A vanguarda da inovação industrial

Qualidade, agilidade e custos menores: eis o tripé de vantagens que vem justificando a automatização de processos no chão de fábrica

Pouca gente sabe que a palavra robô tem origem no termo robota, que no idioma tcheco significa literalmente “trabalho forçado”. A popularidade da expressão é atribuída ao dramaturgo Karel Capek, que na década de 1920 escrevia peças de teatro nas quais narrava os esforços de cientistas para construir máquinas robustas e obedientes, capazes de atuar a serviço da humanidade com eficiência e segurança. Fora da ficção, porém, a robótica tem outros significados. É sinônimo de eficiência e modernidade – e uma porta aberta para ganhos de produtividade que podem revolucionar setores inteiros.

“Ela ajuda a gerar produtos de melhor qualidade, que são fabricados com menos custos e em tempo menor”, afirma o professor Edson Prestes, do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), um dos organizadores do livro Robótica Móvel, lançado pela editora LTC em outubro de 2014. No processo produtivo, as vantagens dos investimentos em inovação abrangem desde ganhos em precisão e produtividade até o aproveitamento da versatilidade das máquinas. Os braços de um só robô podem realizar inúmeras tarefas na linha de montagem – desde soldagens até pinturas.

Para Vinícius Curcio, professor do curso de Tecnologia em Automação Industrial da Universidade Estadual do RS (Uergs), eleito o melhor do país em sua área, a discussão acerca da necessidade ou não da automação no setor produtivo está superada. “O processo é irreversível. A tendência é de que não apenas as companhias de grande porte, mas também as pequenas e médias trabalhem com algum grau de automatismo”, diz ele. A regra vale para quase todos os setores da atividade econômica. Parceiro técnico de AMANHÃ no desenvolvimento dos oito fascículos da série Rio Grande em Rede, o Gartner não só corrobora essa visão como vai além. Líder global em pesquisa e aconselhamento na área da TI, a empresa prevê que a tecnologia vai se tornar cada vez mais essencial nas estratégias de desenvolvimento das indústrias. Assinado por Don Scheibenreif, Dale Hagemeyer e Steven Steutermann, o documento mostra que, em um cenário de baixo crescimento, os fornecedores diretos dessas indústrias tendem a se comportar como empresas de tecnologia. Isto é: tendem a adotar ferramentas para atender às demandas dos consumidores finais. Assim, os usuários de uma determinada marca de veículo, por exemplo, terão acesso facilitado a peças de reposição e a outros serviços.

Na raiz dessa transformação está o conceito de “Indústria 4.0”. Introduzido pela primeira vez em 2011, durante a tradicional Feira de Hannover, na Alemanha, ele prevê a descentralização do controle dos processos produtivos das indústrias. Com sistemas e dispositivos de controle integrados, as cadeias de produção e logística passam a funcionar na mesma lógica da “internet das coisas”. Isto é, diferentes processos passam a “conversar” entre si, elevando o nível de eficiência e sinergia – muitas vezes, de forma totalmente automatizada. O resultado é o surgimento de redes de manufatura flexíveis, capazes de responder rapidamente à demanda por inovações e produtos customizados.

No parque industrial do Rio Grande do Sul, já podem ser sentidos os primeiros ventos dessa revolução. Na Celulose Riograndense, em Guaíba, a automação tomou conta de praticamente todo o sistema de controle do processo de produção. Não faz muito, o monitoramento de variáveis como temperatura, pressão e concentração de elementos químicos era feito através de amostras coletadas em intervalos que podiam oscilar de duas a quatro horas. Nesses casos, as amostras precisavam ser enviadas até um laboratório para se apurar se tudo estava de acordo com os padrões desejados. Hoje, esse controle é feito online, por meio de instrumentos que se localizam dentro das tubulações.

