EM BUSCA DE ‘QI URBANO’

NOVAS POSSIBILIDADES SE ABREM PARA A ORGANIZAÇÃO DE CIDADES. COM A CONVERGÊNCIA DAS TECNOLOGIAS, AMBIENTES INTELIGENTES SÃO TENDÊNCIA EM ÁREAS QUE VÃO DE MOBILIDADE A PREVENÇÃO DE DESASTRES

Com o despertar dos espaços urbanos para a tecnologia, surgem as cidades inteligentes, capazes de conectar pessoas e infraestruturas de forma mais eficiente. Para debater os avanços dessa tendência, AMANHÃ reuniu especialistas, empresários, acadêmicos, profissionais de TI e gestores públicos para mais uma edição de Cenários de AMANHÃ. Dessa vez, o palco foi Novo Hamburgo. Realizado em 28 de outubro, na Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Novo Hamburgo, Campo Bom e Estância Velha (ACI), o encontro teve foco no tema “Rio Grande em Rede: Cidades Inteligentes”.

Educação, saúde, mobilidade, recursos naturais... Nada escapa da revolução tecnológica que toma conta das cidades. E não se trata de ficção científica: as metrópoles já possuem parte do subsídio para dar o passo decisivo em direção à inteligência urbana. A chave é a conectividade. “As tecnologias já existem. Falta o setor público incorporá-las aos processos”, defende Juliano Jorej, analista de sistemas de informações do Hospital Mãe de Deus.

Instituições públicas já contam com bancos de dados recheados de informações estratégicas que podem ser potencializados e interligados. Iniciativas interessantes têm surgido principalmente no gerenciamento de riscos ambientais. “Temos de pensar como a tecnologia pode contribuir para que tragédias sejam antecipadas, como tornar uma cidade resiliente”, alerta Leonardo Lemes, coordenador executivo da Unisinos. Nesta edição, Cenários de AMANHÃ apresenta o que há de mais inovador no tema “cidades inteligentes” ao redor do mundo – e quais desafios ainda dificultam a otimização dos centros urbanos.

PENSANDO O FUTURO

SAIBA QUEM PARTICIPOU DO EVENTO A CONVITE DE AMANHÃ E GARTNER GROUP

CIDADES QUESE MOVEM SOZINHAS

CONGESTIONAMENTOS, FILAS EM HOSPITAIS, CRISE HÍDRICA, ENERGIA ESCASSA. ESSES PROBLEMAS PODEM SER RESOLVIDOS COM AS NOVAS TECNOLOGIAS QUE ESTÃO CHEGANDO AO MERCADO. BASTA CONECTÁ-LAS

Águas de São Pedro é o menor município do Estado de São Paulo. Ainda assim, a cidade de pouco mais de 3 mil habitantes atrai milhares de turistas todos os anos – suas fontes hidrominerais naturais são conhecidas pelo valor medicinal. Até 2013, exceto por sua aptidão para o turismo, a cidade chamava pouca atenção dos brasileiros. Mas um projeto-piloto encabeçado por algumas gigantes de TI e telecomunicações transformou Águas de São Pedro num verdadeiro espelho para os centros urbanos do futuro.

Houve um motivo para que a pequena cidade fosse escolhida para ser a primeira cidade inteligente do Brasil. “No nosso entendimento, era o cenário ideal”, revela Anderson Tomaiz, diretor sênior de soluções da Huawei Enterprise. Junto com a Telefônica e com a Tacira, especializada em tecnologias para cidades inteligentes, a empresa chinesa iniciou em 2013 um projeto-piloto que transformou Águas de São Pedro. Alguns fatores tornaram a cidade particularmente propícia para a experiência: a área reduzida, com pouco mais de 5 km²; a população pequena, o que não exigia uma solução de grande escala; e um elemento de “distúrbio da paz” – o turismo.

