Nem sempre o campo salva

TRIGO LAGOA VERMELHAAté o agronegócio tem registrado quedas na produção este ano e não conseguirá amenizar o recuo do PIB do Rio Grande do Sul como em 2015

Pode até soar estranho, mas 2015 foi um ano especial para o Rio Grande do Sul. Não foram poucas as empresas listadas entre as 100 maiores do Estado que desfrutaram da boa combinação entre clima e câmbio no ano passado. Ainda que as margens de lucro tenham sido apertadas, as safras abundantes e o dólar alto, compensando os preços achatados das commodities, deram um empurrãozinho para que o crescimento de receita líquida e VPG das empresas gaúchas fosse o maior no Sul. Para um Estado com saúde financeira e fiscal debilitadas, a agropecuária ganhou ares de oásis no deserto. O campo amenizou a queda de 3,4% do PIB gaúcho e foi o único setor que  cresceu em 2015 (13,6%).

Agora imagine o mesmo Estado, mas sem o bom desempenho da agropecuária. É assim que tem sido 2016. O excesso de chuvas prejudicou a quantidade e a qualidade da produção de arroz, milho e soja, as principais culturas gaúchas. Com uma base de comparação significativa, a produção da soja não deve se expandir mais do que 3%, enquanto as estimativas para a produção de arroz e milho são negativas. Para minar ainda mais as esperanças de uma recuperação do PIB, nem as exportações têm ajudado. Apesar do maior volume embarcado, o valor caiu 3,5% no primeiro semestre.

Responsável por 10% da riqueza produzida no Rio Grande do Sul, a agropecuária é chave para o desempenho de outros segmentos, como explica Vanessa Neumann Sulzbach, economista da Fundação de Economia e Estatística (FEE). “A estrutura produtiva do Estado está muito atrelada ao setor primário, com segmentos que fornecem insumos para o produtor – como fertilizantes e máquinas e equipamentos – e segmentos que são responsáveis pela industrialização, transporte, distribuição e comercialização dos produtos do setor”, esclarece. Sem seu paraquedas, a economia gaúcha fechou os primeiros seis meses do ano com um PIB 3,7% menor na comparação com o do ano passado, segundo projeção da FEE.

Mas, diz a sabedoria popular, todo fundo de poço tem uma mola. Um dos impulsos para o Estado pode vir, em 2017, da reabilitação da própria agropecuária. A Emater/RS projeta recuperação da produção da safra de grãos. Com as contas no vermelho, o governo estadual comemora o plano de concessões anunciado pela União que pode injetar R$ 5 bilhões em rodovias e no aeroporto Salgado Filho. A expectativa é que a medida ajude a resolver gargalos logísticos que impedem a atração de novos aportes – quando não afugentam as próprias companhias locais.

Outros importantes sinais de alívio para a economia gaúcha podem vir da Argentina. A  reestruturação da política de comércio exterior do país vizinho reestabelece uma relação comercial fundamental para o Rio Grande do Sul. O mercado argentino é o segundo principal destino das exportações gaúchas que, como lembra Vanessa, são preponderantemente de produtos de maior valor agregado. “Os principais setores que destinam parte de sua produção para a Argentina são o de veículos, produtos químicos e máquinas e equipamentos”, aponta. No exterior, o governo gaúcho ainda espera prospectar novos negócios neste ano. Em duas missões, uma para China e outra para Europa, representantes do Executivo vão em busca de novas empresas ao estado, além de abrir mercados para venda de produtos agrícolas, como carnes e leite.