O diretor industrial da empresa, José Wilhelms Ventura, usa uma alegoria para explicar o que está ocorrendo no chão da fábrica: “No passado, estávamos na situação de um piloto de avião com uma cortina escura em frente ao parabrisa. Essa cortina se abria de quatro em quatro horas. Atualmente, estamos voando com o parabrisa sempre aberto”, explica. Os sistemas de monitoramento da Celulose Riograndense – companhia pertencente ao grupo chileno CMPC – seguem à risca a recomendação de William Edwards Deming (1900-1993), um dos principais gurus da qualidade dos Estados Unidos no século passado: o que não é medido não pode ser gerenciado. “Sem mensurar, o processo vira uma loteria. O sistema antigo dependia mais do de operadores experientes e menos de dados objetivos”, observa Ventura.

O modelo automatizado de controle possibilita uma operação mais segura e menos onerosa. Ao mesmo tempo, o produto final se torna mais homogêneo e, portanto, de melhor qualidade. Além disso, o investimento tecnológico representa também uma mudança de paradigma: “As novas ferramentas atendem a uma necessidade de desempenho social e ambiental, honrando a responsabilidade da empresa perante a comunidade”, diz Ventura.

Outra gigante que embarcou na onda da automação é a Yara Brasil Fertilizantes. Desde abril de 2014, quando ampliou sua capacidade instalada de 450 mil para 700 mil toneladas por ano, com investimentos de R$ 55 milhões, a misturadora da companhia em Porto Alegre vem redesenhando processos como descarga, armazenamento, mistura, ensacamento e carregamento. A nova tecnologia, conhecida pela sigla FFS, do inglês Form, Fill and Seal (Forma, Enche e Sela), assegura maior nível de automação no carregamento, ensaque e transporte da carga para o caminhão.

Em novembro do ano passado, a experiência piloto da Yara foi estendida à unidade de Sumaré (SP), com aportes de R$ 115 milhões. Além do ganho de produtividade, o novo modelo proporciona mais segurança no manuseio dos produtos. De acordo com Sérgio Castanheiro, gerente regional de operações da Yara, os equipamentos importados da Itália permitem colocar em prática, aqui, soluções já adotadas com sucesso na Europa. “Desse modo, cumprimos o compromisso de contribuir para o desenvolvimento do setor de fertilizantes no Brasil, um país cuja economia vem sendo sustentada pelo agronegócio”, destaca.

Além de fomentar a economia no campo, a tecnologia está ajudando a ordenar a conturbada vida urbana. Uma das empresas precursoras em nível nacional em sistemas automatizados de controle de semáforos é a Digicon. Depois de instalar os equipamentos em várias capitais brasileiras, a fábrica de Gravataí começa a conquistar território em cidades de médio porte, como Canoas e Passo Fundo. Os semáforos inteligentes fazem a medição da quantidade de veículos por meio de câmeras e, com isso, ajustam-se automaticamente às condições do tráfego, informa Hélgio Trindade Filho, diretor da Divisão de Mobilidade Urbana do grupo.

A linha de produtos da Digicon abrange também os sistemas de bilhetagem eletrônica para transporte urbano. Na década de 1990, o que havia de mais adiantado nessa área eram os bilhetes com tarja magnética, fáceis de danificar (em contato com água, por exemplo) ou fraudar. Outro inconveniente é que só podiam ser usados uma vez pelo passageiro – depois, eram descartados. A evolução para os bilhetes eletrônicos possibilitou acumular as passagens a que o usuário tem direito por períodos prédeterminados, como 30 dias.

E os sistemas mais avançados, com câmeras acopladas aos instrumentos validadores, permitem o reconhecimento facial mediante a comparação da imagem com fotos previamente cadastradas dos usuários. “Com isso, há maior controle de isentos ou daqueles com direito a descontos, como idosos e estudantes, o que reduz a evasão e contribui para diminuir o custo da passagem”, salienta Trindade Filho. Entre os clientes da Digicon estão os metrôs de São Paulo e do Rio de Janeiro, além dos sistemas de transporte de Recife (PE), Campo Grande (MS), São José do Rio Preto (SP) e Chapecó (SC).

