A gigante do Sul aposta na leveza

Crédito da foto Maribel Cachoeira (1)A convocação de uma audioconferência pela Gerdau no dia 24 de agosto chamou a atenção do mercado. Dois dias antes, a empresa havia anunciado o resultado de um leilão de troca de ações entre a Metalúrgica Gerdau, holding do grupo, e a Gerdau S/A. Naquela manhã de quinta-feira, jornalistas e analistas, que não participam em conjunto das usuais conferências trimestrais de avaliação de resultados, foram surpreendidos com a notícia de que André Gerdau Johannpeter, depois de 11 anos no posto de CEO, estava iniciando um período de transição para que Gustavo Werneck, atual diretor executivo da Operação Brasil, assumisse o cargo a partir do próximo ano. O processo de escolha de Werneck durou apenas um ano, enquanto a seleção do antecessor se prolongou por três anos. Além de André, os vice-presidentes executivos Claudio Johannpeter e Guilherme Gerdau Johannpeter, membros da quinta geração da família, também deixarão a gestão, para se dedicarem exclusivamente ao conselho de administração. “Foi uma decisão bem pensada. Como representantes do controlador, temos mais a contribuir na parte estratégica”, declarou André. Ele também esclareceu que o movimento não tem relação com a Operação Zelotes, na qual a empresa é uma das investigadas. Atualmente, dois membros da sexta geração trabalham na companhia.

Werneck, 44 anos, adiantou que, além da transição planejada para durar até dezembro, irá se dedicar à divisão de negócios do Brasil. “Meu foco será aumentar a rentabilidade da operação”, explicou. Ao longo da transição, ele terá como uma das suas responsabilidades escolher o substituto para o posto de diretor executivo da Operação Brasil, posição que deixará em janeiro.

Outra alteração implantada durante a transição será a transferência, para São Paulo, de parte das áreas corporativas da companhia, onde já está sediada a Operação Brasil. Para AMANHÃ, fontes ligadas à empresa informaram que está prevista a manutenção da sede histórica da Metalúrgica Gerdau na Avenida Farrapos, em Porto Alegre – mesmo porque o conglomerado decidiu que o conselho de Administração continuará na capital gaúcha. Assim, o balanço da holding deve continuar a ser publicado no Rio Grande do Sul.

Tendo no currículo um período de sete meses como CIO global da empresa, entre 2015 e 2016, a escolha de Werneck representa o novo momento pela qual tem passado a Gerdau nos últimos três anos. A companhia descentralizou a gestão, dando mais poder para áreas como a de vendas, por exemplo, que pode negociar com maior liberdade com potenciais clientes. A mudança no comando foi elogiada por analistas. “É um movimento na direção certa. A decisão pode acelerar algumas das iniciativas recentes para construir uma empresa mais enxuta e negócios de maior retorno. O fato é uma clara indicação de que o grupo é sensível ao tema, o que leva a crer em possíveis melhorias futuras na governança”, avalia Leonardo Correa, analista do Banco BTG Pactual. Há quem aposte que o próximo passo da maior empresa da região, de acordo com o ranking 500 MAIORES DO SUL, seja a migração para o Novo Mercado, nomenclatura que estabelece um conjunto de companhias que se encontram no mais avançado nível de governança corporativa, de acordo com a bolsa brasileira. Outra providência nessa mesma seara deve ser a escolha de um único papel para representar a companhia no mercado de capitais, pois atualmente tanto a controladora como a controlada possuem ações negociadas em bolsa, o que causa certa confusão entre os investidores.

Sinais de retomada
Os executivos da Gerdau têm deixado transparecer uma nítida alteração de ânimo em relação ao cenário econômico. Pelo menos há dois trimestres a siderúrgica demonstra que há retomada positiva nos diferentes mercados onde atua. Praticamente todos os indicadores evoluíram do primeiro para o segundo trimestre, caso da receita líquida, que avançou 8,4%, chegando a R$ 9,1 bilhões entre abril e junho em relação ao período de janeiro a março. “Temos boas perspectivas para os Estados Unidos, onde estão sendo gerados emprego e renda. No Brasil, ainda que a demanda do mercado interno continue baixa, vemos alguns sinais de retomada, como a queda dos juros e da inflação, e a volta da alta da produção industrial. Porém, a melhora significativa virá mesmo em 2018”, avalia Johannpeter, que comemora, ainda, a valorização do preço global do aço, impulsionado pelas commodities metálicas. Somente o minério de ferro obteve uma valorização de 30% entre julho e agosto. “Há possibilidade de uma mudança positiva de preço, mas eu não gostaria de estimar um índice”, tergiversa, deixando escapar que a alta pode durar até dezembro.

Com cerca de 40% do faturamento proveniente do exterior, outra aposta do grupo se concentra nos EUA. Na campanha presidencial, Donald Trump tinha como uma das principais bandeiras um vigoroso plano de investimentos em infraestrutura que, até agora, não foi colocado em prática. Ele promete injetar na economia nada menos que US$ 500 bilhões para recuperar pontes, estradas e viadutos. “Por conta da crise de 2008, o país deixou de fazer aportes nessa área e agora há uma cobrança por parte dos próprios habitantes por essa modernização. Se o plano realmente deslanchar, a Gerdau será beneficiada”, contextualiza Rafael Weber, gestor de recursos da Genial Investimentos (antiga Geração Futuro). O crescimento do PIB dos EUA no segundo trimestre superou estimativas. A alta foi de 3% na comparação anual, maior que os 2,6% da leitura preliminar de julho. Esse foi o avanço mais forte desde o primeiro trimestre de 2015, o que leva a crer que o vigor da economia pode impulsionar os aportes em infraestrutura. Para que o cenário da fabricante de aço fique ainda mais animador, falta a recuperação do mercado interno. Responsável por aproximadamente 45% da receita, o Brasil ainda tem muita capacidade instalada ociosa. Na Gerdau, o índice de utilização gira em torno de 65%. “A empresa fez a lição de casa ao mirar a eficiência das operações”, opina Weber. Poucas semanas após a divulgação das mudanças na gestão, a companhia anunciou a venda da operação no Chile, focada em aços longos, por cerca de R$ 500 milhões. No que depender da atual velocidade das mudanças na companhia, a gestão de Werneck tende a buscar rotas seguras – nada mau para um transatlântico que conseguiu sobreviver a uma feroz tempestade.