Existem alguns requisitos para que uma cidade receba o título de smart city. O primeiro é a infraestrutura de redes. “É preciso ter banda larga em todo lugar, disponível para todo cidadão”, destaca Tomaiz. Um sistema de armazenamento eficaz complementa a estrutura que receberá as soluções – de medidores autônomos de luz e água a videomonitoriamento inteligente. “Uma vez que a plataforma básica tenha sido criada, é possível desenvolver soluções verticais, aproveitando a mesma infraestrutura”, diz o executivo.

O fator humano

De nada adianta implementar soluções de alta tecnologia se o foco não estiver nas pessoas. Esse é o passo seguinte para as cidades que desejam receber essa alcunha: um sistema colaborativo alimentado pelos próprios cidadãos. “Isso permite uma comunicação ágil entre cidadãos, empresas e órgãos do governo”, diz Tomaiz. “Com um clique, é possível saber se o bairro está sem energia, se há um buraco na rua ou denunciar alguma atividade ilegal.”

O aplicativo Waze é um indício de como a interação pode otimizar a vida dos cidadãos. Aplicativo de navegação baseado no compartilhamento de informações do trânsito, o Waze traça as rotas mais rápidas e avisa o motorista em caso de lentidão ou acidentes. Essa lógica pode ser usada para qualquer aspecto da vida cotidiana. “Nos hospitais, seria possível saber o tempo de espera, o número de pessoas na fila, tudo baseado nas informações passadas pela rede”, projeta Tomaiz. “Mas, para que isso ocorra, é preciso, antes, que haja uma infraestrutura apropriada.”

Embora esse cenário pareça estar longe de ser uma realidade do sistema de saúde brasileiro, algumas iniciativas parecem promissoras. A prefeitura de Esteio, na Região Metropolitana de Porto Alegre, iniciou em 2014 o projeto Saúde Conectada. Onze unidades básicas de saúde do município receberam um sistema de prontuário eletrônico interligado. Cerca de 80 mil pessoas já estão cadastradas – mais de 90% da população de Esteio. A vantagem?

Imagine a seguinte situação: você é um morador de Esteio e está cadastrado em uma das 11 unidades de saúde participantes do projeto. No entanto, uma emergência médica o obriga a ser atendido em outra unidade. Com o registro unificado, o médico que realizará o atendimento pode ter acesso ao histórico das patologias e exames, facilitando o atendimento. “O sistema interliga todo o município, e a Secretaria da Saúde tem acesso on-line aos registros”, explica Abraão dos Santos Rodrigues, diretor de modernização administrativa da Prefeitura de Esteio. “Em um caso mais grave, que exija uma transferência para uma unidade mais avançada, a secretaria recebe a informação em minutos.”

Com os dados gerados, é possível traçar estratégias para reduzir as filas de espera ou antecipar problemas mais graves. No final de 2015, o município realizou um levantamento com o objetivo de identificar pessoas com dificuldades de locomoção até o centro da cidade para retirar o medicamento – cadeirantes ou idosos, por exemplo. Esses dados foram usados para o programa MedCasa. Nele, um profissional especializado vai até a casa do paciente e orienta sobre o uso do medicamento. “Começamos a perceber que havia pequenas iniciativas que poderiam melhorar a qualidade de vida da população”, diz Rodrigues.

O caso de Esteio é um demonstrativo de como as novas tecnologias podem trazer melhorias significativas à vida dos cidadãos. E isso é só o começo. A consultoria Navigant Research – antiga Pike – estima que a venda de soluções focadas em cidades inteligentes deve saltar dos US$ 8 bilhões atingidos em 2014 para US$ 27,5 bilhões em 2023 em todo o mundo. Essas soluções englobam áreas como Internet das Coisas, redes de sensores – que acompanham aspectos como qualidade do ar, nível de ruído, vibrações dos prédios, qualidade do solo, temperatura e trânsito –, câmeras de monitoramento e sistemas de transporte integrado. O transporte é a “menina dos olhos” das cidades inteligentes. A Navigant estima que os gastos em soluções para o setor vão atingir US$ 5,5 bilhões em 2020 – um crescimento anual de quase 20% até o fim da década. Um investimento essencial para combater um dos grandes gargalos brasileiros.