A tecnologia de ponta da Digicon chegou também ao controle de acesso em prédios de indústrias, lojas, condomínios particulares, estádios de futebol e órgãos públicos, entre outros. O avanço mais recente no setor é a identificação do visitante através dos pontos da íris: “Nem gêmeos têm olhos semelhantes”, afiança João Luís Diniz, diretor da Divisão de Controle de Acesso da empresa. “Assim, não se fica à mercê de uma avaliação subjetiva do porteiro para liberar o ingresso da pessoa”, acrescenta. Além disso, evita a possibilidade do “jeitinho” – afinal, ninguém discute com uma máquina. Com crescimento de 20% ao ano, os produtos da Digicon para controle de acesso são exportados para Estados Unidos, Europa e América Latina.

Outra empresa que optou pela automação é a Cavaletti, de Erechim (RS) – uma das primeiras no segmento moveleiro a adotar um sistema robotizado no chão da fábrica. Atualmente, são sete robôs de soldagem, iguais aos que ajudam a produzir automóveis de última geração. A alta tecnologia na produção das cadeiras da Cavaletti está presente ainda no corte a laser de metais, realizado com maquinário similar ao da indústria aeroespacial. A substituição do sistema de pintura líquida, altamente poluente e nocivo, pela pintura em pó é outra demonstração de vanguarda. O processo de atualização tecnológica é propiciado por investimentos permanentes, pela busca de conhecimento e pela análise de novas tendências do mercado. “Estamos conectados com tudo o que acontece na Europa, nos Estados Unidos, no Japão”, observa Gilmar José Cavaletti, presidente executivo da empresa de Erechim.

No Rio Grande do Sul, há várias outras referências em automação e robótica. Uma delas é a AEL Sistemas, que se destaca pela capacidade de desenvolver equipamentos de defesa customizados, atuando em sinergia com grandes centros de pequisa e desenvolvimento nos Estados Unidos, na Europa e em Israel. Outro benchmark é a planta da General Motors, em Gravataí. Inaugurada em 1997, a unidade ostenta o maior índice de automação entre as operações da montadora no país. São cerca de 750 robôs de última geração que atuam em todas as etapas de fabricação, especialmente naquelas que oferecem risco ao funcionário, como a soldagem e a estamparia. O resultado é expressivo: na média, a GM de Gravataí produz 125 veículos por trabalhador. Na unidade de São Caetano do Sul, por exemplo, o índice é de 21 carros por trabalhador a cada ano.

Atentas a essas referências, algumas universidades gaúchas já começam a criar cursos para formar especialistas na área. Um dos exemplos é a Ulbra, que hoje oferece uma graduação em Automação Industrial. Em seis semestres, o programa dá ao egresso a oportunidade de “propor intervenções nos processos automatizados de fabricação” em diversos tipos de empresas – de desenvolvedoras de hardware a montadoras de veículos. E a Ulbra não é a única: também UFRGS, PUCRS e outras grandes universidades do Estado contam com opções de graduação e pós-graduação no setor.

A vez das pequenas

Engana-se, porém, quem imagina que a alta tecnologia é exclusividade de grandes companhias como a GM. As empresas que nascem com o DNA da inovação quase sempre surgem da experiência de jovens estudantes, criativos e empreendedores. O problema é que, no Brasil, o estímulo para projetos inovadores perde vigor à medida que as primeiras tentativas não atingem resultados imediatos. É o que constata Roberto Sirotsky, sócio-diretor da agência 3yz, de Porto Alegre. Recentemente, ele conheceu novos ambientes de inovação ao estudar na Singularity University, universidade mantida pela NASA na Califórnia. “Nos Estados Unidos, se a startup não dá certo no primeiro momento, isso não é considerado um fracasso. O erro faz parte do aprendizado. Já no Brasil, se o projeto não deslancha, o empreendedor é visto como fracassado”, avalia.

