A elite se renova no Paraná

area-de-montagem-350A consolidação dos resultados das maiores empresas do Paraná traz uma aparente contradição. A economia do Estado teve um desempenho acima da média nacional, em 2013, com um crescimento de 5% no Produto Interno Bruto (PIB). No entanto, somadas, as 100 maiores companhias paranaenses apresentaram uma queda de quase 10% no Valor Ponderado de Grandeza (VPG) – indicador exclusivo de AMANHÃ e PwC que resulta da soma ponderada de patrimônio líquido (50%), receita bruta (40%) e lucro ou prejuízo líquido do exercício (10%). O mesmo movimento foi observado em outros indicadores, como lucro líquido, receita bruta e patrimônio.

O motivo da queda, no entanto, não está relacionado ao desempenho das maiores companhias paranaenses. É, ao contrário, um detalhe puramente técnico: no final de 2013, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a aquisição da Vivo pela Telefônica – cuja sede fica em São Paulo. Com isso, a operadora foi excluída do ranking do Paraná, deixando um buraco de R$ 30 bilhões na soma das receitas brutas das 100 maiores.

A despeito da questão estatística, a indústria paranaense registrou um desempenho positivo em 2013, com um crescimento de 5,6%, bem superior à média nacional, de 1,2%, de acordo com dados do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes). Entre os setores que impulsionaram esse desenvolvimento, destaca-se a produção de veículos automotores, com um salto de 18,3%.

A Renault, maior empresa do setor automotivo, pulou da quarta para a terceira colocação no Estado – com um VPG de R$ 6,8 bilhões e receita bruta de R$ 14,7 bilhões em 2013, o que representa uma expansão de 6,3% em relação ao ano anterior. As perspectivas para a empresa são de um desempenho ainda melhor em 2014. O motivo é a conclusão das obras de expansão do Complexo Ayrton Senna, em São José dos Pinhais (PR). Com isso, a capacidade de produção da fábrica passou de 280 mil para 380 mil veículos por ano – cerca de um novo carro por minuto. “Paramos dezembro e janeiro para aportar mais de R$ 500 milhões. Ainda assim, chegamos a 6,6% de market share, uma boa performance”, diz Alain Tissier, vice-presidente da Renault do Brasil. “A Renault vem se saindo bem. Enquanto o mercado cai, nós crescemos. Trabalhamos para ter 7% de market share no final do ano”.

Embora a Vivo tenha deixado o ranking, o setor de telecomunicações não ficou desassistido. A GVT, que em 2012 aparecia como a sexta empresa do Paraná e a 12a entre os três Estados, pulou para a quarta colocação entre as empresas paranaenses – e para a sétima no cômputo geral do sul. Os resultados da companhia ainda estão longe da concorrente, mas seu crescimento tem sido expressivo. Em 2013, o faturamento da GVT ultrapassou os R$ 8 bilhões, uma expansão de 12,5% em relação ao ano anterior. Em 2012, a receita da companhia já havia crescido 36%. Para Ricardo Sanfelice, vice-presidente de marketing e qualidade da operadora, o desempenho é fruto da estratégia de oferecer um serviço de qualidade aos clientes. “Fomos eleitos a melhor banda larga do Brasil por cinco anos consecutivos”, afirma ele. “Para isso, mantemos um bom ritmo de investimentos, direcionando a maior parte deles à construção e à melhoria contínua da rede”.

Boas novas para a indústria

A indústria paranaense viveu períodos distintos nas últimas duas décadas. Entre a segunda metade dos anos 1990 e o biênio 2003-2004, a participação do Estado no PIB brasileiro superou os 6% em média. Desde então, essa participação tem caído lentamente. Enquanto o PIB brasileiro cresceu a uma média de 4%, entre 2003 e 2010, o Paraná registrou uma taxa de 3,7% ao ano. Com isso, a representatividade do Estado na formação do PIB nacional diminuiu. Em 2013, foi de 5,8%, enquanto em 2003 chegava a 6,4%.