“A infraestrutura do país não acompanhou o crescimento da área automotiva”, comenta José Antonio Fernandes Martins, vice-presidente da Marcopolo e presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus (Fabus). Essa conclusão vem da análise da frota brasileira, hoje com 89 milhões de veículos, segundo o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). Há 12 anos, eram menos de 40 milhões – um aumento de quase 120% em pouco mais de uma década, período em que a infraestrutura do país evoluiu pouco. “Hoje, temos ônibus que não perdem em nada para os produzidos nos Estados Unidos ou na União Europeia. Com uma boa estrutura de BRT, seria possível aumentar a velocidade comercial para até 30 km/h”, destaca o executivo. “No momento em que o usuário encontrar um transporte coletivo mais eficiente que o automóvel, ele vai começar a pensar em deixar o carro na garagem e trabalhar de transporte coletivo. Isso pode transformar as cidades.”

Conhecida pelos terminais de autoatendimento bancários, a Perto identificou uma carência por esses sistemas no transporte coletivo. “Investimos nessa linha ao percebermos que já tínhamos experiência, produtos e negócios no segmento”, explica Fernando Mitidieri, diretor de software e outsourcing da Perto. “Oferecemos soluções para automatizar a venda. A ideia é ter uma máquina completa, que aceite todos os meios de pagamento e integre os produtos de transporte de uma cidade.”

As plataformas integradas de comércio de tickets não facilitam apenas a vida do cidadão: elas podem ser utilizadas para o planejamento do transporte público. É possível, por exemplo, identificar dias, horários e linhas de pico e, com isso, implementar ações corretivas, como o aumento no número de veícullos ou a abertura de novas linhas. “O caminho é a conveniência. Vários modais atendidos por um mesmo sistema, com possibilidade até de recarregar ou consultar o saldo pelo smartphone, dentro da tendência da mobilidade”, diz o executivo. Hoje, o videomonitoramento do trânsito já é uma realidade em algumas grandes cidades. No futuro, contudo, as decisões serão tomadas de forma autônoma, sem a necessidade de um operador. “Imagine se essas informações fossem repassadas para os carros, que retornariam com outros dados para os sistemas de monitoramento?”, provoca Edson Prestes, professor do Instituto de Informática da UFRGS e líder do grupo Phi-Robotics. Esse sistema – uma espécie de Waze superavançado – poderia ajudar os próprios carros a tomar decisões. E isso está longe de ser coisa de ficção científica – nem uma exclusividade do Google. O Brasil já tem seu próprio projeto de veículo autônomo. Batizado de Carina 2 – acrônimo para a segunda geração do Carro Robótico Inteligente para Navegação Autônoma –, o protótipo identifica faixas de rodagem, monitora outros carros e pedestres, faz curvas e roda a velocidades de até 42 km/h. A expectativa é de que os primeiros modelos comerciais estejam circulando nas ruas, até 2020. “No futuro, as cidades serão grandes organismos robóticos”, comenta o professor Edson Prestes, da UFRGS. “Serão sensores, câmeras de monitoramento, robôs inteligentes, carros autônomos e drones, tudo atuando em conjunto para fornecer serviços de qualidade ao cidadão.”