Um exemplo bem-sucedido de startup é a Instor Projetos e Robótica. O projeto surgiu em 2004, quando os fundadores Giovani Geremia e Miguel Serrano faziam pesquisas no Laboratório de Metalurgia e Física (Lamef), da Escola de Engenharia da UFRGS. Lá, desenvolveram um protótipo de robô para realizar testes de equipamentos da Petrobras. A estatal gostou do que viu e os pesquisadores foram incentivados a prosseguir com o trabalho.

Em 2008, eles se inscreveram no processo seletivo de incubação do Centro de Empreendimentos em Informática da UFRGS. Formalmente criada em julho daquele ano, a Instor passou a desenvolver vários equipamentos de automação e robótica para a Petrobras. Entre eles, um scanner robótico que utiliza ultrassom para medir a espessura das paredes dos tubos de petróleo e gás em busca de sinais de corrosão. Hoje, já fora da incubadora, a companhia agregou ao portfólio clientes como a Braskem e a Technip (multinacional francesa que produz dutos flexíveis para retirada de petróleo do fundo do mar). A Instor atua também nos segmentos de segurança pública e privada e mineração, além de desenvolver projetos sob encomenda. “Neste caso, o cliente chega até nós com um problema e nós desenvolvemos a solução de robótica para resolvê-lo”, relata Geremia.

Aparentemente, não há limite para a expansão da automação e da robótica no mundo corporativo. Em alguns casos, a realidade deverá superar a ficção. Exemplos? Surgidos como peças de literatura no século 19, os exoesqueletos já começam a ser usados como ferramentas para ampliar a capacidade física de quem os veste mediante o uso de metais resistentes e processos de engenharia. A armadura robótica tem uma infinidade de aplicações – na área da saúde hospitalar, ajuda enfermeiras a realizar procedimentos em pacientes com mais de 100 quilos. “Parece a roupa do Homem de Ferro”, diverte-se Edson Prestes, da UFRGS.

Como tudo na vida, a robótica poderá servir tanto para o bem quanto para o mal. Na fronteira das duas Coreias, robôs que fazem a vigilância 24 horas por dia não titubeiam em disparar contra alvos suspeitos. No Afeganistão, as tropas dos Estados Unidos usaram drones para matar civis. Em contrapartida, observa Prestes, máquinas voadoras estão prontas para conduzir água, comida e medicamentos até regiões remotas do planeta, ou para contribuir no combate de epidemias como a do Ebola. O professor da UFRGS é membro do conselho consultivo do RAS Special Interest Group on Humanitarian Technology, organismo formado por cerca de 40 especialistas que buscam desenvolver a robótica para fins humanitários. Uma coisa é certa: “A revolução está apenas começando. Nos próximos anos, o impacto das novas tecnologias ficará cada vez evidente”, sentencia Roberto Sirotsky, da agência 3yz.

soluções no caminho do robô

mecanismos de crédito como o ‘inova pequena empresa’ e uma linha especial do bndes fomentam o desenvolvimento de projetos inovadores

O caminho que conduz à inovação tem seus obstáculos, como a dificuldade de captar financiamentos que viabilizem a atualização tecnológica. Uma forma de superar entraves são os programas de incentivos. Outra, se a empresa ainda engatinhar, é buscar um parque tecnológico.

É o que aconteceu com a Instor Projetos e Robótica, que em 2008 foi admitida no Centro de Empreendimentos em Informática da UFRGS. Depois, contou com apoio do Programa de Adensamento da Cadeia Produtiva do Petróleo, Gás e Energia do RS, do Sebrae/RS, e participou de iniciativas de fomento, como o Prime – Primeira Empresa Inovadora (Finep), o Inovapers (Sebrae-RS) e o edital do Pré-Sal/Finep. “Com isso, estruturamos a empresa, acumulamos experiências e ganhamos visibilidade”, diz Giovani Geremia, sócio-diretor da Instor.

