UMA REVOLUÇÃO NO CAMPO

INFORMAÇÃO, MÁQUINAS MODERNAS E NOVOS MÉTODOS DE PRODUÇÃO SÃO A CHAVE PARA COLOCAR O BRASIL DE VOLTA AO CAMINHO DO CRESCIMENTO

Foram necessários alguns milhares de anos para que a humanidade deixasse de perambular em busca de alimentos. Em 8 mil a. C., na região que hoje corresponde à Síria, grupos nômades de caçadores-coletores perceberam que, ao enterrar sementes que coletavam na natureza, era possível produzir novas plantas. Nascia, ali, a base da agricultura moderna. Essa primeira revolução na produção foi um passo decisivo para o processo de criação de agrupamentos humanos cada vez mais densos. Tão densos que, hoje, apresentam um desafio à produção de alimentos. Segundo uma análise bianual do Instituto Francês de Estudos Demográficos (Ined), a população mundial chegará perto dos 10 bilhões de habitantes em 2050. Alimentar todo mundo exigirá métodos, técnicas e ferramentas de produção cada vez mais avançados. Nesse novo cenário, informação e inteligência são palavras-chave em um cenário cada vez mais tecnológico e repleto de possibilidades.

Ao contrário das transformações anteriores, essa nova revolução agrícola terá como base o aumento da produtividade, sem que isso signifique, necessariamente, a extensão da área cultivada. Segundo dados da Embrapa, em áreas de Cerrado, que respondem por 60% da produção de carne do país, cerca de 80% dos 50 milhões de hectares com pastagens cultivadas apresentam algum grau de degradação. Com técnicas mais modernas de cultivo, a recuperação dessas áreas pode permitir o aumento da produção sem maiores impactos ambientais. Esses métodos não estão associados somente a novas técnicas de manejo ou fertilizantes e defensivos mais poderosos, mas à introdução de termos como big data e agricultura de precisão ao vocabulário do homem do campo. “Hoje, o produtor rural é antenado no que há de mais moderno no mundo”, diz Antonio Alvarenga, presidente da Sociedade Nacional da Agricultura (SNA).

Tecnologia que oferece informações e conhecimento que são a base para otimizar a gestão de recursos e etapas da cadeia produtiva. “Com os dados, os gestores são capazes de tomar as melhores decisões que tragam vantagens econômicas, sociais e ambientais”, afirma José Otávio Menten, engenheiro agrônomo e professor da Universidade de São Paulo (USP).

Essas novas tecnologias não terão impacto restrito ao campo. Cada inovação introduzida no mercado ou ainda em desenvolvimento nos laboratórios de empresas e instituições de pesquisa movimenta um ecossistema que impacta toda a cadeia produtiva brasileira. Para manter a competitividade diante do mercado global e atender às demandas internas, o Brasil, mais do que nunca, precisa investir em práticas, técnicas e produtos inovadores. Esse pode ser o caminho para que o Brasil retome uma trajetória de crescimento sustentável. E, para que isso ocorra, agronegócio e tecnologia precisam andar de mãos dadas.

INFORMAÇÃO FÉRTIL

AS TECNOLOGIAS DE BIG DATA ESTÃO ABRINDO UMA NOVA FRONTEIRA NO AGRONEGÓCIO, COM GRANDES OPORTUNIDADES DE GANHO PARA OS PRODUTORES – E ECONOMIA PARA OS CONSUMIDORES

Aos poucos, os produtores brasileiros começam a descobrir o potencial de uma nova fronteira agrícola: a do big data. Com equipamentos ultramodernos que semeiam dados e colhem informação estratégica, eles estão explorando novos caminhos para expandir a produção – sem aumentar a área de plantio. Trata-se de uma revolução silenciosa, tocada a bordo de tratores que são verdadeiros computadores sobre rodas, além de softwares que estão revolucionando a atividade agrícola. O que dá aos empreendedores do agronegócio uma oportunidade única para catapultar a produtividade – com mais ganhos para quem planta e menos custos para quem consome.