Nos últimos três anos, contudo, o Estado vem fazendo um esforço para a retomada dos investimentos. Criado em 2011, o programa Paraná Competitivo tem o objetivo de reinserir o Estado na agenda dos investidores privados. O programa inclui uma série de benefícios fiscais a investimentos, como o alongamento dos prazos para recolhimento do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) para um período que varia entre dois e oito anos. O percentual do ICMS que pode ser postergado também varia: vai de 10% a 90%, conforme a localização e o número de empregos criados pelo futuro investimento. “O Paraná Competitivo tem visão mais aberta ao estímulo à iniciativa privada”, analisa Alexandre Alves Porsse, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Desde 2011, o programa já contabiliza mais de R$ 26 bilhões em novos investimentos, que estão criando 150 mil empregos em todas as regiões do Estado. A estimativa é de que, até o fim de 2014, atraia mais de R$ 30 bilhões e crie 180 mil empregos. O foco são investimentos para melhoria da infraestrutura, comércio exterior, desburocratização e capacitação profissional.

Uma das beneficiárias da iniciativa é a  GT Foods, dona de marcas como Frangos Canção e Mister Frango. Com a 30ª maior receita bruta do Paraná, a empresa deve usar os benefícios do Paraná Competitivo para impulsionar seu ciclo de crescimento – que, em 2013, atingiu 32% de alta na receita. Somente em Paranavaí, no noroeste do Estado, o grupo deve investir R$ 2,4 milhões em duas unidades, a de frangos e a de vegetais e pescados congelados. Um salto ainda maior deve ser dado até o final de 2016, quando a empresa planeja investir R$ 25 milhões em uma fábrica de embutidos – esta, com capacidade para produzir 5 mil toneladas por mês.

Há, é claro, outros investimentos de peso beneficiados pelo programa. Com uma receita bruta de R$ 891 milhões – um crescimento de 13% em relação a 2012 –, a Potencial Petróleo aparece em 63° lugar no ranking das 100 maiores do Paraná. Mas deve avançar no ranking com a construção de uma usina de biodiesel em Lapa, na região metropolitana de Curitiba. Contemplado pelo programa, o empreendimento prevê um investimento de R$ 88,5 milhões. Além da distribuidora de combustíveis, a Arauco, a maior empresa do setor de madeira e reflorestamento no ranking 500 MAIORES DO SUL, também deve ser beneficiada no projeto de ampliação de sua planta de Jaguariaíva, que receberá um aporte de R$ 272 milhões. C A cada ano, AMANHÃ tem dedicado uma de suas edições à imersão nos números da região sul e à análise do cenário que eles descortinam para os Estados do Rio Grande do Sul, do Paraná e de Santa Catarina. Com o selo “A Força do Sul”, este trabalho minucioso de levantamento de dados e tendências já nos permitiu, ao longo destes anos, delinear, por exemplo, o mapa do consumo no Brasil meridional e detectar os pontos fortes e as fragilidades que a região apresenta na disputa por grandes investimentos. Esse ano, porém, sentimos a necessidade de fechar o foco e dirigir a avaliação para um setor específico da economia do sul. E a escolha sobre a direção em que deveríamos mover os holofotes foi simples e natural.

Em uma pesquisa realizada com o apoio de AMANHÃ, a PwC ouviu executivos de 80 das maiores empresas paranaenses, catarinenses e gaúchas sobre o que esperam da economia em 2014, quais suas preocupações e esperanças e onde pretendem investir – entre outras questões relacionadas a suas estratégias e apostas. Eles foram convidados a apontar três setores que consideram os mais promissores para a região sul. Se você pensou no setor automotivo, não está muito enganado: foi esta a resposta de 36% dos executivos.  Mas um contingente muito mais expressivo, 79%, apontou sem hesitação o agronegócio.

É esta grande cadeia agroindustrial e de serviços que se revela nas páginas a seguir, inaugurando a fase temática da edição “A Força do Sul”.  O conjunto de estatísticas que reunimos aqui indica algumas evidências. A primeira delas é que, embora ainda responda por quase 38% do total de grãos colhidos no Brasil, o sul vê o título de “Celeiro do Brasil” migrar para o centro-oeste inapelavelmente. A segunda constatação é de que o protagonismo agroindustrial do sul dependerá de ganhos de produtividade e do emprego de tecnologias capazes de extrair mais omo se vê, o Paraná pode até perder companhias como a Vivo, mas não deixará de formar novos protagonistas.