Um transatlântico na tempestade

gerdau-350Gerdau não é o tipo de empresa que se expõe a imprevistos. No setor siderúrgico e entre analistas do mercado financeiro, o grupo é reconhecido pela consistência da gestão corporativa e pela capacidade de se manter alinhado a uma estratégia de crescimento de longo prazo – mesmo em cenários mais conturbados. Em 2013, por exemplo, a Gerdau registrou uma retração de 4,8% na produção de aço, além de uma queda de 5,1% no volume de vendas nos Estados Unidos e no Canadá. Mesmo assim, tocou adiante seu plano de investimentos, que totalizou R$ 2,6 bilhões. E ainda encerrou o ano com vendas totais de R$ 45,7 bilhões, 6,2% maiores do que em 2012. Indicadores mais do que suficientes para mantê-la na liderança do ranking 500 MAIORES DO SUL.

Agora, a companhia comandada por André Johannpeter está passando por mais um teste de resistência – desta vez, com obstáculos ainda mais desafiadores do que aqueles superados em 2013. Para começar, há excesso de aço nos principais mercados produtores, incluindo-se aí o Brasil. Para desaguar parte desses estoques, a China tem acelerado as exportações de produtos siderúrgicos – ocupando espaços preciosos. Só na América Latina, um mercado estratégico para a Gerdau, o volume de vendas de aço chinês cresceu 81% nos últimos dois anos, conforme as estimativas da Associação Latino-Americana do Aço (Alacero, na sigla em espanhol). Consequentemente, a Gerdau tem amargado quedas no faturamento oriundo dessa região. No segundo trimestre deste ano, por exemplo, as vendas no Brasil (sem incluir as unidades de aços especiais) caíram 9% em relação ao mesmo período do ano anterior. Já as das unidades latino-americanas diminuíram 13%. Nesse cenário, algumas usinas da empresa no Brasil já vêm trabalhando com 70% da capacidade instalada – bem abaixo da média do setor, que fica entre 80% e 85%. “São números abaixo do que esperamos”, admite Johannpeter.

As incertezas, porém, não chegam a causar alarde. Pelo menos, não o suficiente para inspirar guinadas estratégicas. Na mais recente conferência com investidores, realizada no final de julho, Johannpeter fez questão de frisar que o grupo vai manter – tanto quanto possível – os planos de crescimento para este ano e para o próximo. André Pires de Oliveira Dias, o vice-presidente executivo de finanças, controladoria & RI, também ressaltou que não houve cancelamento ou paralisação de projetos de expansão e melhoria. No máximo, disse ele, a Gerdau passará por alguns ajustes. “É só o ritmo que estamos segurando um pouco até que tenhamos uma previsibilidade maior”, garantiu ele.

Um exemplo é o plano de investimentos para 2014: originalmente, o grupo pretendia aplicar cerca de R$ 2,9 bilhões em novos empreendimentos produtivos ao longo do ano. Agora, o valor foi reduzido para R$ 2,4 bilhões – e deve se manter nesse nível em 2015. Pelo menos 65% dos investimentos deverão ser feitos em solo brasileiro. Os outros 35% irão para iniciativas fora do país, especialmente para a ampliação de usinas nos Estados Unidos e para a construção de uma nova aciaria e de um laminador no México.

E aí está uma das apostas da companhia para atravessar os tempos turbulentos: fortalecer as operações no exterior. Primeiro, porque a economia americana vem dando sinais contundentes de recuperação. No segundo trimestre deste ano, o volume de vendas da Gerdau nos Estados Unidos e no Canadá avançou 6,9% em relação ao mesmo período de 2013. Dias garante que a produção de aços especiais e de perfis estruturais para a indústria de construção não residencial norte-americana está próxima da plena capacidade. Além disso, há boas perspectivas de retomada do mercado automobilístico na Europa – o que favorece as usinas do grupo que trabalham com aços especiais.

“Os ativos nos Estados Unidos conferem à Gerdau uma vantagem que as outras grandes siderúrgicas brasileiras ainda não têm”, constata Bruno Piagentini, analista da corretora Coinvalores. Segundo ele, a Gerdau também está alinhada à tendência de diversificação no setor. Exemplo disso é a continuidade dos investimentos em atividades de mineração. Só em 2013, a companhia mais que triplicou suas exportações de minério de ferro, totalizando 1,2 milhão de toneladas. Além disso, inaugurou uma nova unidade de tratamento de minério em Miguel Burnier, no interior de Minas Gerais, e obteve autorização dos órgãos ambientais para ampliar a produção na mina de Várzea do Lopes, também em Minas Gerais, de 1,5 milhão para 6 milhões de toneladas anuais. Otimista, a Gerdau firmou um acordo com o governo mineiro, no final de 2013, comprometendo-se a aplicar cerca de R$ 5,8 bilhões nas operações de mineração de ferro no Estado, até 2020. “Paralelamente, a empresa está fortalecendo os negócios de aços planos, o que é uma diversificação a mais e serve de proteção contra eventuais percalços em seu mercado de origem [de aços longos]”, constata Piagentini.

Incertezas domésticas

O fato é que as maiores preocupações do grupo se concentram, hoje, no mercado doméstico. “A demanda baixa no Brasil é o que pesa mais”, assegura Johannpeter. Especialmente porque ela vem acompanhada de uma série de desafios macroeconômicos, como os índices mais altos de inflação e outros fatores – tipicamente brasileiros – que pressionam os custos para cima. “Neste ano, ainda tivemos a Copa do Mundo, com muitos feriados em dias úteis, que provocaram um aumento nos estoques da cadeia automotiva”, lembra o CEO da Gerdau. Como se não bastasse, há as eleições presidenciais em outubro. “Existe uma morosidade econômica. O resultado é que os empresários acabam represando parte de seus investimentos”, argumenta Piagentini, da Coinvalores.

Os números do mercado doméstico, em alguns casos, são alarmantes. De acordo com o Instituto Aço Brasil, entidade que congrega as siderúrgicas brasileiras, as vendas do setor estacionaram em 1,6 milhão de toneladas em junho deste ano – uma queda de 21% em relação a junho de 2013. Nesse contexto, um dos trunfos da Gerdau para preservar os bons resultados é o setor de infraestrutura. “A agenda de reformas infraestruturais vai ser um dos pilares da economia neste e no próximo ano. Há um cronograma de execução mais a médio e longo prazo, e isso traz alguma tranquilidade”, sustenta Piagentini. Johannpeter e Dias, da Gerdau, evitam fazer qualquer previsão para o futuro. Mas ninguém duvida de que o transatlântico tem condições de vencer mais essa tempestade.