Os sinais dessa revolução podem ser vistos em toda parte. No campo, grandes produtores agrícolas têm se esforçado para adquirir sistemas capazes de analisar quantidades expressivas de dados e gerar, assim, novos insights para dar mais eficiência à produção. Indústrias correm para incorporar essas tecnologias a máquinas, veículos e implementos agrícolas. E as grandes desenvolvedoras de softwares, como SAP, Microsoft e IBM, mantêm o agronegócio no radar de seus investimentos estratégicos. Ninguém quer perder a grande safra de oportunidades que o big data está começando a irrigar.

No Rio Grande do Sul, a revolução toma corpo nas grandes cooperativas e nas empresas que produzem máquinas e implementos agrícolas. Na Stara, de Não-Me-Toque (RS), muitos veículos saem da fábrica com 100% da tecnologia de agricultura de precisão já embarcada. “É mais ou menos como carro equipado com trio elétrico: cada vez mais, isso deixa de ser um opcional e se torna um padrão de mercado”, explica Cristiano Paim Buss, diretor da área de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) da empresa. E é justamente essa alta adesão às soluções de agricultura de precisão que abre espaço para o big data entrar no dia a dia dos produtores rurais.

Tradicionalmente, o grande diferencial da agricultura de precisão estava nas tecnologias de análise do solo e de navegação por satélite. Com a ajuda do GPS e de outros sistemas de medição, os produtores conseguiam mapear toda a área de plantio e dosar a quantidade certa de fertilizantes e defensivos para cada centímetro da lavoura. Hoje, no entanto, com os sistemas de análise e processamento de dados em nuvem, as possibilidades de ganho vão muito além do tradicional. “Já temos sensores que coletam dados em cada linha da plantadeira. Monitoramos quantidade de sementes usadas, fertilizantes, área plantada e muito mais”, explica Buss. “Esses dados vão para a nuvem em tempo real e ajudam a controlar outras atividades da propriedade – como a reposição de estoques, as compras de insumos, manutenções etc.”

Um dos frutos dessa transformação pôde ser visto em março deste ano, durante o SAP Forum Brasil, em um dos mais concorridos eventos do setor de TI na América Latina. Durante dois dias, a Stara apresentou o protótipo do ST Max 180, um trator equipado com sistemas de telemetria e Internet das Coisas (IoT, na sigla em inglês). Em um painel, os visitantes podiam conferir em tempo quase real – o delay era de 15 segundos – todos os aspectos de desempenho da máquina: desde a velocidade e o estoque de combustível até o nível de vibração de cada componente.

No dia a dia do campo, esses dados são enviados automaticamente para os servidores do Hana, como é conhecida a plataforma de computação em nuvem da SAP. Lá, são analisados por computadores poderosíssimos que mapeiam padrões, anomalias e uma série de correlações operacionais. Em questão de segundos, essa montanha de dados – um único trator chega a gerar até 2 GB por dia – se converte em informações-chave que ajudam o produtor a maximizar o desempenho da lavoura. É possível, por exemplo, identificar o melhor padrão de plantio em terrenos acidentados. Ou ajustar a velocidade da plantadeira para evitar que as sementes fiquem muito espaçadas umas das outras.

O resultado é um sistema que permite ao produtor adotar novas abordagens de gerenciamento da produção. No passado, eventuais erros no plantio só eram detectados depois que as sementes começavam a florescer. Agora, podem ser corrigidos na hora. O executivo da Stara diz que isso tem sido decisivo para impulsionar a produtividade média da soja em Não-Me-Toque. Em 2000, lembra, os produtores da região colhiam algo entre 40 e 42 sacas por hectare. “Hoje, o rendimento médio fica entre 70 e 75 sacas por hectare, dependendo da safra”, explica ele.

Fazendas que preveem o futuro

No ano de 2013, a Monsanto surpreendeu o mundo ao aplicar cerca de US$ 930 milhões na aquisição de uma startup chamada Climate Corp, sediada no Vale do Silício. À primeira vista, o investimento soou um tanto heterodoxo. A Monsanto sempre fora uma referência em desenvolvimento de biotecnologia agrícola. Já a Climate Corp vendia apólices de seguros contra eventos meteorológicos – em seu site, produtores podiam contratar seguros contra temperaturas altas demais ou chuvas acima da média, por exemplo. A não ser pelo foco no agronegócio, as empresas pareciam diferentes demais para ter algum tipo de sinergia.

