do Badesul. “Esse é um dos grandes desafios que uma agência de fomento, como o Badesul, tem para conseguir facilitar o acesso ao crédito para esse tipo de empresa”, salienta Cunha.

POR UMA HÉLICE TURBINADA

COMO A TECNOLOGIA PODE VENCER AS BARREIRAS QUE SEPARAM ACADEMIA, INICIATIVA PRIVADA E GOVERNO

O cenário ideal é conhecido por todos: iniciativa privada, academia e governo totalmente integrados, equilibrados em iniciativas que atendam às demandas da sociedade e dos mercados. A chamada tripla hélice, porém, não decola no Brasil. As razões são inúmeras e históricas, mas entre os principais sintomas para este diagnóstico está a pouca presença de pesquisadores de ponta atuando dentro das indústrias – enquanto a maioria segue concentrada nas universidades.

“Nos Estados Unidos, 80% dos pesquisadores estão na indústria. Na Coreia, 76%. E no Brasil, 18% estão na indústria e 79% na universidade”, lamenta Fernando Dotti, diretor da Faculdade de Informática da PUCRS. “Temos de nos preparar. A habilidade de resolver problemas, o lado da matemática, da lógica e da linguagem, o raciocínio computacional, tem de ser ensinado nas escolas. Se não tivermos ações profundas, em 20 anos, vamos estar com um gap ainda maior que o de hoje”, alerta o professor. Em vez de buscar “culpados” pela situação, o momento é de mea culpa dos atores – e de muito trabalho. É a avaliação de Roberto dos Santos Rabello, professor e coordenador da Educação a Distância da Universidade de Passo Fundo (UPF). “Percebo que há um descompasso na convergência de interesses e processos no que diz respeito à academia e seus institutos de pesquisa na relação com o governo e a iniciativa privada. A iniciativa privada anda num passo e as outras duas em outro”, explica, manifestando que há interesse de sua instituição – bem como da comunidade acadêmica em geral – em resolver o problema.

O ambiente para integração entre academia e mercado no Brasil já mostra algumas iniciativas importantes. No Rio Grande do Sul, há os casos da Tecnopuc, da Tecnosinos e outros parques tecnológicos fomentados por universidades locais. Cristiano Cervi, diretor do Instituto de Ciências Exatas da UPF, avalia como positivas as iniciativas do governo do Estado de levar para demandas de pesquisa e inovação para universidades do interior. “Por ser uma universidade comunitária, não temos fins lucrativos. Contamos com a receita da mensalidade dos alunos muito apoiada por programas de governo, especialmente o Prouni e o Fies. Não conseguimos reverter isso para investir fortemente em pesquisa e inovação. Por isso a importância da colaboração entre setor privado, público e academia”, argumenta Cervi.

Ver para crer (e aprender)

Os empresários gaúchos, proporcionalmente, entre os brasileiros, são os que mais visitam o Vale do Silício para buscar inspiração acerca dos processos de pesquisa e inovação aplicados no mercado. “Fizemos uma imersão, com outros empresários do setor de tecnologia, pelo coração do Vale do Silício, conversando com os investidores de lá. Minha preocupação é que talvez não sejamos tão rápidos quanto o que está acontecendo no mundo”, avalia Reges Bronzatti, diretor comercial da Processor. “Pouca gente fala, debate, enfrenta o assunto, apesar de todo mundo saber que existe e está acontecendo. A maioria das empresas aqui, quando propõe inovação, o faz porque já está em crise”, descreve. Rafael Costa, gerente de Tecnologia da Stara, nota o descompasso entre os três setores – o que atrapalha e, muitas vezes, inviabiliza a aplicação de iniciativas em tempo hábil para a conquista de mercados. “O marco regulatório costuma vir depois que as empresas já estabeleceram o mercado. E outro exemplo é a educação. Fazemos educação como se fazia há 40, 50 anos. Tem de mudar”, observa.

Mas nem só de críticas vive o ambiente da inovação entre os três atores. Há avanços, mesmo que reativos aos cenários de crise. E, novamente, o papel da educação se torna fundamental. “O desafio é a educação para as incontáveis habilidades necessárias para ocupar essas posições. Temos esse convite de pensar o que vem de tão maravilhoso pela frente. Não vamos apenas perder empregos. A gente reage, é da natureza”, contemporiza Camila Leães, gerente executiva de mídia digital do Grupo RBS.

Apesar de um período prolongado de crise, o Rio Grande do Sul consegue manter um cenário competitivo para a inovação, acredita Alex Hermann, diretor vice-presidente de Relações Internacionais da Assespro. “A Procergs é berço de muitas coisas boas aqui. O gaúcho tem uma série de qualidades, somos os melhores programadores do país, exportamos tecnologia”, salienta. Hermann vê com bons olhos um futuro no qual o fator humano estará no centro das atenções, exatamente pelo uso em larga escala das tecnologias. “Até os programadores podem ficar desempregados, pois a própria inteligência artificial vai resolver isso. Então o que vai sobrar para gente, os humanos? Os outros humanos. Vamos voltar à universidade, lá na pesquisa, na inovação. Vamos inventar tudo o que não foi inventado nos últimos mil anos”, projeta. Segundo ele, o cuidado com nós mesmos e as relações pessoais voltarão a ser protagonistas. “Temos um futuro brilhante, cuidando da gente mesmo. Deixa a tecnologia nos ajudar. Ela veio para isto. Não veio para fazer trabalho ruim, não é?”, celebra. Luciane Rosa Feksa, professora e pesquisadora da área da Saúde na Feevale, lembra que tecnologia, pesquisa e inovações não podem ser ideias limitadas às áreas da informática e computação. “A pesquisa no Brasil está muito complicada. Talvez no desenvolvimento de tecnologias seja um pouquinho mais fácil, mas em algumas áreas, como o desenvolvimento de medicamentos, e de outras formas de pesquisas aplicadas, nós não estamos mais tendo chances”, argumenta, apontando a Feevale como uma das poucas exceções onde há financiamento de projetos em sua área, a saúde.

Professor gestor de TI da mesma instituição, Carlos Schwartzhaupt conta um exemplo prático de boas novas. No curso de Fisioterapia da universidade, dentro das clínicas de atendimento a traumatizados, são atendidas mulheres que sofreram alguma espécie de intervenção em tratamento contra câncer de mama, de modo que possam recuperar os movimentos da parte superior. Isso motivou o curso de Games a projetar um jogo interativo no dispositivo Kinect – que substitui parte dos tratamentos fisioterápicos tradicionais. “O depoimento delas é: eu estou indo pra universidade não para me tratar, eu estou indo pra me divertir. Esta percepção de mudar o formato do que está sendo feito é que talvez seja o desafio da educação. São estes profissionais que estamos formando e que estão indo para dentro das empresas”, comemora Schwartzhaupt.