Para fugir da turbulência

As 500 MAIORES DO SUL fizeram ajustes de rota e adotaram estratégias defensivas, como a redução de margens, para sobreviver à tempestade de 2015

Quem se despediu com alegria de 2014 mal sabia o que estava por vir no ano seguinte. O tombo de 3,8% no PIB descortinou, a partir de 2015, a mais grave crise da economia brasileira. Em um cenário de recessão que parecia remeter o país a 1990, com o confisco do Plano Collor, os negócios empacaram. O PIB industrial caiu 6,2% e o dos serviços, que tem maior peso no Produto Interno Bruto, encolheu 2,7%. Menos mal para o país, e principalmente para o ambiente econômico do Sul, que o PIB agropecuário sustentou uma expansão de 1,8%. Não chegou a ser uma salvação da lavoura, mas atenuou consideravelmente o impacto de um ano duríssimo. Das 500 maiores empresas do Sul, 106 tiveram prejuízo. Em 2014, o ano que muitos abominaram, a pancada doera menos: 74 balanços no vermelho.

Olhando-se os gráficos da página ao lado, deve-se reconhecer, em favor da elite empresarial do Sul, que o seu desempenho acabou sendo bastante razoável, dadas as circunstâncias de 2015. Tome-se o Valor Ponderado de Grandeza (VPG), primeiro e mais importante indicador utilizado por AMANHÃ e PwC para classificar as 500 MAIORES DO SUL. Se somarmos o VPG – ponderação de patrimônio, receita e resultado líquido – de todas as companhias, da número 1 até a detentora da posição 500, chegaremos a R$ 348,4 bilhões, valor 5,7% superior ao de 2014. Esse montante foi puxado para cima pelo desempenho de empresas como o Banco Sistema, parte do ex-Bamerindus hoje pertencente ao BTG Pactual. Ou a Refinaria de Petróleo Riograndense, que retomou a operação com refino próprio e aditivou fortemente seus resultados em 2015.

Outro ponto fora da curva, pelo lado positivo, é a Itaipu Binacional. A usina, que pertence aos governos do Brasil e do Paraguai, acumulou um lucro de R$ 7,9 bilhões – o triplo do resultado que havia alcançado em 2014. O salto foi possível em razão do término do período de estiagem, que provocou racionamento de energia em todo o país , em 2014. Embalada, a Itaipu recuperou o posto de maior produtora de energia hídrica do mundo em 2015. Produziu 89,2 milhões de megawatts-hora , superando a gigante chinesa Três Gargantas. O feito, somado à valorização de 47% do dólar entre 2014 e 2015, turbinou o caixa.

Na via inversa, também é possível apontar companhias que, pelas dificuldades enfrentadas e pelo tamanho que têm, inflaram números negativos. A soma dos prejuízos das 500 maiores – conta que, naturalmente, envolve apenas as 106 empresas que fecharam 2015 no vermelho – chegou a R$ 13,7 bilhões. Este volume de perdas supera o de 2014 em assustadores 162%. Metade dos prejuízos se concentra em dois titãs do Sul, a Gerdau, que é a número 1 do ranking, e a Klabin. Juntas, elas arcaram com prejuízos de R$ 6,8 bilhões no ano passado.

Não restou alternativa para grande parte das empresas a não ser usar o conhecido receituário de cortar tanto os custos quanto as margens de lucro. Isso fez a rentabilidade média do pelotão de elite das 500 maiores ser reduzida para 6,9%, ante o índice de 8,5% obtido em 2014. “O ano de 2015 saiu pior do que estávamos prevendo inicialmente. Fomos obrigados a adaptar a estrutura para uma nova realidade neste ano. Tivemos de ajustar todas as nossas despesas e custos”, conta João Farina Neto, presidente da Todeschini. A  fabricante de móveis de Bento Gonçalves (RS) viu a rentabilidade cair 6,1% pontos percentuais, para 17,4%, entre 2014 e 2015. Além de enxugar despesas em todas as áreas da companhia, a Todeschini teve de dispensar cerca de 15% dos 1,5 mil funcionários.

Quem é quem no Sul
O Rio Grande do Sul desponta, no âmbito do Sul, como o Estado cujas empresas apresentam a maior soma de VPG, receita líquida e patrimônio. No entanto, quando a lente se move dos critérios de tamanho para os de resultado, a situação das companhias gaúchas se inverte e a comparação fica desfavorável a elas. As empresas do Rio Grande do Sul têm a menor soma de lucros e o maior volume de prejuízos. Já o Paraná, que em outros anos teve supremacia em indicadores como soma de VPGs, de patrimônio e de receita, desta vez ficou atrás do Rio Grande nesses quesitos. Mas a perda de peso tem relação com circunstâncias contábeis. A GVT deixou o ranking por ter sido incorporada à Telefônica Vivo, com sede em São Paulo. Outra defecção paranaense se deve à decisão tomada pelo Grupo J. Malucelli de não mais reunir em um mesmo balanço a consolidação de todas as suas empresas – um conglomerado de 84 companhias. Para se ter ideia do que a GVT e o Grupo J. Malucelli representavam, em 2014 ambas produziram receitas que somaram R$ 7,4 bilhões. O Paraná pode se orgulhar, porém, de exibir a maior soma de lucros entre os três Estados do Sul: R$ 16,9 bilhões, praticamente o dobro do que alcançaram as companhias do Rio Grande do Sul que tiveram resultado positivo em 2015.

Santa Catarina, o menor dos três vizinhos do Sul, sempre ocupa o degrau mais baixo do pódio regional nos indicadores de tamanho – mas vai à forra em índices de desempenho. As empresas catarinenses tiveram em 2015 a mais alta média de rentabilidade (veja gráficos), e um volume de prejuízos três vezes menor que o das paranaenses, por exemplo. Também chama a atenção o fato de que novamente Santa Catarina aumenta o número de empresas entre as 500 MAIORES DO SUL – na edição deste ano, totalizam 131, ante 126 do ranking anterior.

O ano de 2015 foi severo para Santa Catarina, cujo PIB decresceu 4,1% em 2015. Para efeito de comparação, a economia gaúcha encolheu 3,4% e a do Paraná, 2,8%. Mas, como se verá nesta edição de GRANDES & LÍDERES – 500 MAIORES DO SUL, a crise traz exemplos de superação e inventividade. Um deles é protagonizado pela Weg. Com notória vocação exportadora, a fabricante de motores elétricos de Jaraguá do Sul não deixou de lado o mercado interno. Ao contrário. Com poucos projetos de geração programados no Brasil, a empresa comemorou a conquista de seus clientes no leilão A-5 promovido em abril deste ano pelo governo federal.  A Weg também tem apostado  na expansão da sua fatia no segmento de autopeças, onde aparecia, até pouco tempo atrás, como um fornecedor secundário. “Temos ganhado market share. Estamos buscando novos clientes, até porque os antigos estão em dificuldades”, admite Luis Fernando Oliveira, gerente de relações com investidores da empresa. Nessa busca de alternativas, qualquer conquista é relevante em um período que tem deixado as empresas do Sul – quem diria – com saudades de 2014.