Para a Monsanto, porém, a chave do negócio não estava nas apólices, e sim na forma como elas eram desenvolvidas. Fundada por dois ex-funcionários do Google, a Climate Corp utilizava uma infinidade de dados meteorológicos para mapear os padrões de comportamento do clima e oferecer previsões do tempo mais certeiras. E foi isso – a capacidade de analisar dados cruciais para prever o desempenho futuro do agronegócio – que motivou a Monsanto a fazer o investimento. “De lá para cá, as duas empresas vêm atuando fortemente para trazer o big data para o dia a dia do agronegócio. Estamos criando inteligência para ajudar os produtores e desenvolver a agricultura como um todo”, garante Mateus Barros, líder para a América do Sul da Climate Corp.

A aquisição iniciou uma verdadeira corrida ao big data no agronegócio. Barros calcula que já existam mais de 500 empresas no Vale do Silício desenvolvendo soluções específicas para o setor agrícola – de análises com drones até imagens de satélite. Todas elas buscam o mesmo tipo de benefício: usar padrões históricos como forma de antever tendências futuras relacionadas à atividade agrícola. A própria Monsanto reforçou esse posicionamento ao adquirir, em 2014, a Sollum, uma companhia especializada em análise de solos. No ano seguinte, desfez-se dos serviços de seguros da Climate Corp e passou a focá-la exclusivamente no segmento de “agricultura digital”.

Com essas e com outras soluções, os produtores já têm condições de atuar com uma abordagem preditiva dos negócios. Os padrões de análise identificados pelos sistemas permitem saber, por exemplo, quando uma determinada máquina precisará de manutenção – evitando, assim, que ela fique muito tempo ociosa. Também permitem antecipar quando será necessário refazer estoques de determinados insumos, tudo de forma 100% automática. Agora, diz Barros, a Monsanto vem testando uma plataforma de gestão em tempo real da propriedade, com os mais diversos dados consolidados na tela de um iPad. “O produtor pode estar no escritório ou no monitor e acompanhar em tempo real a evolução do plantio, a velocidade em que a colheitadeira percorre no campo, coisas assim”, descreve. Está previsto para daqui a dois anos o lançamento oficial da plataforma.

Comida mais barata

Essa verdadeira revolução coloca os produtores diante de novos desafios. Um deles é acompanhar as mudanças propriamente ditas. Ricardo Inamasu, pesquisador e coordenador da rede de agricultura de precisão da Embrapa, lembra que muitos produtores ainda têm dificuldades para entender o potencial das novas tecnologias. “Não adianta comprar o equipamento se eles não souberem como utilizá-lo”, constata. Em muitos locais, sequer existe acesso à internet para o processamento de dados em nuvem. Por isso, destaca Inamasu, a própria Embrapa vem estimulando os produtores a buscarem treinamentos e novos conhecimentos. “Isso é fundamental para que a tecnologia dê um salto ainda maior”, acredita ele.

Na maioria dos casos, porém, são os filhos dos produtores que tomam a frente na adoção das novas tecnologias agrícolas. “Muitos estão se formando em Administração, Agronomia ou outros cursos técnicos e veem o desenvolvimento tecnológico como uma motivação para ficar no campo e buscar um bom patamar de renda”, conta Nei Mânica, presidente da Cotrijal, maior cooperativa de produção do Rio Grande do Sul, segundo o ranking 500 MAIORES DO SUL, editado por AMANHÃ em parceria com a PwC.

O novo paradigma está redesenhando o próprio conceito de agricultura familiar. Nos Estados Unidos, argumenta Mânica, já existem grandes propriedades inteiramente administradas por pequenos núcleos familiares – que operam todo o maquinário a partir de um único painel de controle. “É basicamente o produtor, sua esposa e os filhos, porque eles têm a tecnologia para isso.”