ENERGIA PARA IR ALÉM

CONHEÇA PROJETOS E EXEMPLOS BEM-SUCEDIDOS DE CIDADES QUE CRESCEM E, AO MESMO TEMPO, CRIAM AMBIENTES MAIS HUMANOS E SUSTENTÁVEIS PARA AS GERAÇÕES FUTURAS

Desde 2004, a cidade sul-coreana de Songdo se transformou na Meca dos amantes da tecnologia e da sustentabilidade. Todo o seu território, localizado nos arredores de Seul, é coberto por internet de alta velocidade. Essa conexão é a base para o avanço das tecnologias implementadas pela gestão municipal. Todos os apartamentos e salas comerciais dispõem de ambientes de telepresença. O sistema permite que os moradores façam consultas médicas, assistam a aulas e participem de reuniões sem sair de casa. “É um programa que resulta em inúmeros benefícios: não carrega o trânsito, desonera o sistema de transporte e aumenta a qualidade de vida das pessoas”, analisa Leonardo Lemes, CEO da Defenda Business Protection Services & Solutions e coordenador do curso de Segurança da Informação da Unisinos. Foram necessários mais de US$ 35 bilhões para colocar Songdo no hall das cidades mais inteligentes do mundo. E esse é um dos caminhos para que as cidades consigam lidar de forma eficiente com a concentração cada vez maior da população em áreas urbanas.

Atualmente, 54% da população mundial vive em cidades. Em 2050, no entanto, o percentual deve chegar a 75%, conforme um levantamento da London School of Economics. Otimizar os sistemas e evitar o desperdício de recursos, por isso, é fundamental. Os desafios não são pequenos. A população crescente e cada vez mais concentrada exige soluções em diferentes áreas e contextos: trânsito, segurança, energia, água, lixo. E a abertura de ambientes que permitam a experimentação controlada são fundamentais para que se possa desenvolver soluções criativas para esses problemas.

É o que afirma o professor Jorge Audy, pró-reitor de pesquisa, inovação e desenvolvimento da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Para ele, as soluções só irão aparecer quando forem criados espaços conhecidos como living lab. “É o conceito de utilizar as cidades como um espaço de experimentação de inovação e de transformação”, explica Audy, que também é presidente da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec).

No Brasil, esse processo ainda engatinha, embora alguns experimentos já pareçam promissores. É o caso da Digicon, desenvolvedora gaúcha de sistemas para controle de trânsito. Foi a empresa gaúcha que implementou no país o inovador Sistema de Controle Adaptativo de Trânsito em Tempo Real (Scats). A tecnologia altera automaticamente os tempos dos semáforos. O processo age de acordo com a proximidade e a quantidade de veículos nos cruzamentos. Para isso, são usados sistemas virtuais que, a partir das câmeras de monitoramento, conseguem identificar o movimento. Segundo a empresa, o Scats, já em operação em cidades como Caxias do Sul, Osasco e Belo Horizonte, tem reduzido congestionamentos e atrasos, e aumentado a velocidade média das vias. Além disso, sua aplicação em outros países diminuiu em 7% as emissões e em 12% o consumo de combustível. As emissões de carbono são justamente um dos maiores desafios do planeta. Nesse aspecto, a cidade de Copenhagen aparece como destaque. A capital dinamarquesa foi eleita bicampeã no ranking de cidades inteligentes da Europa, elaborado pela revista Fast Company. Desde 2005, quando o conceito de carbono zero passou a fazer parte das ações do governo local, Copenhagen reduziu 21% das emissões de carbono. Isso graças a um eficiente sistema de transporte público, formado por ônibus, trens e metrô. Além, claro, de uma ajuda da população. Mais da metade dos pouco mais de meio milhão de habitantes de Copenhagen usam a bicicleta como meio de transporte. Atualmente, a “ecometrópole” emite, em média, 2 milhões de toneladas per capita de carbono por ano. Até 2025, o objetivo é reduzir o índice para 1,1 milhão de toneladas. Por aqui, um estudo da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) revela que os congestionamentos geram prejuízo de R$ 111 bilhões à economia. O dado poderia servir como motivador para os gestores públicos. Mas, ao menos por enquanto, isso não se reverteu em ações concretas. A FGV estima que o tempo de deslocamento dos brasileiros de casa para o trabalho deve aumentar – e pesar ainda mais no bolso. No Rio de Janeiro, deve passar de 54 para 56,8 minutos já em 2018. O gasto pessoal com transporte passará dos atuais R$ 3.644 por ano para R$ 4.075. “O grande problema é que os projetos não têm continuidade. Não há planejamento de longo prazo”, lamenta Hélgio Trindade Filho, diretor de mobilidade urbana da Digicon, que, além do Scats, produz parquímetros multivagas e soluções integradas de bilhetagem.