Já a Digicon foi contemplada com recursos do Finame, programa do BNDES que facilita a aquisição de máquinas e equipamentos de fabricação nacional. O banco possui também um programa focado em inovação, que disponibiliza linhas de crédito com taxas mais competitivas do que as praticadas pelos agentes privados – com percentual de 6,5%. Implantado em 2007, o BNDES Inovação começou com aportes de R$ 480 milhões. Em 2011, o valor já era de R$ 3,1 bilhões e, em 2014, chegou perto de R$ 6 bilhões. A concessão do benefício é sujeita à apresentação de um plano de negócios explicitando as inovações que serão adotadas em produto, processo e marketing. “Esse tipo de iniciativa é uma prioridade estratégica do banco”, afirma Rômulo Bastos Dias, gerente do Departamento de Relacionamento com Agentes Financeiros e outras Instituições do BNDES.

Aliás, o BNDES não é o único. Na região sul, o BRDE oferece um programa de financiamento chamado BRDE Inova, com linhas de crédito que contemplam empréstimos de longo prazo com juros e tarifas diferenciados. O empresário Ricardo Felizzola, porém, adverte que a excessiva dependência da subvenção oficial cria um gargalo para a inovação. “Temos de atrair a poupança privada, que tornará as ações de fomento mais abrangentes”, diz ele, que é CEO da HT Micron. Nos Estados Unidos, os investidores privados são estimulados a injetar recursos em companhias inovadoras “É melhor que deixar o dinheiro guardado. Se duas ou três derem certo, já compensa as outras dez que podem quebrar”, complementa Felizzola, que também é coordenador do Conselho de Inovação e Tecnologia da Fiergs.

o retorno da Inovação

Responsável pela coordenação executiva da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), movimento liderado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) com o intuito de fortalecer e ampliar a inovação no Brasil, o Instituto Euvaldo Lodi (IEL) prepara as empresas brasileiras para ambientes de alta competitividade, oferecendo soluções em gestão corporativa e educação empresarial. Entre as ações desenvolvidas, está o acompanhamento da evolução de 45 empreendimentos gaúchos contemplados pelo primeiro edital do Inova Pequena Empresa (veja na página anterior), programa fruto da parceria entre Fiergs, Sebrae/RS, Finep e Fapergs. Executado entre 2009 e 2012, o projeto injetou R$ 15 milhões nas companhias para estimular iniciativas de inovação em áreas como tecnologia da inovação, meio ambiente, eletroeletrônica, calçados, agronegócio e saúde, entre outras. Os resultados do estudo foram relatados, em março de 2014, à diretoria da Fiergs pelo Conselho de Inovação e Tecnologia da entidade. Das 45 pequenas empresas beneficiadas, um contingente superior à metade (25) aumentou em mais de 20% o faturamento. Quatorze ampliaram o quadro de pessoal e 12 lançaram novos produtos ou realizaram melhorias naqueles que já existiam. “Os dados mostram que o investimento em inovação oferece excelente retorno”, afirma Elisabeth Urban, superintendente do IEL-RS. O edital mais recente do Inova Pequena Empresa está em andamento. Após a contratação, em novembro de 2014, mais de 50 empresas receberão R$ 25 milhões para ações inovadoras. A exemplo da edição anterior, os resultados também serão mensurados pelo IEL-RS.

Homem versus máquina

trabalhos repetitivos, insalubres e perigosos são os que mais tendem a ser executados por máquinas em futuro próximo

Nos primórdios da era industrial, no começo do século 19, houve quem acreditasse que o direito ao trabalho estava seriamente em risco diante da crescente utilização de máquinas no parque industrial da Europa. Há relatos de invasões de fábricas com o intuito de destruição de equipamentos em cidades da Inglaterra como forma de protesto de trabalhadores que sentiam seus empregos ameaçados. Quase 200 anos depois, o impacto da automação e da robotização do processo de produção volta a assombrar parte da classe trabalhadora.