É claro que a automação da agricultura elimina postos de trabalho no campo. Mas isso não chega a ser visto como um grande problema entre os produtores. Muitos dos egressos das lavouras acabam se reposicionando em atividades de maior valor agregado – como nas áreas de serviços da cadeia produtiva. Além disso, os ganhos de eficiência são essenciais para assegurar o baixo custo dos alimentos. “Hoje, o mundo come melhor por causa da tecnologia empregada no campo. Sem isso, teríamos muito mais pessoas passando fome”, sustenta Aurélio Pavinato, CEO da SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de grãos do país. Atualmente, diz ele, grande parte da frota utilizada pela empresa atua com piloto automático. “As máquinas simplesmente andam sozinhas, gerando dados que ajudam a reduzir ainda mais os custos de produção”, revela ele. A revolução, como se vê, está recém começando a florescer.

O NOVO ESTILO DO PRODUTOR

DIPLOMADOS, CONECTADOS, INFORMADOS. A ASCENSÃO DA TECNOLOGIA TRAZ MODERNIDADE AO PRODUTOR, MUDA HÁBITOS E ATRAI EMPREENDEDORES DISPOSTOS A INVESTIR NUM SETOR QUE NÃO PARA DE CRESCER

Aquela imagem do colono sem formação técnica, que revirava a terra com a enxada e observava os filhos migrando para as grandes cidades em busca de emprego, já não é realidade em muitas partes do Brasil. Hoje, o produtor vive uma fase de transformação. Conectado, trabalhando com celular e internet, ele já não vive isolado. A disparidade entre o campo e a cidade diminuiu. O novo trabalhador rural frequenta a universidade, controla a produção por meio de máquinas informatizadas e sabe tudo o que acontece no mercado. Tem perfil mais jovem e moderno, e divide cada vez mais espaço com as mulheres. O agronegócio brasileiro, responsável por um quarto da economia – e único setor a crescer em 2015 –, está de cara nova. E boa parte dessa transformação ocorre graças à tecnologia.

A Associação Brasileira de Marketing Rural & Agronegócios (Abmr&a), que divulga periodicamente uma pesquisa sobre o perfil do produtor rural, atesta a incorporação gradual de hábitos urbanos no campo. Um exemplo é crescimento no uso da internet. Em 2009, 30% dos agricultores e pecuaristas tinham familiaridade com a tecnologia. Em 2013 (ano do último levantamento, que entrevistou 2.581 pessoas), o índice subiu para 39%. Desse total, 92% estão conectados a redes sociais como o Facebook. O número poderia ser maior não fossem os problemas de cobertura de internet no campo. “Isso freia um pouco do progresso do produtor”, reconhece Carlos Joel da Silva, presidente da Federação dos Trabalhadores da Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag). Apesar da infraestrutura ainda insuficiente, a modernização parece ser mesmo o caminho do campo. “Nos dias de hoje, quem não se qualifica para a modernidade fica de fora do processo produtivo”, alerta Nelson Wild, presidente da Federação dos Trabalhadores Assalariados Rurais do Rio Grande do Sul (Fetar). Com negócios que envolvem múltiplos fatores – como tempo, solo e maquinário –, a tecnologia passa a ser vista como questão de sobrevivência para os produtores rurais. Implementar essas inovações, no entanto, exige uma gama de competências multidisciplinares e a compreensão de toda a cadeia de valor do agronegócio. Logo, é preciso ir em busca de informação.