ENTRE O DIGITAL E O SMART

Especialistas fazem questão de frisar que cidades digitais não são o mesmo que cidades inteligentes. Se a ampla cobertura de conexão não for capaz de integrar os órgãos públicos e a população, dificilmente os problemas serão sanados. “Precisamos ter informações mais ricas para reagir em tempo real”, defende Carlos Henrique Schwartzhaupt, professor e gerente de TI da Feevale. “A conexão gratuita à internet nos espaços públicos possibilitaria a participação das pessoas num sistema que pode alertar sobre um semáforo estragado ou sobre um ônibus atrasado.”

Anderson Tomaiz, gerente sênior de soluções da Huawei Enterprise, tem raciocínio semelhante. Para ele, uma cidade inteligente precisa de ao menos três coisas. Começa por uma conexão banda larga em todo lugar, semelhante ao que a empresa fez no pequeno município paulista de Águas de São Pedro (veja na reportagem anterior). “Lá, implementamos conectividade para 100% das pessoas, não apenas nas residências, mas também nos ambientes públicos”, conta Tomaiz. O segundo passo é a criação de serviços verticais, como a automação do consumo de água e energia. Na cidade, que virou um verdadeiro laboratório tecnológico, alguns postes de luz são equipados com sensores que detectam a presença de pessoas. Se ninguém estiver no local, a potência da iluminação diminui 50%, economizando energia. O terceiro é criar um sistema colaborativo para que os próprios cidadãos possam alimentar as plataformas e trocar informações.

Mas essa interligação também pode ocorrer de forma autônoma. É o que defende a empresa Sigfox, fabricante norte-americana de lixeiras inteligentes. Os produtos fabricados pela empresa contêm sensores que medem o quão cheio está o contêiner e mandam essa informação pela rede. O serviço de coleta evita que as lixeiras transbordem e, ainda, geram economia de tempo e dinheiro – na maioria das cidades, a coleta acontece em rotas pré-programadas, independentemente de a lixeira estar cheia ou vazia. A cidade catalã de Barcelona já mostrou interesse e prometeu instalar 200 unidades em suas ruas. Outros modelos contam com compactadores, aumentando o espaço para o lixo e diminuindo os caminhões nas ruas. Os dispositivos funcionam com painéis solares – outro sistema que vem caindo no gosto dos governos e da população, não só por gerar energia limpa, mas também pela economia. Há sistemas, inclusive, que produzem energia de forma domiciliar. Além de produzir a própria energia, é possível vender o excedente à rede pública – com descontos que chegam a 70% na conta de luz. O programa ainda engatinha no Brasil, mas já pode ser visto em cidades da Europa e da Ásia – atualmente, à frente das novidades smart.

SOLUÇÕES INTELIGENTES

TELEPRESENÇA

Tecnologia que liga dois locais por meio de uma tela de alta definição e internet, permitindo reuniões praticamente presenciais

SEMÁFOROS AUTÔNOMOS

Auxiliado por câmeras e big data, o sistema altera o tempo dos semáforos, reduzindo congestionamentos e emissões de gases poluentes

CICLOVIAS

Cada vez mais comuns, elas incentivam a locomoção por bicicletas, proporcionando tempo, economia e qualidade de vida

LIXEIRA EFICIENTE

Sensores informam à rede de coleta se o contêiner está cheio ou não, evitando que caminhões circulem sem necessidade

MEDIÇÃO BIDIRECIONAL

Sistema domiciliar que produz energia de forma sustentável, por painéis solares, vendendo o excedente para a rede pública

WI-FI NA CIDADE

A conectividade permite a criação de sistemas verticais que podem facilitar o trânsito e a automação do consumo de água e energia

EM BUSCA DE ‘CABEÇA DE OBRA’

A REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA BALANÇARÁ AS ESTRUTURAS DO MERCADO TRADICIONAL. O QUE FAZER PARA ACOMPANHÁ-LA?

