A paciente reinvenção de um gigante

GERDAUMaior companhia da região Sul, o Grupo Gerdau moderniza a cultura corporativa, vende operações pouco rentáveis e já começa a exibir resultados mais animadores

Nos cálculos da World Steel Association, a demanda global de aço terá uma leve queda de 0,8% em 2016. O cenário poderia ser melhor, bem melhor – crescimento de 1,8% – não fosse o fraco desempenho do setor de construção e, principalmente, a desaceleração da locomotiva chinesa, que reduziu o consumo de aço em 4%. Diante deste quadro, o Grupo Gerdau decidiu repensar conceitos. E flexibilizar até mesmo uma das suas características mais conhecidas: a centralização da gestão.

A modernização da cultura corporativa do conglomerado conta, agora, com um receituário que prevê ações como dar maior autonomia às operações, desenvolver novas lideranças e adotar um modelo de gestão mais voltado para o cliente. Alguns distribuidores, por exemplo, poderão ter mais liberdade para negociar uma venda. Para analistas de mercado, a decisão é favorável para a companhia, porque dá agilidade ao processo de comercialização. Outra providência tomada pela maior empresa da região, segundo o ranking 500 MAIORES DO SUL, é a contínua reavaliação de ativos. A unidade operacional que não atingir determinada meta de rentabilidade será passível de negociação. E essa estratégia pode incluir, segundo a diretoria, desligamentos de usinas, fechamentos parciais, fusões, joint ventures e até mesmo alienação de parcelas de negócios ou ativos inteiros. Isso ocorreu em maio, com a venda da produtora de aços especiais na Espanha para a Clerbil SL por 155 milhões de euros.

“O escopo de possibilidades é amplo. Podemos, futuramente, anunciar [a formação de uma] joint venture ou fazer uma venda parcial, por exemplo. Não temos pressa ou meta específica estabelecida, mas importantes decisões devem ser tomadas ao longo deste ano e do próximo. Temos alternativas e estamos explorando várias delas. Isso faz parte da Gerdau que estamos reinventando”, revela André Gerdau Johannpeter, diretor-presidente da companhia.

Os conceitos adotados há cerca de dois anos, estão começando a dar resultado. Tanto é que alguns dos principais números do segundo trimestre, anunciados em agosto, vieram acima da expectativa. O lucro líquido alcançado foi de R$ 184 milhões no período, valor 15,7% maior que a o previsto pela corretora XP Investimentos. Trata-se de um ganho 1.214% superior ao do trimestre anterior, quando a companhia havia lucrado um valor modesto, de R$ 14 milhões – e bem diferente do prejuízo de R$ 4,5 bilhões do exercício de 2015. A receita líquida atingiu R$ 10,2 bilhões entre abril e junho, avanço de 2% em relação ao trimestre anterior.

Mercado interno
Parte desse resultado também se deve ao aumento da confiança na melhora da economia brasileira. “Há um sentimento de que o país parou de cair. Ainda é cedo para dizer quando e se haverá retomada, porém, há pequenos sinais que me fazem crer que o segundo semestre será melhor. A venda de carros parou de cair, mas ainda há necessidade da volta do emprego para que as pessoas possam voltar a consumir”, analisa Johannpeter, revelando que a capacidade operacional da companhia atingiu o índice de 75% no segundo trimestre (era de 65% entre janeiro e março).

Outra expectativa do executivo é que o governo acelere o processo de concessão de portos, rodovias e aeroportos – o que aumentaria a demanda por aço no Brasil e compensaria a queda das vendas nos segmentos da construção civil e automóveis. “Ainda está sendo desenvolvida a regulação dessa política. Mas acho que a discussão está indo na direção certa”, opina Johannpeter. Ele está convicto de que a Gerdau tem muito a ganhar  com o destravamento das obras de infraestrutura, um dos principais focos do governo de Michel Temer. Além disso, a produção brasileira de aço tem apresentado sinais de recuperação, assim como a venda de produtos siderúrgicos no país. “Alguns investidores estrangeiros estão muito interessados no Brasil. Caso as Parcerias Público-Privadas venham a se confirmar, acontecerão em um momento propício”, avalia Celson Plácido, estrategista-chefe da XP, apostando que o movimento trará benefícios para o grupo Gerdau.

Um componente importante é o câmbio, na medida em que praticamente um terço da produção de 3 milhões de toneladas é enviado para o exterior. A cotação do dólar pode ajudar a companhia – ou tornar tudo mais difícil. “Se a moeda norte-americana é cotada muito abaixo de R$ 3, a exportação se torna um problema, pois traz menos receita para o caixa – ainda que, claro, diminua a dívida”, contextualiza Plácido, da XP. “Achamos que pode haver um equilíbrio com um dólar entre R$ 3,10 e R$ 3,50. Porém ainda estamos nos beneficiando da diversidade geográfica. O balanço da companhia está equilibrado em relação à exposição ao dólar. Tanto é que a recente valorização do real resultou em um efeito positivo na dívida. No patamar da cotação atual, não temos nenhum desequilíbrio no caixa”, avalia Harley Lorentz Scardoelli, vice-presidente executivo de finanças da Gerdau.

A redução do endividamento, aliás, é comemorado pela Gerdau. O total da dívida bruta foi aliviado em R$ 3 bilhões entre março e junho, com a consequente queda do indicador dívida líquida/Ebitda [lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização] para 3,6 vezes. A notícia levou a Standard & Poor’s a reafirmar os ratings da siderúrgica. E a expectativa da agência de classificação de risco é de que a companhia manterá a tendência de desalavancagem. “Esperamos que o índice de dívida sobre Ebitda fique abaixo de 4 vezes em 2017, graças às margens resilientes nas operações dos Estados Unidos e ao aumento de rentabilidade nas operações da América Latina, excluindo o Brasil. Além disso, nos últimos seis a 12 meses, o grupo apresentou menores necessidades de capital de giro e reduziu seus investimentos, o que, combinado com a venda da operação de aços especiais na Espanha, resultou em significativa geração de fluxo de caixa livre e menor dívida”, avalia a S&P em relatório. Nos primeiros seis meses deste ano, o desembolso em investimentos foi de R$ 811,5 milhões. Com base nos investimentos previstos para o ano, a Gerdau planeja fazer um aporte de R$ 1,5 bilhão, considerando melhorias de produtividade e manutenção. O total é 35% abaixo do realizado no ano passado – o que chega a ser um mero detalhe diante das quebras de paradigma que a maior companhia do Sul foi obrigada a colocar em prática para seguir como um player competitivo no setor.