A obrigação de conhecer e desenvolver novos processos, por meio da tecnologia, aumentou o grau de instrução dos produtores – e, de quebra, a produção. “Por meio da assistência técnica aumentamos a produtividade, e aumentando esta produtividade fazemos com que o produtor tenha mais renda e resultado. E isso ajuda no aumento do consumo de alimentos. É o cooperativismo na manifestação do desenvolvimento endógeno”, salienta o engenheiro agrônomo Paulo Pires, presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado do Rio Grande do Sul (FecoAgro/RS). Nos últimos três anos, só de recursos do BNDES,

R$ 1,5 bilhão foram investidos pelo sistema no Estado para modernização de cooperativas. Dados da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócios (Abmr&a) indicam que o homem do campo está mais atento à qualificação. Uma pesquisa realizada pela entidade revela que 21% dos produtores possuem curso superior ou pós-graduação. A tendência é que esse indicador cresça nos próximos anos – só na última década, o número de pessoas que vivem na zona rural e que tem mais de 12 anos de estudo praticamente triplicou, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além disso, o conhecimento agregado também decorre dos incontáveis eventos do setor. “Feiras, seminários e congressos para o produtor se modernizar e ganhar qualidade técnica é o que não falta”, reforça o presidente da Fetag.

Jovens agricultores

Décadas de êxodo rural tornaram comum a figura do filho saindo do campo para buscar melhores oportunidades na cidade. Ainda que esse cenário não tenha sido completamente revertido, a ideia de que a zona rural é um espaço de baixa qualificação e parcos salários está dando lugar a uma nova imagem do trabalhador do campo – conectado e tecnicamente preparado. “A garotada que cresceu nesse ambiente virtual está mais atraída pelos ganhos do campo. Por isso, vem assumindo a liderança do negócio”, afirma Mateus Barros, líder para a América do Sul da Climate Corp, área de agricultura digital da Monsanto. O agrônomo Tarso Peterle, de 25 anos, entra na estatística. Ele saiu de Dom Pedrito, a cerca de 450 quilômetros de Porto Alegre, para estudar na capital. Depois de formado, regressou à cidade para seguir na empresa do pai, a Peterle Agropecuária, que produz soja, arroz, uva e gado de corte. “Eu voltei porque sabia do potencial de seguir no negócio da família”, conta. Além dele, seus dois irmãos, Thiago e Carolina, também se capacitaram – na área industrial e administrativa, respectivamente – para atuar na gestão da Peterle.

Empreendedores do universo das startups também estão de olho no agronegócio, transformando o perfil de quem atua no setor. Eles fazem parte de um movimento intitulado “AgTech”, termo em inglês que caracteriza tecnologias que digitalizam, conectam e automatizam a produção agropecuária. Em maio passado, um polo exclusivo para o segmento foi inaugurado em Piracicaba, no interior de São Paulo. O AgTech Valley – Vale do Piracicaba (alusão ao Vale do Silício, meca da inovação mundial) é o primeiro empreendimento do gênero, fruto de uma parceria entre a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e as 89 empresas agrícolas instaladas na região. O potencial de escala dessas empresas é tão grande que tem atraído aportes de investidores-anjos e fundos de venture capital. No Brasil, o fundo BR Startups tem recursos para investimentos que vão de R$ 250 mil a R$ 1,5 milhão por startup agrícola. Empresas da área também atraem o interesse de aceleradoras e incubadoras. Uma delas é a Eirene Solutions, que prega o uso de robôs na agricultura de precisão. Atualmente, a empresa está sediada na incubadora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), a Raiar, e trabalha no desenvolvimento de um sistema de pulverização que pretende realizar o processo com menor custo e de forma menos agressiva ao meio ambiente. “O meio agrícola está muito receptivo à inovação. A era da enxada está para acabar”, sentencia Eduardo Marckmann, CEO da Eirene.

Tendências do setor

Não há uma tabela de referência salarial para os jovens que trabalham no campo. Algumas fazendas modernas pagam de R$ 4,5 mil a R$ 7 mil. No auge da carreira, os ganhos podem chegar a R$ 15 mil. Para os empreendedores, a venda de uma solução pode chegar aos milhões. O maior exemplo nesse sentido é a própria Climate Corp, fundada em 2006 por uma equipe de engenheiros de software e cientistas de dados que trabalharam no Google. Em outubro de 2013, a empresa foi comprada pela Monsanto por US$ 930 milhões. “Depois que a Monsanto fez essa investida, o Vale do Silício parece que acordou para a agricultura”, interpreta Barros, líder para a América do Sul da Climate Corp. “Hoje, são mais de 500 empresas da área agrícola no Vale, com todo tipo de soluções.”