Imagine se a sua profissão – ou a maioria dos postos de trabalho em sua área – simplesmente desaparecesse. Ou se a maioria dos negócios que você conhece deixassem de fazer sentido. Por quase 300 anos, o tamanho das economias foi medido pela capacidade de produção de bens. Há, no entanto, um novo mundo emergindo – e balançando os pilares dos mercados tradicionais. Essa nova economia é marcada pelo compartilhamento e pelos bens de consumo colaborativos. E isso muda tudo. “Os processos fabris precisarão cada vez menos de mão de obra operacional e cada vez mais de pessoas qualificadas para a manutenção e monitoramento dos processos e máquinas”, afirma Carlos Artur Trein, diretor regional do Senai no Rio Grande do Sul. Esse processo deve promover níveis de produtividade e eficiência energética sem precedentes. E essa transição épica pode mover o mundo para uma era de produtividade extrema e de custos marginais baixíssimos. “A inovação, a melhoria de processos e a pesquisa se tornarão uma constante para o aumento da eficiência”, aponta Trein.

Imagine se uma empresa identificar uma demanda crescente em um determinado produto. No novo conceito de Indústria 4.0, como é chamado o novo modelo de produção baseado em uma avançada automação industrial, as fábricas poderão utilizar novos conceitos de manufatura, como impressão 3D, para modificar as linhas de produção e atender a ajustes na demanda rapidamente. “O que conta a partir de agora não são mais os meios de produção, mas a experiência do cliente”, destaca Marco Righetti, diretor sênior de tecnologia da Oracle do Brasil.

Esse diagnóstico está alinhado a um recente estudo da consultoria McKinsey. Entre as dez principais tendências de TI para os próximos dez anos, a McKinsey coloca no topo o fator social. “Tecnologias sociais são mais do que um fenômeno de consumo: elas conectam organizações internamente e, cada vez mais, causam impacto fora de suas fronteiras”, indica a pesquisa. Muitas organizações, reforça o estudo, estão apostando na resolução distribuída de problemas. Isso significa mesclar as ideias de

consumidores e experts para impulsionar a geração de produtos inovadores. As tecnologias sociais não estão restritas ao Facebook ou ao Twitter. Elas podem estar inseridas em produtos, mercados e sistemas de negócios, aponta a McKinsey. E essas novas aplicações, que estão balançando mercados tradicionais, como hotelaria e transportes – com Airbnb e Uber, respectivamente –, embasam seu sucesso justamente na boa prestação de serviços. “O Uber tem essa questão do bom tratamento, do preço atrativo, porque o valor do negócio se baseia no serviço, e não na detenção de bens”, diz o executivo. E a nuvem – agora sim – é o grande motor dessa revolução.

A computação em nuvem traz em si dois conceitos importantes. O compartilhamento de recursos por vários usuários dilui custos e otimiza o uso de recursos pelas empresas. A internalização das tecnologias de TI nas empresas exigia investimentos altos e conferia pouca flexibilidade em relação a picos e vales de demanda. Com a popularização e queda do custo da nuvem, abre-se, agora, um espaço para a experimentação – o segundo aspecto importante desse novo momento. “A nuvem é um alavancador de negócios, que permite criar estruturas tecnológicas sem aquisição de grandes servidores e mecanismos. Antes, isso era uma barreira de entrada”, destaca Alexandre Blauth, partner e executivo do Gartner para a América Latina.