Em 2013, um estudo de Carl Frey, pesquisador da Universidade de Oxford, chegou a prever que 47% dos empregos nos Estados Unidos estariam prestes a ser transferidos para robôs. No ano seguinte, um novo levantamento da instituição ressaltou que 35% dos postos de trabalho da Inglaterra também corriam o risco de automatização nas próximas duas décadas. Ao avaliar o futuro de 702 ocupações, a análise concluiu que, em quase metade delas, as máquinas deverão assumir a força de trabalho. Os robôs serão usados nas mais variadas áreas, da indústria eletrônica à de alimentos, passando pela química e pela de plásticos. Hoje, o setor que mais utiliza a robótica é a indústria automobilística. Para se ter ideia, na década de 1980 as montadoras empregavam 80 trabalhadores a cada mil veículos produzidos. Agora, bastam 35.

Não é preciso ir tão longe. Nos mesmos anos 1980, os bancos empregavam perto de 800 mil pessoas no Brasil. Hoje, absorvem menos da metade desse contingente, embora os serviços oferecidos aos clientes tenham se expandido consideravelmente. Notícias recentes alimentam ainda mais os temores das entidades representativas dos trabalhadores. É o caso da Foxconn, considerada a maior fabricante de componentes eletrônicos e computadores do mundo, que pretende “contratar” um exército de 1 milhão de robôs para ocupar o lugar dos trabalhadores. São máquinas preparadas para executar tarefas como pintura, montagem e soldagem.

Pelo andar da carruagem, muitos profissionais que tradicionalmente fazem parte do cenário de nossas cidades estão em vias de sumir da paisagem. Alguns municípios brasileiros, como Campo Grande (MS), já utilizam linhas de ônibus sem cobrador. “Acredito que esta seja uma tendência para o futuro, na medida em que a automação facilita cada vez mais o pagamento da passagem sem a utilização de dinheiro”, aponta Hélgio Trindade Filho, diretor da Divisão de Mobilidade Urbana da Digicon. Entre as vantagens, está a diminuição das chances de assalto. Na capital paulista, apenas 8% dos usuários de ônibus pagam com moeda corrente – os demais utilizam cartões eletrônicos, recarregáveis pelo celular ou pela internet. “Certamente, existem questões sociais que precisam ser consideradas, mas é razoável manter uma pessoa trabalhando durante horas no ônibus em função de menos de 10% da demanda? Em termos estritamente operacionais, a função do cobrador se torna efetivamente desnecessária”, salienta.

Vinícius Curcio, da Uergs, acredita que os trabalhos repetitivos, insalubres ou perigosos, além das atividades tediosas ou em locais de difícil acesso, são as que mais tendem a ser executadas por máquinas em futuro próximo. “As questões de saúde e segurança são prioritárias. Em nível mundial, cresce a utilização de robôs em trabalhos que envolvem risco à vida humana”, confirma Edson Prestes, pesquisador do Instituto de Informática da UFRGS. “Por que contratar uma pessoa para jogar inseticida na plantação, se a máquina pode fazer isso sem perigo de contaminação?”, questiona. O presidente executivo da Cavaletti Cadeiras Profissionais, Gilmar José Cavaletti, está de pleno acordo: “A automação veio para ajudar o funcionário a produzir mais, com mais qualidade e, principalmente, com menos esforço, preservando a sua saúde”. Na área de segurança, a automação avança com robôs que têm rodas móveis e são equipados com microfones, alto-falantes, câmeras, scanners a laser e sensores, que vigiam o patrimônio de empresas na Califórnia (EUA). Eles estão programados para perceber barulhos estranhos e movimentos incomuns. A perspectiva é de que patrulhem shoppings, indústrias, universidades, hotéis, estádios, portos, aeroportos e propriedades rurais com a meta de reduzir em 50% os índices de criminalidade.