Apesar das oportunidades atraentes, os grandes centros urbanos continuam sendo concorrentes de peso na busca por mão de obra qualificada. “Pode não parecer, mas manter o jovem no agronegócio ainda é um grande desafio”, reconhece Nei César Mânica, presidente da Cooperativa Agropecuária e Industrial (Cotrijal).

Para promover a sucessão familiar e profissionalizar a gestão de pequenas e médias propriedades rurais, a cooperativa oferece o programa Jovem Aprendiz, voltado para filhos de colaboradores e associados. “Se tivermos 50% de aproveitamento entre os participantes já é muito bom.”

Especialistas dizem que é questão de tempo até que os jovens tomem conta das fazendas. Outra unanimidade é o avanço das mulheres no comando das propriedades. Segundo a ABMR&A, esse percentual subiu para 10% em 2013, ante 3% de 2003 – em 1998, era apenas 1%. A ascensão se reflete também na sala de aula. Na faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), as mulheres eram 12% das estudantes na década de 1980. Agora, representam 30%.

Nos cursos promovidos pela regional gaúcha do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), a proporção é ainda maior: 59% dos aprendizes são do sexo feminino – na modalidade Promoção Social, chega a 93%. “O reflexo da sociedade urbana, com mulheres ocupando mais espaço, é sentido no campo”, diz Alexandre Prado, coordenador de programas especiais do Senar-RS. Mais um indício de que a cidade e o campo não estão mais tão distantes assim.

DO LABORATÓRIO PARA A FAZENDA

DAS SEMENTES AOS CLONES, AS NOVAS TECNOLOGIAS TOMAM CONTA DO AGRONEGÓCIO COM O COMPROMISSO DE AUMENTAR A EFICIÊNCIA E REDUZIR OS IMPACTOS AMBIENTAIS

Imagine que você seja um produtor rural com um rebanho de 100 cabeças de gado. Dentre todos do seu plantel, um é muito especial: Margarida, uma vaca de 9 anos que produz 9 mil litros de leite por ano. Há poucos anos, a solução estaria em gerar o maior número possível de crias e torcer para que a genética ajudasse. Hoje, no entanto, há uma solução mais certeira: fazer uma cópia. O Brasil abriga uma das principais empresas de clonagem animal da América Latina. Sediada na Fazenda São Francisco, em Mogi Mirim (SP), a In Vitro já replicou mais de 170 bovinos, ovinos e caprinos. Além disso, foi a primeira companhia do mundo a clonar um cavalo. A empresa faz o trabalho de uma ponta a outra – e entrega o animal clonado com quatro meses de idade. “É mais uma ferramenta de biotecnologia que vem somar ao setor”, explica Perla Fleury, diretora da In Vitro.

A clonagem ainda não é uma opção acessível. Paga-se aproximadamente R$ 60 mil para clonar um boi. Já o clone de um equino sai por salgados R$ 220 mil. Os valores assustam, mas a empresa disponibiliza outras alternativas. Caso você não tenha como clonar sua vaca fictícia, a In Vitro oferece uma espécie de “seguro biológico”. Funciona assim: a empresa deixa o material celular armazenado em nitrogênio líquido por tempo indeterminado. Desta forma, se não tiver recursos para a clonagem, o material estará no banco de células.

Outra ferramenta que se populariza cada vez mais é a fertilização in vitro (FIV), técnica que permite um maior potencial de aceleração do plantel, uma maneira mais barata de dar continuidade à alta produção proporcionada pela nossa vaca fictícia. Por meio da técnica, o produtor garante que os embriões se tornem animais altamente produtivos, como Margarida. “É uma forma de o produtor multiplicar com eficiência e rapidez o que ele tem de melhor no seu rebanho”, afirma Perla, da In Vitro, que em 2015 produziu 385 mil embriões nos laboratórios da empresa espalhados pelo mundo.