Novos horizontes

Alguns serviços como o Netflix e WhatsApp têm colocado em risco a hegemonia das gigantes da telecom – segundo dados divulgados nesta semana pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o setor de TV por assinatura perdeu meio milhão de assinantes de julho a novembro. Para as teles, o motivo é claro: a parca regulamentação dos novos serviços. “A Anatel precisa sair da zona de conforto e está errando por não mexer nas OTTs que estão prestando serviços paralelos às teles”, afirmou Amos Genish, ex-presidente da GVT e atual presidente da Telefônica/Vivo, durante o Futurecom, um dos maiores eventos de TI e telecom da América Latina. Genish se refere ao Over-the-top, ou seja, serviço que roda sobre a rede de banda larga, como Google e Netflix. No entanto, novos marcos regulatórios não serão suficientes para equilibrar a balança. “Quem apostar na boa experiência do usuário e nas soluções, preditivas e convenientes, deve prevalecer”, afirma o executivo. A conveniência, aliás, é um dos pontos centrais dessa nova economia. No ano passado, o Gartner elencou dez tecnologias que seriam estratégicas para a maioria das organizações em 2015. O critério para que uma tecnologia fosse considerada estratégica era seu potencial de impacto nas empresas, nos próximos três anos. O primeiro lugar foi justamente para a conveniência: a computação em qualquer lugar.

Serviços como o Netflix têm uma vantagem clara em relação às operadoras de TV a cabo: podem ser acessados em diferentes locais e dispositivos. Com a disseminação das tecnologias móveis, ganham destaque justamente os serviços que conseguem atender o usuário em diferentes contextos. “Telefones e dispositivos vestíveis agora são parte de uma computação expandida que inclui coisas como o consumidor eletrônico e telas conectadas no trabalho e em espaços públicos”, afirma no estudo o vice-presidente e parceiro do Gartner, David Cearley. “Isso continuará a gerar mudanças significativas da gestão para empresas de TI, ao mesmo tempo em que elas perdem o controle dos dispositivos do usuário.”

Essas transformações exigirão das empresas agilidade no acompanhamento – e, por vezes, antecipação – das tendências. Nesse aspecto, a cloud novamente entra como um componente essencial. Até 2025, a Oracle prevê que 80% das aplicações estarão em nuvem. No formato tradicional de TI, as inovações nos serviços oferecidos aos clientes poderiam levar meses – ou até mesmo anos – para serem implementadas. Agora, segundo Righetti, a tendência é a criação de laboratórios digitais por células de inovação que funcionam como uma startup no modelo Lean – que combina o desenvolvimento ágil de software com plataformas convencionais. “Vemos diversas empresas promovendo laboratórios digitais”, diz Righetti. “São ciclos de inovação que ocorrem em pequenas interações, para que se possa experimentar e aperfeiçoar o modelo de conhecimento de cada cliente.”

A era da inteligência

Associados à nuvem, data analytics e big data permitem a realização de análises profundas voltadas à compreensão do contexto. Esse conjunto forma a pré-condição para o mundo das smart machines – outro segmento que, segundo o Gartner, deve apresentar um crescimento significativo nos próximos anos. Combinadas com algoritmos avançados, as máquinas inteligentes conseguem compreender seu ambiente, aprender por elas mesmas e agir de forma autônoma. Protótipos de veículos autônomos, robôs avançados e assistentes pessoais virtuais já existem – e crescerão, lançando-nos em uma nova era de máquinas de assistência, segundo o Gartner. “A era das máquinas inteligentes vai ser a mais disruptiva na história da tecnologia da informação”, projeta a consultoria. “A mudança provada pela internet e pela automação industrial será considerada pequena quando comparada ao que as cidades inteligentes nos reservam”, afirma Leonardo Lemes, CEO da Defenda Business Protection Services & Solutions e coordenador executivo da graduação em Segurança da Informação na Unisinos. Lemes cita o livro Communicating with the Future (“Comunicação com o Futuro”, inédito no Brasil), de Thomas Frey, para colocar algumas provocações: “Com os carros inteligentes interligados ao sistema de transporte das cidades, qual será o papel do guarda de trânsito?”, questiona o professor.

