Hora de retomar o fôlego para 2018

À primeira vista, o desempenho das 500 MAIORES DO SUL em 2016 é desapontador. A soma de todos os patrimônios fechou em R$ 283,8 bilhões, praticamente repetindo a cifra de 2015 – o acréscimo foi de 1,1%, e só. Quanto à receita líquida, as cinco centenas de companhias classificadas no ranking de AMANHÃ e PwC produziram, juntas, uma cifra de R$ 516,4 bilhões, o que significa dizer que, em relação ano anterior, o faturamento total delas cresceu zero – ou, para ser preciso, 0,3%. Retrato de um ano perdido? Nem tanto.

Em primeiro lugar, é preciso considerar o ambiente infernal que as empresas enfrentaram em 2016, quando o PIB brasileiro encolheu 3,6% – e leve-se em consideração que a economia do país já havia sofrido em 2015 um tombo de -3,7%. Castigadas por uma recessão sem precedentes, os discretos avanços obtidos no ano passado devem ser comemorados como uma obra de pura resiliência. Foi um período para ajustes internos e busca de eficiência no limite do possível. Não foi o bastante para 109 das 500 maiores, que fecharam 2016 no prejuízo – três a mais que em 2015 – mas o esforço amorteceu as perdas. A soma dos prejuízos, R$ 10,5 bilhões, foi bem inferior à de 2015, que havia chegado a R$ 13,7 bilhões. Também é verdade que os ganhos caíram, mas em proporção menor. As superavitárias acumularam um lucro líquido de R$ 33,6 bilhões, montante 8,3% abaixo do que fora contabilizado no exercício anterior. A regra geral foi comprimir margens de lucro para sustentar o nível de vendas, e em consequência a rentabilidade média entre as lucrativas foi de 6,9% da receita. Não é um retorno empolgante, mas ao menos o índice não baixou em relação à média de 2015. Algumas companhias, no entanto, pareceram ignorar o quadro de estagnação da economia e produziram balanços inacreditavelmente robustos. A catarinense Eletrosul praticamente dobrou seu faturamento para R$ 3,1 bilhões. A Rodoil, maior distribuidora regional de combustíveis do Sul do país, comemorou uma  receita de R$ 2,4 bilhões, um salto de 83%. Outros casos dignos de registro foram protagonizados pela a Refinaria de Petróleo Riograndense, que faturou 52,8% mais que em 2015, e a paranaense Capal (32%).

Dívida ou investimento
A média do endividamento das 500 MAIORES DO SUL teve um recuo de 1,2 ponto percentual na comparação com 2015, baixando para 52,9% do ativo total. Mas este é um daqueles indicadores que tanto podem inspirar otimismo quanto preocupação. Afinal, dívida não é, necessariamente, um problema. “Tomar um empréstimo pode revelar um necessário aumento de investimento para melhorar o fluxo de caixa”, recorda Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, de São Paulo. Agostini lembra que muitas companhias, durante a crise, aproveitaram oportunidades ao adquirir ativos que foram depreciados, por exemplo. O economista se diz, ele próprio, uma testemunha do recente aumento da demanda de investidores estrangeiros, e mesmo de empresas brasileiras, por informações setoriais estratégicas. “Existe uma clara disposição de investir na economia já com vistas ao próximo ano”, conta. A queda contínua e acentuada da taxa Selic e seu efeito redutor sobre os juros cobrados pelos bancos também compõe, no entender de Agostini, o ingrediente que alimentará um novo ciclo de crescimento da economia nos próximos anos. O otimismo que retorna ao ambiente de negócios a partir de 2017 também é percebido pelo sócio líder da PwC para a região Sul, Carlos Peres. A sinalização fundamental vem da retomada do crescimento do PIB, que não autoriza projeções superiores a 1% – por enquanto. “À medida que as coisas forem ficando mais claras, as companhias estarão mais propensas a retornar aos planos de investimento que haviam estabelecido. Acredito em uma retomada mais firme a partir do segundo semestre de 2018, a depender dos desdobramentos da eleição e de como o mercado reagirá”, entende Peres.