Além de revolucionar a forma de produção, a tecnologia abriu novas possibilidades para o agronegócio. O criador pode vender embriões congelados de seus animais mais valorizados ou até mesmo oferecer uma cópia de seu touro mais cobiçado. “Essa tecnologia trouxe um nicho de mercado que não existia. É mais uma oportunidade para gerar renda”, avalia a diretora.

Novidades e tendências

Nos anos 70, a tecnologia agrícola mudou o panorama econômico do Brasil. A demanda do mercado interno foi atendida rapidamente, e o país se tornou um dos principais exportadores de commodities do planeta. Hoje, o agronegócio é um dos pilares da economia brasileira. Mesmo em meio à crise, o setor conseguiu crescer em 2015 – o Produto Interno Bruto (PIB) da agropecuária teve um crescimento de 1,8% em relação ao ano anterior. Mas, agora, o desafio é aumentar a produtividade sem expandir áreas de cultivo – e com menos impacto ao meio ambiente. Para isso, empresas e laboratórios trabalham constantemente para desenvolver novas tecnologias e produtos mais eficientes.

A base de todo esse processo agrícola são as sementes. E a tecnologia permitiu modificar geneticamente esses elementos-chave da agricultura, com novas características genéticas, físicas, fisiológicas e sanitárias. “Hoje, as sementes funcionam como chips com grandes quantidades de informações”, explica José Otávio Menten, engenheiro agrônomo e professor da Universidade de São Paulo (USP). Cada um desses aspectos é trabalhado e melhorado para se tornar determinante no aumento de produtividade. Um dos pontos mais decisivos é fazer com que as sementes se adaptem a diferentes climas e regiões. “De nada adianta ter essas tecnologias se não houver uma variedade de características agronômicas adequadas às necessidades do produtor”, afirma Geraldo Berger, diretor de regulamentação da Monsanto – maior produtora de sementes do mundo.

A tendência, segundo Menten, é que, cada vez mais, o produto passe pelo chamado Tratamento Industrial de Semente (TSI) – que fornece proteção contra patógenos e pragas – antes mesmo de chegar à propriedade. “Esse tratamento terá um impacto muito grande. Vai melhorar a produtividade e o desempenho, tanto de germinação quanto de vigor”, avalia o professor.

Grandes empresas já trabalham com o TSI, que promete reduzir a exposição do meio ambiente e dos trabalhadores rurais a essas substâncias tóxicas. A Monsanto desenvolveu o VT PRO 3, primeira tecnologia de proteção do milho, tanto na raiz quanto na superfície, vulnerável a pragas aéreas. Segundo Berger, da Monsanto, os produtos se limitavam apenas aos problemas mais visíveis ao agricultor. “Era necessário um produto com habilidade de resistir àquilo que não se vê, as pragas de raiz”, explica o diretor da empresa.

A DuPont também investe pesado em inovações nessa área. Desde 2009, a companhia trabalha na expansão do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Paulínia. Em paralelo, lançou projetos que vão de sementes a novos inseticidas e fungicidas. Um deles, o Verimark, foi lançado em junho deste ano e tem uso recomendado para 28 culturas diferentes.

O resultado dessas inovações tem sido positivo: em 2014, os produtos lançados nos quatro anos anteriores correspondiam a 30% do faturamento da DuPont Brasil. Em uma escala global, a companhia faturou U$ 9 bilhões com as novidades. “Agora, estamos trabalhando com formulações de novos fungicidas para a horticultura”, afirma Marcelo Okamura, diretor de Tecnologia da DuPont Proteção de Cultivos e líder do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Paulínia.

As parcerias com instituições de pesquisa se tornaram um ponto fundamental para as empresas do setor agrícola. A fabricante de fertilizantes Yara, por exemplo, tem projetos que contam com a colaboração de importantes organizações, como a Embrapa, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) e o Instituto Agronômico (IAC). Por dez anos, a empresa realizou um trabalho com o IAC com o objetivo de buscar o aumento da produtividade em frutas cítricas. Finalizado em 2012, o projeto conseguiu aumentar a qualidade e a eficiência na produção dessas variedades.