Essa discussão não é nova. Em 1956, o Nobel de economia Herbert Simon escreveu que as máquinas seriam capazes de realizar qualquer trabalho feito pelos seres humanos. A provocação de Simon, ganhador do Prêmio Turing em 1975 por suas contribuições à inteligência artificial e à psicologia da cognição humana, levaram o professor Moshe Vardi, da Rice University, a aprofundar a questão: se os computadores puderem realizar quase qualquer tarefa humana, o que nós, humanos, vamos fazer? Uma pista pode ser encontrada na pesquisa realizada em 2013 por Carl Benedikt Frey e Michael Osborne, de Oxford.

O objetivo dos pesquisadores era identificar qual o risco de algumas profissões serem submetidas ao que eles chamaram de computerisation – a substituição de seus trabalhos por máquinas. Algumas, não: 702. A pesquisa, que se limitou ao mercado norte-americano, descobriu que quase metade das profissões atuais têm alto risco de computerização. E a probabilidade de uma atividade ser impactada pelo fenômeno é inversamente proporcional à escolaridade. Ou seja, quanto menor o nível de estudo, maior é o risco.Setores como transporte, manufatura de produção, construção e administração de escritórios serão os mais afetados. O setor de serviços também deve ser impactado: empregadas domésticas, caixas de supermercado e operadores de telemarketing poderão ter seus serviços substituídos por máquinas autônomas. Logo, há um novo desafio: como educar a massa de trabalhadores que não está preparada para esse novo mercado? Em países como o Japão, a automação robótica pode ajudar a atenuar a defasagem deixada pelo crescimento populacional negativo e pelo aumento da média de idade dos nipônicos. Mas países menos desenvolvidos e carentes de postos de trabalho em tarefas intelectuais podem ter um problema significativamente maior. No Rio Grande do Sul, há mais de 600 mil motoristas profissionais habilitados, segundo dados do Detran-RS. Quando os veículos autônomos forem implementados em larga escala, o que fazer com a massa de trabalhadores que ficará sem função? “Isso envolve a busca de uma nova educação para uma nova sociedade”, diz o professor Jorge Audy, pró-reitor de pesquisa, inovação e desenvolvimento da PUCRS.

Para Audy, será preciso uma mudança radical de conceitos. As próprias terminologias empregadas nas empresas, como capital humano ou mão de obra, são historicamente associadas à produção de bens e aos trabalhos braçais. “Estamos tão arraigados com uma economia do século 19 que continuamos falando em mão de obra. O que precisamos é de cabeça de obra, inteligência”, diz Audy, que também é presidente para a América Latina da Associação Internacional de Parques Tecnológicos e Áreas de Inovação (Iasp, sigla em inglês). Surpreendentemente, essa equação pode ser resolvida pela própria tecnologia. Usando games e material didático imersivo de matemática, a DreamBox Learning, empresa especializada no ensino de matemática on-line, criou algoritmos que adaptam a experiência de aprendizado para cada necessidade do estudante. E a brilliant.org permite que estudantes promissores em matemática e física definam seu próprio ritmo de estudo. Há, ainda, os chamados cursos on-line abertos e massivos (MOOCs, sigla em inglês), que oferecem aulas de nível global usando redes sociais, vídeos e interações entre os alunos. “Temos esse desafio de desenvolver uma educação para essa nova sociedade”, diz Audy. “Não podemos continuar ensinando como no século 19. Precisamos fazer a transição para uma educação em sintonia com o seu tempo. O tempo de hoje, e não de ontem.”