Entre os especialistas, há o consenso de que as atividades que envolvem o uso de intuição e criatividade – como engenharia de software, arquitetura, publicidade, educação, artes e odontologia, entre outras – serão as mais preservadas. Isto é, onde o fator humano é essencial, os robôs perdem espaço. Entretanto, mesmo nessas áreas a robótica está se intrometendo – ainda que por uma boa causa: “Robôs já são chamados para dar aulas em áreas remotas ou nas quais existe carência de docentes. Eles são operados por um professor a distância”, diz Prestes, da UFRGS.

Apesar de tudo, Roberto Sirotsky, da agência 3yz, não encontra razões para pessimismo. E o motivo é simples: ao mesmo tempo em que uma infinidade de ocupações está com os dias contados, novas atividades serão criadas e outras já existentes ganharão valorização. “A inteligência artificial e a robótica proporcionarão muitas oportunidades”, garante ele. Sérgio Castanheiro, gerente regional da Yara Brasil Fertilizantes, acrescenta que o trabalhador se sentirá desafiado a entender como funciona o sistema mais sofisticado para conseguir operá-lo. “Neste caso, a empresa deve atuar como facilitador para o desenvolvimento do profissional.”

Em alguns setores, a maior qualificação dos profissionais já é uma realidade. José Wilhelms Ventura, diretor industrial da Celulose Riograndense, lembra que na década de 1990 as fábricas de celulose precisavam trazer especialistas europeus para manter os equipamentos em operação. Hoje, as escolas do Brasil estão formando técnicos familiarizados com as novas ferramentas, que podem inclusive treinar o restante do pessoal. A própria evolução das novas ciências deverá abrir outras frentes de atuação. Edson Prestes, da UFRGS, observa que poucas empresas desenvolvem atualmente a robótica no Brasil. “Por isso, há uma mata virgem a ser explorada”, diz ele, apostando que as novas demandas se abrirão principalmente para as engenharias.

Na visão de Ricardo Felizzola, da HT Micron, a discussão sobre os impactos negativos da automação no mercado de trabalho deveria estar ultrapassada. “Ninguém duvida que o serviço do Easy Taxi tenha diminuído a quantidade de gorjetas do porteiro do hotel, mas isso significa que ele não tem alternativa exceto buscar uma qualificação maior para se adequar ao mercado”. Para ele, assim como vai acontecer com certas profissões, algumas empresas também estão em vias de desaparecer. “No passado, os fabricantes de máquinas de escrever foram afetados com a aparição do computador. Não faz muito, as empresas que produziam softwares para o MSN também ficaram para trás. A evolução é cada vez mais rápida. Aquilo que era revolucionário há três anos hoje ficou obsoleto. É o mundo andando para frente”, conclui.

Mão de obra qualificada

Um dos diferenciais competitivos do Rio Grande do Sul para atrair investimentos que envolvem automação e robótica é a qualidade da mão de obra. “A formação nas universidades gaúchas é destaque nacional”, frisa Ricardo Felizzola, da HT Micron. Tanto é verdade que o curso de Tecnologia em Automação Industrial da Universidade Estadual do RS (Uergs) foi considerado o melhor do Brasil em sua área pelo MEC, após a realização do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) de 2011. No segmento, foi também o único índice 5, a nota máxima da prova. Esse título de campeão continua valendo, já que o próximo ranking será divulgado apenas no final de 2015. A cada ano, a lista de espera apresenta quase 600 alunos que aguardam a chance de ocupar uma das 40 vagas disponíveis. A maior parte já trabalha e busca no curso tecnólogo (com duração de três anos e meio) mais qualificação para progredir na carreira. Há também aqueles que já se lançaram no mercado como empreendedores. “Embora tenha estreita relação com o mercado de trabalho, o curso se destaca também pelo aprofundamento em temas teóricos complexos”, aponta Vinícius Curcio, que coordenou o curso até abril deste ano, quando passou a exercer o cargo de diretor regional do Campus 1 da Uergs.