No momento, a Yara está estudando, com a ajuda do mesmo centro de pesquisa, novas maneiras de aumentar a tolerância das plantas às principais doenças da citricultura. Juntas, as organizações estão analisando, por exemplo, se uma planta mais bem nutrida tem uma tolerância maior ao ataque de pragas e doenças. Essa ideia pode reduzir os custos e aumentar a vida útil de um pomar. “Trata-se de um novo conceito em nutrição de plantas”, destaca Paulo Yvan, líder agronômico e de desenvolvimento de Mercado da Yara.

O preço da eficiência

Sementes com novas características, clonagem animal, fertilização in vitro, inseticidas, novas técnicas de nutrição do solo, fungicidas e herbicidas mais potentes. Com a biotecnologia ganhando cada vez mais destaque no agronegócio, uma questão inevitável vem à tona: quais os impactos dessas novas tecnologias à saúde e ao meio ambiente?

Em 2015, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) lançou um documento no qual afirma que o cultivo de sementes transgênicas exige um uso maior de agrotóxicos – principal foco das discussões por conta dos impactos no solo, água e ar. E, embora a biotecnologia carregue a promessa de uma agricultura menos dependente de agrotóxicos, para Rubens Nodari, agrônomo e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a relação entre o uso de sementes geneticamente modificadas e o aumento da utilização de substâncias químicas também é evidente.

Geraldo Berger, da Monsanto, rebate que essas tecnologias chegam justamente para minimizar a exposição a produtos químicos. “Isso permite que o agricultor tenha uma racionalização da utilização de defensivos”, afirma o executivo. Marcelo Okamura vai além: defende que o uso seletivo e racional dessas substâncias químicas é necessário, já que se torna uma forma de manter a longevidade das novas tecnologias. “A biotecnologia e o uso de produtos químicos não são tecnologias excludentes, e sim complementares”, afirma o diretor da DuPont.

O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) vem debatendo intensamente o assunto. Seu posicionamento contra os transgênicos e agrotóxicos já se estende por décadas. Uma das principais críticas é justamente a busca por variedade – característica tão almejada por essas empresas. Para Ana Paula Bortoletto, nutricionista do instituto, a tentativa de produzir alimentos que não são característicos de determinadas regiões afeta a cultura alimentar de comunidades inteiras e o trabalho do agricultor familiar. “Temos uma biodiversidade enorme que está se perdendo por conta da padronização da agricultura”, explica Ana Paula.

As pesquisas sobre os efeitos dos transgênicos à saúde são tão amplas quanto contraditórias. Há, no entanto, uma certeza: a necessidade de produzir mais sem a necessidade de expandir a área cultivada – ou seja, tornar a agricultura mais eficaz. Isso sem produzir mais impactos ambientais, outro assunto na pauta das empresas de biotecnologia.

Sementes que dispensam a pulverização ou a adição de substâncias químicas, agrotóxicos mais concentrados e que exigem doses menores, técnicas de nutrição de solos menos agressivas são algumas das novidades que devem chegar em breve ao mercado. Para Paulo Yvan, da Yara, a sustentabilidade trabalha lado a lado com a eficiência. “A melhor forma de preservar o meio ambiente é produzir mais com menos, evitando, assim, abrir novas áreas de plantio e desperdiçar recursos naturais”, completa o executivo.

“Essas inovações tecnológicas no setor do agronegócio são fundamentais para o Brasil atender as expectativas do mercado interno e externo”, ressalta José Otávio Menten, da USP. De acordo com relatório divulgado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da USP (Cepea), com o apoio da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em 2015 a participação do PIB do agronegócio no PIB total do país foi de 21,4%. O setor também é responsável por uma parcela significativa da balança comercial brasileira. No primeiro trimestre de 2016, a agropecuária foi responsável por quase 50% de todas as vendas externas do país, segundo balanço divulgado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O peso do agronegócio na economia brasileira ganha novas proporções em tempos de instabilidade econômica. “A crise trouxe como reflexo a busca por ainda mais eficiência”, diz Perla Fleury, da In Vitro. Nesse cenário, as novas tecnologias do agronegócio são mais do que uma simples alternativa.