A salvação (além) da lavoura

Quando se pensava que o Rio Grande do Sul havia chegado ao fundo do poço, descobriu-se que havia mais a piorar. No ano passado, até mesmo a agricultura, principal salvaguarda da economia estadual, não resistiu às variáveis climáticas e registrou queda na produção, somando-se aos demais setores na retração de 3,1% do PIB gaúcho – o terceiro recuo seguido. Um retrato dessa realidade é o fato de que as 100 maiores empresas gaúchas tiveram desempenhos inferiores aos de 2016 em cinco dos sete indicadores avaliados, inclusive o VPG. Mas, como não há mal que sempre dure, 2017 tem dado motivos para o Estado ao menos respirar aliviado. Com uma conjuntura nacional mais favorável, a atividade econômica fechou o primeiro semestre do ano avançando 2,1%, com a melhora do desempenho do comércio, serviços e indústria de transformação. Para completar a boa nova, as exportações cresceram 4,8% entre janeiro e julho, com a indústria mostrando um incremento do valor embarcado de 6%. Assim como Paraná e Santa Catarina, o Rio Grande do Sul foi fortemente beneficiado pelo aumento das importações argentinas de máquinas e equipamentos e, principalmente, veículos. O país vizinho voltou a ser o segundo principal destino das exportações gaúchas, lugar que vinha sendo ocupado pelos Estados Unidos.

Entre abril e junho, o Grupo Randon viu sua receita líquida atingir R$ 730,1 milhões, avanço de 4,8%  na comparação  com  o mesmo período de 2016, graças à alta da produção de caminhões  no Brasil. Para o economista da Fundação de Economia e Estatística (FEE), Jéfferson Colombo, a indústria de transformação, que desde o final de 2016 tem apresentado crescimento, é um ator importante para a consolidação da recuperação da economia gaúcha. Colombo afirma que o setor, graças ao seu potencial de geração de emprego, tem um impacto positivo no aumento de renda e na confiança do trabalhador quanto à manutenção do emprego. “Isso tende a se refletir positivamente no consumo das famílias, o que favorece o nível de atividade do setor de serviços e comércio”, explica. Ele ainda acredita que o Rio Grande do Sul entrará em 2018 com o respaldo dos indicadores deste ano, que mostram a economia ingressando “em uma fase cíclica de expansão”.

Porém, embora 2017 esteja revertendo a trajetória descendente, a gravidade da recessão enfrentada nos últimos anos aponta para uma recuperação lenta e gradual. Além disso, estimativas da Emater-RS mostram que a próxima a safra de grãos deverá ser 10% menor que a deste ano, o que pode desacelerar a retomada. Seja no campo ou no chão de fábrica, a peleia gaúcha está longe de terminar.