a Cadeia é global

A automação está mudando a forma de relacionamento entre pessoas, empresas e fornecedores

As novas tecnologias afetam de diversas maneiras as relações das organizações com seus clientes e fornecedores. No primeiro caso, o exemplo do novo modelo de distribuição da gigante do comércio eletrônico Amazon é emblemático: as entregas já estão sendo feitas por robôs, incluindo drones, com um enorme grau de precisão. “Aquilo que imaginávamos como marca de um futuro próximo ou distante está acontecendo agora. Aliás, é para já”, resume Roberto Sirotsky, sócio-diretor da agência 3yz. O Gartner prevê que, até 2018, pelo menos um quarto das indústrias líderes na fabricação de bens de consumo contarão com ferramentas para abastecer automaticamente seus canais de distribuição, assegurando o pleno atendimento da demanda sem risco de sobrecarregar os estoques. Mas o potencial da inovação também aparece em pequenas inovações no dia a dia das empresas. Um exemplo são os provadores virtuais em lojas de roupas. A Face Cake, empresa sediada em Los Angeles, nos Estados Unidos, desenvolveu o modelo de “camarim virtual”, no qual o usuário fica diante de uma câmera semelhante às usadas pelos novos jogos eletrônicos e escolhe as peças para “vesti-las” na tela, com direito a compartilhar a prova com os amigos pelas redes sociais.

Com tamanho grau de sofisticação, a tendência é de que exista uma customização cada dia maior dos produtos, mantendo uma elevada sintonia com as preferências do consumidor. Ao menos é assim que pensa Vinícius Curcio, professor da Uergs. “Os processos tendem a se automatizar em toda a cadeia produtiva, desde o chão da fábrica até o cliente final. As novas tecnologias abrem ainda mais essas possibilidades. Cabe às empresas aproveitarem esse tipo de facilidade”, observa ele.

Na visão de Sérgio Castanheiro, gerente regional de operações da Yara Brasil Fertilizantes, os clientes e fornecedores já entendem que se trata de um caminho sem volta, especialmente em função dos ganhos de segurança e produtividade. “A carga padronizada que desembarca na fazenda facilita a contagem do recebimento. O comprador bota o olho e já sabe quanto terá no estoque”, avalia. “Para as cooperativas que compram grandes volumes e os distribuem para seus próprios clientes, o controle de estoque e entrega também é bem maior”, acrescenta Castanheiro.

Outro ponto que não pode ser deixado de lado diz respeito à durabilidade do produto, que aumenta em função das melhores condições de armazenamento. Na Yara, a selagem automática aperfeiçoa o acondicionamento. “É como se o produto recém tivesse saído da planta industrial”, afirma o executivo. No caso dos fornecedores, eles passam a investir em formação e tecnologia, porque percebem que esta é a tendência de toda a cadeia. “Desse modo, eles se transformam em parceiros do negócio e atuam juntos conosco no desenvolvimento de produtos”, acrescenta o representante da Yara Fertilizantes.

O diretor industrial da Celulose Riograndense, José Wilhelms Ventura, estima que sistemas mais eficientes de medição avalia com mais rigor a qualidade dos insumos e obriga os fornecedores a também investir em processos mais qualificados. “Aqueles que fornecerem insumos de maior qualidade serão mais valorizados. Afinal, o negócio funciona como uma rede. Desse modo, toda a cadeia é qualificada”, assegura Ventura. De outra parte, a internacionalização dos negócios contribui para fomentar ações inovadoras, assegura Ricardo Felizzola, da HT Micron: “É preciso pensar que, hoje, boa parte das empresas possui clientes e fornecedores globais. Muitas das nossas empresas já não estão fabricando produtos nacionais. Na verdade, fabricam produtos internacionais no Brasil, o que é diferente. As exigências de maior competitividade em nível global qualificam toda a cadeia”, destaca.