O desafio de Santa Catarina

Silo-350Santa Catarina criou as bases da suinocultura e avicultura como atividade industrial. Berço de algumas das empresas mais tradicionais do setor, o Estado deu origem aos sistemas integrados de produção, que viraram regra na cadeia nacional de frangos e suínos. Não é de se estranhar, por isso, que a dona do maior Valor Ponderado de Grandeza (VPG) e da maior receita bruta entre as empresas catarinenses seja a BRF.

A empresa fez de 2013 um período de reestruturação. Com a chegada de Abilio Diniz ao Conselho de Administração, houve uma dança das cadeiras nos postos-chave da companhia, que adotou uma estrutura matricial, com a criação dos cargos de CEO global, CEO Brasil e CEO internacional. No final, a BRF registrou um crescimento de “apenas” 8,4% na receita bruta. Um resultado inferior ao da média das companhias catarinenses do setor de alimentos e bebidas, que foi de 15%. Mas, ainda assim, expressivo.

Agora, com a casa organizada, a empresa promete alçar voo a partir de 2014. Já no segundo trimestre deste ano, o lucro líquido cresceu quase 30% em relação ao mesmo período do ano anterior. A rentabilidade, grande mantra da nova gestão da BRF,  também apresentou uma expansão expressiva, de 37,6%. “Revisitamos o portfólio das marcas, investindo em produtos com maior valor agregado e rentabilidade”, explica Augusto Ribeiro, vice-presidente de finanças e relações com investidores da empresa.

Tal como a BRF, várias outras companhias da cadeia de suínos e aves de Santa Catarina vêm lutando para recuperar a competitividade. O setor é cada vez mais dependente de insumos da região centro-oeste, como o milho e o farelo de soja – usados na produção de ração. Só que, com o custo logístico, a atividade acaba se tornando muito mais cara do que em regiões mais próximas das grandes lavouras. “A produção de insumos migrou para o centro-oeste. Já o oeste catarinense se tornou incapaz de atender à demanda”, diz o economista João Rogério Sanson, consultor do Laboratório de Transportes e Logística da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). “Se o problema não for sanado, esse tipo de agroindústria pode migrar para outras regiões.”

O desafio de Santa Catarina não é propriamente produzir mais, e sim ter lugar para guardar os estoques. “Produzimos muita proteína e temos um bom volume de grãos, mas há uma deficiência grande na armazenagem”, explica Nelson Ronnie, superintendente do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) em Santa Catarina. O déficit na capacidade de armazenamento catarinense é de aproximadamente 2,2 milhões de toneladas. Ou seja, o volume que pode ser estocado é inferior às necessidades da indústria – que, assim, precisa trazer milho e farelo do centro-oeste a um custo muito mais elevado.

O governo catarinense está buscando soluções. Recentemente, lançou o Programa Armazenar, que tem como meta o aumento da capacidade de armazenagem em 1 milhão de toneladas nos próximos dois anos. O investimento para construção e ampliação de armazéns será de R$ 500 milhões – parte deles, com juros subsidiados pelo governo. O programa pode ser contratado por cooperativas, associações ou diretamente por meio de produtores rurais, com prazo de pagamento de até 15 anos – incluindo três de carência – e juros de 3,5% ao ano. Pelo BRDE, já foram contratadas 19 operações, que representam um aumento de 320 mil toneladas na capacidade de armazenamento do Estado. “Foram liberados R$ 212 milhões. Isso significa que mais de um terço da meta foi cumprida em oito meses”, diz o superintendente do BRDE.

Bons ventos para a indústria

O gargalo do armazenamento, porém, não afasta Santa Catarina dos investimentos em outros setores. Especialmente na indústria, que já responde por um terço da geração de riquezas do Estado. Entre os setores que mais empregam, despontam os segmentos de artigos do vestuário e de artigos têxteis. Muitas empresas desses segmentos despontam no ranking das 100 maiores.

É o caso da Hering. Dona de um faturamento superior a R$ 2 bilhões, em 2013, a companhia ocupa a décima colocação entre as maiores do Estado. Para se manter saudável perante a concorrência asiática, a empresa teve de apostar na diferenciação. “A saída foi investir em marca, inovação e antecipação de tendências, coisa que o mercado asiático não faz com tanta agilidade”, afirma Ronnie, do BRDE. A Dudalina, outro destaque no ranking, também seguiu esse caminho: criou uma grife e agregou valor à produção.

A BMW foi outra companhia que escolheu Santa Catarina como local de produção. Já no último trimestre de 2014, a empresa deixará de importar seus modelos e começará a produzi-los no Brasil – mais precisamente, em Araquari, no entorno de Joinville. Os investimentos, que chegam a quase R$ 1 bilhão, devem gerar mais de mil novos empregos até 2015. Incluindo a cadeia de fornecedores, a estimativa é que a movimentação da nova fábrica atraia uma segunda rodada de investimentos próxima de R$ 2 bilhões.

O setor também foi impulsionado pela inauguração, em 2013, de uma fábrica da General Motors em Joinville. Considerada uma das mais sustentáveis do mundo, a unidade tem capacidade de produção de 120 mil motores por ano e recebeu investimentos na ordem dos R$ 350 milhões. “Vemos, ainda, um crescimento grande nas empresas de TI”, analisa Ronnie.

Atenta às oportunidades, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) deve liberar R$ 3 bilhões para investimentos no setor nos próximos anos. Já o BRDE criou uma linha, chamada  BRDE Inova, para ser agente desses investimentos no sul. “Nos próximos cinco anos, a TI catarinense deve se destacar muito”, projeta Ronnie. Resta saber como essas tendências deverão mexer com o ranking das 100 maiores empresas de Santa Catarina.