A força de cada Estado
Na listagem das 500 MAIORES DO SUL, o Paraná e o Rio Grande do Sul travam uma saudável e equilibrada competição. As empresas paranaenses superam as gaúchas na soma de patrimônios e de lucros, além de apresentar a mais alta média de rentabilidade. A gangorra se inverte na soma das receitas líquidas. As empresas do Rio Grande do Sul faturaram R$ 187,8 bilhões, quase R$ 10 bilhões a mais que as companhias do Paraná.  Os dois Estados aparecem em um duelo acirrado em dois outros indicadores. No mais importante deles, a soma dos valores ponderados de grandeza (VPGs), o Rio Grande do Sul está em ligeira vantagem:  R$ 126,8 bilhões ante R$ 125,6 bilhões das paranaenses. Calculado a partir de uma ponderação entre patrimônio, receita e lucro, o VPG é o principal critério de elaboração do ranking 500 MAIORES DO SUL desde 1991, quando foi desenvolvido exclusivamente para este fim por PwC e AMANHÃ. A outra situação de quase empate é a origem das empresas: 186 provêm do Rio Grande do Sul e 185 são oriundas do Paraná, que este ano reforçou sua bancada com quatro companhias a mais na comparação o ranking anterior.

O poderio paranaense poderia ser ainda maior, mas o Estado não pode contar, desta vez, com 13 empresas até então presentes entre as 100 maiores – casos de Adama e Companhia Providência, que não enviaram ou não publicaram seus balanços em tempo hábil. Ou mesmo a Gonçalves & Tortola (detentora da marca Frangos Canção), que impetrou pedido de recuperação judicial em agosto do ano passado. No lado gaúcho, também foram computadas defecções – porém, em menor número (11). Entre as ilustres ausências, estão a rede de supermercados Zaffari (que não publicou suas demonstrações financeiras), o Grupo Tramontina (que optou por não oferecer seus números consolidados), a Getnet, a Goldztein Cyrela e a Videolar-Innova – todas organizações que passaram a consolidar seus balanços em outras companhias cujas sedes estão fora do Sul. O que pode definir com mais clareza o quadro de forças entre paranaenses e gaúchos na próxima edição é o desempenho da economia. A boa performance no primeiro semestre deve contribuir para que o Paraná feche o ano com crescimento do PIB. A projeção do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico Social (Ipardes) é de um avanço de 1,5% neste ano. Outra estimativa, retirada do relatório Mapa da recuperação econômica, dos economistas Everton Gomes e Rodolfo Margato, do Santander, aponta para um crescimento um pouco maior: 1,7%. Com dois trimestres consecutivos de crescimento, o Paraná tecnicamente saiu da recessão. No primeiro trimestre, a economia havia avançado 2,5% e, no segundo, 0,1%, na comparação com o mesmo período do ano anterior. O mesmo estudo do Santander prevê que a economia gaúcha avançará 1,5%. A soma das riquezas produzidas pela economia gaúcha até junho alcançou 2,1% de crescimento. O indicador foi bastante influenciado pelo desempenho total da agropecuária, que cresceu 11,7%, com especial destaque para os negócios do complexo soja, que cresceram 15,7%.

Situada entre os dois rivais, Santa Catarina não compete na raia de grandeza, e sim na de velocidade e dinamismo. Pelos cálculos do levantamento do Santander, o PIB catarinense deve ter o maior crescimento da região Sul, cerca de 2%, em 2017. Neste ritmo, as empresas catarinenses vêm ganhando terreno entre as 500 MAIORES DO SUL. A soma de suas receitas em 2016 chegou a quase R$ 150 bilhões. No ranking, elas mostram a menor soma de prejuízos e a menor média de endividamento. E demonstram disposição para expandir seus negócios. Em março, por exemplo, a Cooperalfa anunciou a compra de duas plantas frigoríficas da Cotrel, de Erechim (RS), no valor de R$ 108 milhões. E ainda adquiriu sete unidades de armazenamento de grãos do grupo Sementes Estrela por R$ 44 milhões. Como se pode notar, o apetite catarinense será um desafio a mais para as companhias gaúchas e paranaenses na disputa por espaços na elite corporativa do Sul.